Penúltimo dia na Eslováquia também com jovens

O Papa com os ciganos: “Pôr as pessoas em guetos não resolve nada”

| 14 Set 21

Papa Francisco, ciganos, Eslováquia

O Papa no bairro de Luník IX, em Košice (Eslováquia), onde moram milhares de ciganos em condições miseráveis, sem água, luz ou gás: “Bem-vindo a nossa casa”, diz o cartaz na janela. Foto © Vatican News.

 

O Papa Francisco esteve na tarde desta terça-feira com os ciganos do bairro de Luník IX, em Košice (Eslováquia), afirmando que “colocar as pessoas em guetos não resolve nada”.

Tendo diante de si – no campo onde decorreu a cerimónia e nas janelas e varandas das casas – cerca de cinco mil ciganos que vivem em condições miseráveis, sem água, corrente, luz ou gás, o Papa afirmou: “Muitas vezes fostes objecto de preconceitos e juízos cruéis, estereótipos discriminatórios, palavras e gestos difamatórios. Com isso, todos ficamos mais pobres, pobres em humanidade. O que precisamos para recuperar a dignidade é passar dos preconceitos ao diálogo, dos fechamentos à integração.”

Acolhido em clima de festa, Francisco escutou vários testemunhos de habitantes do Luník IX. Elogiou, depois, o sentido de família das comunidades rom, apresentando a Igreja como a “casa” de todos, mas admitindo que “não é fácil ultrapassar os preconceitos, mesmo entre os cristãos”. Também na Igreja, disse, os ciganos devem ser acolhidos e “ninguém se deve sentir estranho nem marginalizado”.

Desde 2008, recorda a Ecclesia, vários religiosos acompanham as pessoas do bairro. Um deles, o padre Peter Besenyei, falou ao Papa da vida e das dificuldades do gueto do Luník IX e das actividades do centro pastoral salesiano, que dirige.

“Não se pode reduzir a realidade do outro aos próprios modelos pré-concebidos, não se podem rotular as pessoas. Antes de mais nada, para conhecê-los verdadeiramente, é preciso reconhecê-los: reconhecer que cada um traz em si a beleza incancelável de filho de Deus, no qual se espelha o Criador”, afirmou Francisco, numa intervenção em italiano traduzida para eslovaco.

“O caminho para uma convivência pacífica é a integração. É um processo orgânico, lento e vital, que começa com o conhecimento mútuo, prossegue com a paciência e estende o olhar para o futuro”, insistiu.

 

No “Bronx” de Bratislava

A ideia da integração social das pessoas mais marginalizadas já tinha estado presente na véspera, quando o Papa se encontrou com um grupo de sem-abrigo num centro dirigido pelas Missionárias da Caridade, congregação religiosa fundada por Madre Teresa da Calcutá.

Num bairro conhecido como o “Bronx” de Bratislava – numa alusão a um dos bairros historicamente mais pobres de Nova Iorque –, o Papa disse apenas umas curtas palavras, que nem sequer estavam previstas, depois de ter escutado histórias de vida daquelas pessoas.

“Boa tarde a todos. Estou feliz por poder visitar-vos, estar no meio de vós! Estou muito feliz. Obrigado por me receberem! E agradeço imenso às irmãs pelo trabalho que realizam: trabalho de acolhimento, ajuda, acompanhamento. Muito obrigado!”

Francisco estendeu depois os sentimentos de gratidão: “Agradeço às mães, aos pais que estão aqui com os filhos; e agradeço a todos os adolescentes por estarem aqui neste momento. Também o Senhor está connosco: quando estamos juntos, assim felizes, o Senhor está connosco. Está connosco também quando atravessamos momentos de provação: O Senhor nunca nos abandona, está sempre perto de nós. Possamos senti-lo ou não, mas sempre nos acompanha no caminho da vida: não vos esqueçais disto, sobretudo nos momentos ruins. Obrigado, muito obrigado!”

“As irmãs costumam sair das suas casas e vão busca-los ao bosque, às estradas, debaixo das pontes e trazem-nos para aqui”, explicava o padre Vitek, em declarações ao portal de notícias do Vaticano. “O maior problema é a perda do sentido da vida. Desgraçadamente, não podemos ajudar a todos como gostaríamos e muitos acabam de novo na rua.”

 

O amor contra as ilusões

Nesta terça-feira, o Papa esteve ainda com milhares de jovens no Estádio Lokomotiva, ainda em Košice, depois de ter ido ao bairro cigano. “Cada qual é um dom, e pode fazer da vida um dom. Esperam-vos os outros, a sociedade, os pobres. Sonhai uma beleza que vá para além da aparência, para além das tendências da moda”, disse o Papa, acrescentando: “Os grandes sonhos não são o carro potente, o vestido da moda ou as férias extravagantes. Não deis ouvidos a quem vos fala de sonhos e, em vez disso, vende ilusões.”

Depois de ser saudado pelo arcebispo de Košice, o Papa convidou ainda os jovens a rejeitar a “cultura do provisório” para “ir além do instinto e do instante”, pois o amor “é amar por toda a vida e com todo o próprio ser”. E não deixou de usar metáforas da vida dos mais novos: “Cheios de mensagens virtuais, corremos o risco de perder as raízes reais. Desligar-nos da vida real, fantasiar no vazio, não faz bem; é uma tentação do maligno.”

Também em Košice, cidade do leste do país, próxima das fronteiras com a Hungria (a sul) e a Ucrânia, o Papa presidiu à Divina Liturgia em rito bizantino, numa homenagem aos católicos desta comunidade que foram perseguidos durante o regime comunista, na segunda metade do século XX.

“Penso nos mártires que deram testemunho do amor de Cristo nesta nação em tempos muito difíceis, quando tudo aconselhava a ficar calado, pôr-se a seguro, não professar a fé. Mas não podiam deixar de testemunhar. Quantas pessoas generosas sofreram e morreram aqui, na Eslováquia, por causa do nome de Jesus”, disse, perante milhares de pessoas, e referindo depois os que ainda hoje, são perseguidos por causa da sua fé.

Esta 34ª viagem internacional termina na manhã desta quarta-feira, 15, com a celebração da eucaristia no Santuário Nacional de Sastin, na Eslováquia, a uns 50 quilómetros de Bratislava e também encostado à fronteira com a Áustria. Os discursos já pronunciados pelo Papa estão disponíveis na página do Vaticano dedicada à viagem.

 

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