Quando soube que o novo Papa tinha publicado uma encíclica dedicada à inteligência artificial (IA), fiquei com uma pergunta que não consegui silenciar: porque é que isto era o mais urgente?
A armadilha da atenção
Há uma ironia que o próprio documento não parece notar. Uma das críticas mais sérias que a encíclica faz à inteligência artificial é precisamente a sua capacidade de capturar a atenção, de fazer com que certas questões pareçam urgentes e outras desapareçam do horizonte.
Será que o Vaticano não terá feito exatamente o mesmo? Leão XIV dedicou a primeira grande encíclica social do seu pontificado ao tema que está em todas as conversas, que os bilionários do Vale do Silício tornaram o assunto do momento.
A IA é importante. Mas é assim tão mais importante do que a fome, a água, as guerras que já existem, as migrações forçadas, a solidão que corrói as sociedades por dentro? O documento toca em tudo isso — mas de passagem, como contexto para a questão tecnológica. A IA é o primeiro plano. O resto é cenário.
Uma instituição que diz querer resistir à lógica do espetáculo acabou, talvez sem dar conta, a produzi-la.
135 anos e o mesmo reflexo
Em 1891, Leão XIII publicou a Rerum Novarum em resposta ao socialismo crescente. O documento tinha intuições genuínas — mas tinha também uma dimensão defensiva: a Igreja a reagir a uma narrativa que não tinha escolhido, a oferecer uma “terceira via” num debate que outros tinham definido.
O resultado foi uma instituição tão ocupada a debater socialismo e capitalismo que demorou a ver o colonialismo, que se atrasou em quase tudo o que não cabia nas categorias desse confronto.
Hoje o risco é o mesmo. A Igreja entra no debate que o hemisfério Norte, as empresas mais poderosas do mundo, definiram como central. E ao entrar nele — mesmo criticamente — legitima-o como o debate que importa. Tira oxigénio a outras coisas. E esse oxigénio faz falta.
O Papa americano e as narrativas herdadas

Leão XIV à saída da apresentação da encíclica Magnifica Humanitas, no Vaticano, esta segunda-feira. Foto © Vatican Media
Leão XIV é americano. O debate sobre IA nos Estados Unidos é um debate de elite — Silicon Valley versus Washington, sempre dentro de um universo de pressupostos partilhados sobre o que é progresso e o que merece atenção.
De alguém que aspira a falar para a Humanidade inteira esperava-se o esforço de sair dessas narrativas. De perguntar: o que é que isto parece a partir de Lagos? De Manaus? De Dhaka? De um campo de refugiados?
Vista desses lugares, a IA é um problema de outra galáxia. O problema é a água. É a segurança. É que o filho não morra antes dos cinco anos.
Francisco, com todas as suas limitações, tinha esse instinto — a Laudato si’ falava de clima, mas o verdadeiro sujeito era o pobre que vive nas consequências que não criou. Ao ler a Magnifica Humanitas sinto que a ordem se inverteu.
Os males e as esperanças são os mesmos
O que há de mais verdadeiro na Magnifica Humanitas é a afirmação de que a condição humana não mudou. Os riscos de hoje têm nomes novos, mas raízes antigas: concentração de poder, instrumentalização dos mais fracos, sistemas que prometem perfeição e produzem exclusão.
Mas isso não precisava de uma encíclica sobre IA. Precisava de uma encíclica sobre as pessoas — estas pessoas, agora — onde a tecnologia fosse contexto, não tema.
Há um mundo enorme que não debate algoritmos e que vive com problemas que a IA não vai resolver. Esse mundo merecia ser o ponto de partida.
Um último apontamento: este artigo foi escrito com apoio da IA. E por momentos tive a impressão de que a encíclica também. Paradoxo total.
João Wemans é engenheiro físico, doutorado pelo Instituto Superior Técnico. Consultor da área digital e estratégica da empresa eVISO.










