O Papa em Moçambique, uma viagem desejada mas com riscos, para insistir na paz

5 Set 19Destaques, Igreja Católica, Igrejas Cristãs - Homepage, Newsletter, Papa Francisco, Últimas

Populações atingidas pelo Idai, em Março: a região da Beira ficará à margem do programa do Papa. Foto © Caritas Internationalis. Foto da capa: o Papa a saudar a multidão, no aeroporto de Maputo, quarta. dia 4, ao início da noite. Foto extraída da transmissão em directo do Vatican Media.  

 

Uma viagem desejada mas com riscos, onde não faltam críticas do interior da própria Igreja Católica, dedicada ao tema “Esperança, paz, reconciliação” mas que deixa incompreensivelmente de fora algumas das populações mais necessitadas de esperança – as da região centro do país, devastada em Março pelo ciclone Idai. Durante pouco mais de 48 horas, o Papa está em Moçambique (onde chegou ao fim da tarde de quarta-feira, 4 de Setembro), primeira etapa de um périplo que o levará ainda a Madagáscar e Ilhas Maurícias.

O Papa chegou ao fim da tarde desta quarta-feira, 4 de Setembro. Depois de recebido no aeroporto pelo Presidente Filipe Nyusi, outras autoridades políticas e bispos, além de uma multidão que o aclamava, dirigiu-se para a nunciatura apostólica, onde ficaria alojado. No trajecto, continuou a haver muita gente a saudá-lo, depois de dias de expectativa sobre a sua vinda.

Quinta-feira o dia será preenchido com encontros com políticos e diplomatas, jovens e crentes de diferentes religiões, clérigos e religiosos, catequistas e animadores de comunidades católicas. A visita do Papa Francisco a Moçambique incluirá ainda, no final da tarde, uma visita privada à Casa Mateus 25, uma instituição de acolhimento de pessoas doentes. Sexta de manhã, Francisco visitará um hospital e preside a uma missa no estádio de Zimpeto, antes da partida, ao início da tarde, para Madagáscar, a etapa seguinte.

É de prever que, no primeiro discurso que fará – e possivelmente também no encontro inter-religioso com jovens, ainda na manhã de quinta-feira, e na missa de despedida, sexta-feira – o Papa aborde os temas da paz e da reconciliação. A 6 de Agosto, depois de um acordo de cessação de hostilidades, o Governo e a Renamo assinaram o “Acordo de Paz Definitiva”.

Para a população, a expectativa é que a visita de Francisco e os apelos que não deixará de fazer selem a palavra “definitiva” consagrada no acordo entre o Governo da Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique, que lidera o país desde a independência, em 1975, e durante muitos anos em regime de partido único e sem liberdade política) e a Renamo (Resistência Nacional de Moçambique, principal partido da oposição e, durante os anos de guerra civil, adversário armado do Governo da Frelimo).

 

Consolidar a paz

A viagem de Francisco pode ser importante para consolidar a paz em Moçambique, afirmou, em declarações à Lusa citadas no Público, o padre Tony Neves, dos Missionários do Espírito Santo, que trabalhou nos países lusófonos africanos durante vários anos. Mas há ainda muito cepticismo decorrente do facto de o país nunca ter consolidado a paz já prevista no acordo geral de Outubro de 1992, negociado com a intermediação da Comunidade de Santo Egídio e do então arcebispo da Beira, Jaime Gonçalves – cujo papel era recordado num artigo do padre José Luzia, publicado no 7MARGENS.

Por coincidência, o principal mediador por parte da Comunidade de Santo Egídio, o então padre Matteo Zuppi, foi um dos nomes anunciados pelo Papa no domingo como um dos novos cardeais.

Outra razão para o cepticismo é que vários membros militares da Renamo não aceitaram o acordo de Agosto e ameaçam retomar as hostilidades. Além disso, têm sido notícia vários ataques no norte do país, por parte de grupos não identificados, mas que são apontados como sendo islamitas.

Se a paz e a reconciliação do país são o problema número um a que o Papa não deixará de aludir, há outro elemento que não é pacífico, em relação à própria visita e à data escolhida: o país está em campanha eleitoral (haverá eleições a 15 de Outubro). Eric Morier-Genoud, professor de História na Universidade de Belfast, que fez uma tese de doutoramento sobre o catolicismo e a política em Moçambique entre 1940 e 1986, dizia há dias ao Público, que há “um alto risco de aproveitamento da visita por parte do partido no poder, a Frelimo”.

Claro que o Papa estará consciente disso mesmo e não deixará de vincar, sempre que possível, o seu afastamento da contenda eleitoral. Mas não poderá livrar-se das imagens que serão captadas e difundidas nas televisões e nos jornais. E também já não se livra das críticas que vários responsáveis católicos – incluindo bispos – fizeram à data escolhida (o secretário-geral da Cáritas Moçambicana considerou que não seria oportuna) e ao facto de o programa limitar a presença do Papa à capital, Maputo, não incluindo no roteiro a Beira, castigada pelo Idai em Março. Ou seja, a dimensão da esperança que outros moçambicanos reclamariam do Papa não será, para eles, tão facilmente concretizada.

O ciclone Idai acrescentou, aliás, destruição e deterioração social grave a uma situação já marcada por graves índices de pobreza e de doenças como a sia, por exemplo.

 

Diálogo inter-religioso e escravatura

Falando de paz, o Papa católico também se confronta com os incidentes violentos de origem islamita no norte. Nesta perspectiva, o encontro inter-religioso de Francisco com jovens, na manhã de quinta-feira, 5, pode ser um ponto alto da viagem. De acordo com o Censos de 2017, a população reparte-se entre 8,8 milhões de protestantes (sobretudo de grupos evangélicos) 7,3 milhões de católicos, e cinco milhões de muçulmanos (concentrados essencialmente a norte), o diálogo inter-religioso é um desafio decisivo para o país e os crentes moçambicanos.

Numa mensagem vídeo que o próprio Papa dirigiu aos moçambicanos, Francisco afirma: “Que o Deus e Pai de todos consolide a reconciliação, reconciliação fraterna em Moçambique e na África inteira, única esperança para uma paz firme e duradoura.” O Papa acrescenta que quer também confirmar a comunidade católica “no seu testemunho do evangelho que ensina a dignidade de cada homem e mulher”.

 

Os problemas e desafios não são exclusivos de Moçambique. Em Madagáscar, a quarta maior ilha do mundo, a leste de Moçambique, em pleno Oceano Índico, mais de metade dos 24 milhões de habitantes tem menos de 20 anos e o país sofre de pobreza endémica, com graves índices de doenças como a lepra.

A tensão política e a importância do diálogo inter-religioso também estão presentes no país: em 2009, na sequência de protestos e com ajuda dos militares, o actual Presidente, Andry Rajoelina, chegou ao poder. Em 2018, venceu as eleições, com 55% dos votos. Citado no portal da Unisinos, o provincial dos jesuítas em Madagáscar, Fulgence Ratsimbazafy, diz que aconselharia o Papa a usar a palavra malgaxe “fihavanana”, que sublinha a construção de uma cultura da unidade, da solidariedade e do trabalho em equipa.

Em Madagáscar, o Papa permanece também dois dias, sábado e domingo, igualmente apenas na capital, Antananarivo. Nas Ilhas Maurícias, Francisco irá apenas um dia – segunda-feira –, regressando ao final do dia a Antananarivo, de onde partirá no dia seguinte para Roma.

Nas Maurícias, onde predomina o hinduísmo (metade dos 1,3 milhões de pessoas, com 26% de católicos e 17% de muçulmanos), o Papa encontra-se com o Presidente interino, Barlen Vyapoory, que assumiu o cargo depois de Ameenah Gurib-Fakim, a anterior chefe de Estado, ter sido acusada de fraude.

Aqui, o programa de Francisco estará também centrado na capital, Port-Louis. Um dos pontos significativos será a visita provada ao santuário do padre Jacques-Désiré Laval, missionário francês do século XIX que dedicou a vida a cuidar de escravos na então colónia britânica, como recorda também o portal da Unisinos.

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