O Papa Francisco e a reabilitação da política

| 21 Jan 19

1. Quando, na mensagem para o Dia Mundial da Paz (1 de Janeiro), regista dez “vícios” no exercício político, que diz serem “a vergonha da vida pública”, o Papa Francisco reassume a prioridade da reabilitação da política. Francisco teme o enfraquecimento do “ideal duma vida democrática autêntica” e sintetiza os perigos para a paz social, ou seja, para a democracia: “a corrupção – nas suas múltiplas formas de apropriação indevida dos bens públicos ou de instrumentalização das pessoas –, a negação do direito, a falta de respeito pelas regras comunitárias, o enriquecimento ilegal, a justificação do poder pela força ou com o pretexto arbitrário da “razão de Estado”, a tendência a perpetuar-se no poder, a xenofobia e o racismo, a recusa a cuidar da Terra, a exploração ilimitada dos recursos naturais em razão do lucro imediato, o desprezo daqueles que foram forçados ao exílio” (Mensagem para o Dia Mundial da Paz de 2019).

Se economia e finanças continuam a (co)mandar, ampliando bolsas de pobreza, descontentamento e exclusão – “esta economia mata”, diz o Papa na Exortação Evangelli Gaudium–, há uma cada vez maior influência cultural sobre os decisores, construtora de segregação e beligerância, a exacerbar o medo do diferente e da diferença.

No discurso ao corpo diplomático, dia 7 de janeiro, Francisco ampliou a análise e alertou para o “ressurgimento de tendências nacionalistas”, comparando o tempo presente com o tempo entre as duas grandes guerras do século XX, quando uma Liga das Nações não impediu a deriva populista e anti-sistema que promove os medos e vê a diversidade como um risco.

Elogiando as diferenças, o Papa sublinha os riscos para a democracia provocados pelas “colonizações ideológicas, culturais e económicas”, que coarctam a liberdade. Na mensagem de Natal disse que “as diferenças não constituem um dano nem um perigo, são uma riqueza”, uma “mais-valia”(Mensagem Urbi et  Orbi, 25 de Dezembro de 2018).  

A organização social em livre pensamento constrói ideias, vive no percurso de uma história de ideias, de busca e interpelação de arquétipos. Impor um pragmatismo controlador, qualquer que ele seja, é um retrocesso. As ideologias compõem também a teia plural com que se tece o exercício político. Mas, apar do aparente crescimento da indiferença em relação às regras de participação democrática, como o ato de votar, constata-se o renascimento de narrativas messiânicas contra as diferenças, as ideias e a ideologia, acentuando os desequilíbrios.

O que tem a religião a ver com isto? Basta ver como (a)s palavra(s) religiosa(s) e as ideias por ela produzidas vão sustentando emergentes correntes populistas e novos pólos de pertença desinstitucionalizada, não sintonizados com os modelos clássicos de “esquerda” e “direita” e com princípios da democracia.

Também os livros sagrados desenham contornos políticos de convivência, desenvolvem ideias que, por sua vez, podem sustentar ideologias. Mas, como a imposição de ideologias sobre a liberdade individual é a negação do próprio exercício político, recorrer às narrativas do sagrado para contrariar ideias e diabolizar ideologias é um negro paradoxo já experimentado.

2. Necessitaremos de outro modelo de participação que renove o exercício político? Recordemos as primeiras semanas do pontificado, quando o Papa Francisco recebeu na Praça de São Pedro, a 18 de maio de 2013, representantes de movimentos da Igreja, alguns conotados com gente ligada a jogos de influência na alta finança e na política. Ali mesmo, sem meias palavras, pôs álcool na ferida: “Se os investimentos nos bancos caem um pouco… tragédia, como se faz? Mas se morrem pessoas à fome, se não têm o que comer, se não têm saúde, nada se faz”. A pobreza, acrescentou, “não é uma categoria sociológica, filosófica ou cultural”, mas um facto relacional, de (ir)responsabilidade na gestão ética do bem comum.

Olhar a vida a partir da experiência dos que menos têm, no sentido material e existencial, abre outro horizonte de leitura da realidade. As estatísticas têm revelado melhorias sociais após a recente crise, mas, segundo o Instituto Nacional de Estatística, um em cada cinco portugueses tem ainda rendimentos inferiores a 454 euros, considerado o limiar da pobreza. E um em cada dez trabalhadores portugueses épobre.

Calçar os sapatos do outro é a metáfora da atitude. A pobreza não tem apenas uma forma de se dizer, nem uma causa única, e a experiência da pobreza em Portugal não corresponde à de outras latitudes. Mas a pobreza não resulta apenas da falta de bens essenciais – há excessos de produção e consequentes desperdícios, com graves e irreversíveis consequências ecológicas – é, acima de tudo, o resultado de uma distribuição injusta e desequilibrada, pelo que a resposta passa por dar prioridade ao combate às desigualdades, atenuando as múltiplas e por vezes insondáveis causas, que vão das políticas remuneratórias à forma como se pensa socialmente uma cidade.

No combate à pobreza há vários patamares de urgência e emergência. E se num primeiro momento, perante as circunstâncias, a assistência é inevitável, posteriormente esta pode não ser libertadora e pode até vir a tornar-se perversa. Cada caso é um caso, mas seguir a mera lógica de distribuição dos excessos, ou seja, das sobras, apenas perpetua as circunstâncias da fragilidade.

Pelo impulso da doutrina social católica em relação ao destino dos bens, o sociólogo Alfredo Bruto da Costa trabalhou a ideia segundo a qual o que nos sobra não nos pertence, apenas o gerimos.

O desafio é mais ambicioso, humana e eticamente: atuar a montante, na pedagogia para a produção e o consumo, produzir na medida justa e ecologicamente adequada e distribuir adequadamente os recursos pela justa medida. Na equação do evangelho, “dividir para multiplicar, somar sem subtrair nada a ninguém” (Frei Fernando Ventura, Somos Pobres mas Somos Muitos, 2013). É também um desafio político no sentido mais nobre do termo e que nos transporta para a corresponsabilidade na gestão da polis.

3. “O que devo fazer para melhorar o mundo?”, perguntou um professor no encontro do Papa com alunos e professores de escolas jesuítas (7 de junho de 2013, no Vaticano). “Dedica-te à política”, respondeu-lhe o Papa, que enquadra o exercício político na encíclica Laudato Si: “Devemos implicar-nos na política, porque a política é uma das formas mais elevadas da caridade, visto que procura o bem comum”; “Compete à política e às várias associações um esforço de formação das consciênciasda população. Todas as comunidades cristãs têm um papel importante a desempenhar nesta educação (…) para uma austeridade responsável, a grata contemplação do mundo, o cuidado da fragilidade dos pobres e do meio ambiente”; “Tendo em conta o muito que está em jogo, do mesmo modo que são necessárias instituições dotadas de poder para punir os danos ambientais, também nós precisamos de nos controlar e educar uns aos outros” (Encíclica Laudato Si, 24 deMaio de 2015).

A nova cidadania, propõe o Papa Francisco, é a que segue o paradigma de um “amor civil e político”, com “pequenos gestos de cuidado mútuo, manifestando-se em todas as ações que procuram construir um mundo melhor”, contrariando a submissão do exercício político à economia e da economia aos “ditames” da tecnocracia refém de uma redutora visão de lucro que concentra em poucos o que é de e para todos.

Este “amor à sociedade” passa, na perspetiva de Bergoglio, por um exercício político em subsidiariedade, escrutinado na promoção de parcerias que não perdem o azimute de um “compromisso pelo bem comum”.

Estamos diante de um evidente apelo à reabilitação da política, (re)pensando a Comunidade, na qual as instituições sociais de várias origens e objetos, atuantes na proximidade e conhecedoras privilegiadas do pulsar humano, têm um papel fundamental. Contribuir para a justiça e o bem comum impõe ter vistas largas e disponibilidade para um debate político que não se esgota na realidade partidária, mas com esta se faz em mútuo espírito de serviço, valorizando redes de ação e corresponsabilidade. E se, de um lado ou de outro, há o risco de “sujar as mãos”, que esta contingência não bloqueie o propósito maior. Faz parte desta relação contornar os obstáculos e encontrar as vias de equilíbrio entre as ideias e as possibilidades, a ideologia e a realidade, a vontade e a cultura. Os grandes sonhos de mudança não se concretizam contra, mas a favor.

Joaquim Franco é jornalista

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