O Papa Francisco e a reabilitação da política
1. Quando, na mensagem para o Dia Mundial da Paz (1 de Janeiro), regista dez “vícios” no exercício político, que diz serem “a vergonha da vida pública”, o Papa Francisco reassume a prioridade da reabilitação da política. Francisco teme o enfraquecimento do “ideal duma vida democrática autêntica” e sintetiza os perigos para a paz social, ou seja, para a democracia: “a corrupção – nas suas múltiplas formas de apropriação indevida dos bens públicos ou de instrumentalização das pessoas –, a negação do direito, a falta de respeito pelas regras comunitárias, o enriquecimento ilegal, a justificação do poder pela força ou com o pretexto arbitrário da “razão de Estado”, a tendência a perpetuar-se no poder, a xenofobia e o racismo, a recusa a cuidar da Terra, a exploração ilimitada dos recursos naturais em razão do lucro imediato, o desprezo daqueles que foram forçados ao exílio” (Mensagem para o Dia Mundial da Paz de 2019).
Se economia e finanças continuam a (co)mandar, ampliando bolsas de pobreza, descontentamento e exclusão – “esta economia mata”, diz o Papa na Exortação Evangelli Gaudium–, há uma cada vez maior influência cultural sobre os decisores, construtora de segregação e beligerância, a exacerbar o medo do diferente e da diferença.
No discurso ao corpo diplomático, dia 7 de janeiro, Francisco ampliou a análise e alertou para o “ressurgimento de tendências nacionalistas”, comparando o tempo presente com o tempo entre as duas grandes guerras do século XX, quando uma Liga das Nações não impediu a deriva populista e anti-sistema que promove os medos e vê a diversidade como um risco.
Elogiando as diferenças, o Papa sublinha os riscos para a democracia provocados pelas “colonizações ideológicas, culturais e económicas”, que coarctam a liberdade. Na mensagem de Natal disse que “as diferenças não constituem um dano nem um perigo, são uma riqueza”, uma “mais-valia”(Mensagem Urbi et Orbi, 25 de Dezembro de 2018).
A organização social em livre pensamento constrói ideias, vive no percurso de uma história de ideias, de busca e interpelação de arquétipos. Impor um pragmatismo controlador, qualquer que ele seja, é um retrocesso. As ideologias compõem também a teia plural com que se tece o exercício político. Mas, apar do aparente crescimento da indiferença em relação às regras de participação democrática, como o ato de votar, constata-se o renascimento de narrativas messiânicas contra as diferenças, as ideias e a ideologia, acentuando os desequilíbrios.
O que tem a religião a ver com isto? Basta ver como (a)s palavra(s) religiosa(s) e as ideias por ela produzidas vão sustentando emergentes correntes populistas e novos pólos de pertença desinstitucionalizada, não sintonizados com os modelos clássicos de “esquerda” e “direita” e com princípios da democracia.
Também os livros sagrados desenham contornos políticos de convivência, desenvolvem ideias que, por sua vez, podem sustentar ideologias. Mas, como a imposição de ideologias sobre a liberdade individual é a negação do próprio exercício político, recorrer às narrativas do sagrado para contrariar ideias e diabolizar ideologias é um negro paradoxo já experimentado.
2. Necessitaremos de outro modelo de participação que renove o exercício político? Recordemos as primeiras semanas do pontificado, quando o Papa Francisco recebeu na Praça de São Pedro, a 18 de maio de 2013, representantes de movimentos da Igreja, alguns conotados com gente ligada a jogos de influência na alta finança e na política. Ali mesmo, sem meias palavras, pôs álcool na ferida: “Se os investimentos nos bancos caem um pouco… tragédia, como se faz? Mas se morrem pessoas à fome, se não têm o que comer, se não têm saúde, nada se faz”. A pobreza, acrescentou, “não é uma categoria sociológica, filosófica ou cultural”, mas um facto relacional, de (ir)responsabilidade na gestão ética do bem comum.
Olhar a vida a partir da experiência dos que menos têm, no sentido material e existencial, abre outro horizonte de leitura da realidade. As estatísticas têm revelado melhorias sociais após a recente crise, mas, segundo o Instituto Nacional de Estatística, um em cada cinco portugueses tem ainda rendimentos inferiores a 454 euros, considerado o limiar da pobreza. E um em cada dez trabalhadores portugueses épobre.
Calçar os sapatos do outro é a metáfora da atitude. A pobreza não tem apenas uma forma de se dizer, nem uma causa única, e a experiência da pobreza em Portugal não corresponde à de outras latitudes. Mas a pobreza não resulta apenas da falta de bens essenciais – há excessos de produção e consequentes desperdícios, com graves e irreversíveis consequências ecológicas – é, acima de tudo, o resultado de uma distribuição injusta e desequilibrada, pelo que a resposta passa por dar prioridade ao combate às desigualdades, atenuando as múltiplas e por vezes insondáveis causas, que vão das políticas remuneratórias à forma como se pensa socialmente uma cidade.
No combate à pobreza há vários patamares de urgência e emergência. E se num primeiro momento, perante as circunstâncias, a assistência é inevitável, posteriormente esta pode não ser libertadora e pode até vir a tornar-se perversa. Cada caso é um caso, mas seguir a mera lógica de distribuição dos excessos, ou seja, das sobras, apenas perpetua as circunstâncias da fragilidade.
Pelo impulso da doutrina social católica em relação ao destino dos bens, o sociólogo Alfredo Bruto da Costa trabalhou a ideia segundo a qual o que nos sobra não nos pertence, apenas o gerimos.
O desafio é mais ambicioso, humana e eticamente: atuar a montante, na pedagogia para a produção e o consumo, produzir na medida justa e ecologicamente adequada e distribuir adequadamente os recursos pela justa medida. Na equação do evangelho, “dividir para multiplicar, somar sem subtrair nada a ninguém” (Frei Fernando Ventura, Somos Pobres mas Somos Muitos, 2013). É também um desafio político no sentido mais nobre do termo e que nos transporta para a corresponsabilidade na gestão da polis.
3. “O que devo fazer para melhorar o mundo?”, perguntou um professor no encontro do Papa com alunos e professores de escolas jesuítas (7 de junho de 2013, no Vaticano). “Dedica-te à política”, respondeu-lhe o Papa, que enquadra o exercício político na encíclica Laudato Si: “Devemos implicar-nos na política, porque a política é uma das formas mais elevadas da caridade, visto que procura o bem comum”; “Compete à política e às várias associações um esforço de formação das consciênciasda população. Todas as comunidades cristãs têm um papel importante a desempenhar nesta educação (…) para uma austeridade responsável, a grata contemplação do mundo, o cuidado da fragilidade dos pobres e do meio ambiente”; “Tendo em conta o muito que está em jogo, do mesmo modo que são necessárias instituições dotadas de poder para punir os danos ambientais, também nós precisamos de nos controlar e educar uns aos outros” (Encíclica Laudato Si, 24 deMaio de 2015).
A nova cidadania, propõe o Papa Francisco, é a que segue o paradigma de um “amor civil e político”, com “pequenos gestos de cuidado mútuo, manifestando-se em todas as ações que procuram construir um mundo melhor”, contrariando a submissão do exercício político à economia e da economia aos “ditames” da tecnocracia refém de uma redutora visão de lucro que concentra em poucos o que é de e para todos.
Este “amor à sociedade” passa, na perspetiva de Bergoglio, por um exercício político em subsidiariedade, escrutinado na promoção de parcerias que não perdem o azimute de um “compromisso pelo bem comum”.
Estamos diante de um evidente apelo à reabilitação da política, (re)pensando a Comunidade, na qual as instituições sociais de várias origens e objetos, atuantes na proximidade e conhecedoras privilegiadas do pulsar humano, têm um papel fundamental. Contribuir para a justiça e o bem comum impõe ter vistas largas e disponibilidade para um debate político que não se esgota na realidade partidária, mas com esta se faz em mútuo espírito de serviço, valorizando redes de ação e corresponsabilidade. E se, de um lado ou de outro, há o risco de “sujar as mãos”, que esta contingência não bloqueie o propósito maior. Faz parte desta relação contornar os obstáculos e encontrar as vias de equilíbrio entre as ideias e as possibilidades, a ideologia e a realidade, a vontade e a cultura. Os grandes sonhos de mudança não se concretizam contra, mas a favor.
Joaquim Franco é jornalista
Breves
José Allamano e a Consolata
Exposição fotográfica revela 100 anos de história das missões
Por ocasião dos 100 anos da morte de São José Allamano, assinalados este ano, o Consolata Museu, em Fátima, tem patente ao público uma exposição dedicada a este fundador dos dois institutos missionários. [Texto de Juliana Batista].
Relatório Centro Rossing
Jerusalém: ataques violentos a cristãos quase duplicaram em dois anos
Os ataques violentos a cristãos em Israel e em Jerusalém oriental ocupada estão a tornar-se cada vez mais frequentes, tendo quase duplicado nos dois últimos anos, de acordo com organizações israelitas citadas pelo órgão público de rádio alemão Deutsche Welle (DW).
Apelo ao Governo
Cristãos do Bangladesh querem feriado no Domingo de Páscoa e maior representação na vida pública
Um cordão humano com mais de 100 pessoas exigiu, durante toda a manhã de dia 31 de março, em frente ao Clube Nacional de Imprensa, em Daca, que o Domingo de Páscoa fosse reconhecido pelo Governo do Bangladesh como feriado nacional. A concentração organizada pela Associação Cristã de Bangladesh reivindicou também lugares na vida pública reservados à representação dos cristãos e de outras minorias.
Sexta-feira Santa
Papa carrega a cruz e meditações da Via Sacra dão voz ao sofrimento dos povos do Médio Oriente
O Papa presidirá a todas as 14 estações da Via Sacra no Coliseu de Roma, carregando a cruz pessoalmente durante toda a liturgia, que será marcada pelas meditações escritas pelo frei franciscano Francesco Patton, ex-Custódio da Terra Santa (2016-2025) e que atualmente vive no santuário do Memorial de Moisés no Monte Nebo, na Jordânia.
Boas notícias
"Doença estava localizada"
Médicos confirmam que Leão XIV não precisará de novos tratamentos novidade
O Papa Leão XIV não precisará de fazer novos tratamentos depois da cirurgia a que foi submetido na semana passada para remover um tumor no pulmão direito. Os resultados definitivos dos exames confirmaram que se tratava de um tumor localizado e a avaliação oncológica posterior concluiu que não é necessária outra terapêutica, anunciou a Santa Sé.
Outras margens
Cultura e artes
[Entre Margens]
A distância e a escrita novidade
Vi há algum tempo a peça de Tiago Rodrigues, La Distance, e pensei sobre as cartas que troco com a minha mãe. Na peça, uma filha parte para outro planeta, num futuro apocalíptico em que a vida na terra se tornou insustentável. O público vive a dor dilacerante do pai que fica, que troca mensagens de voz com a filha, e a quem às tantas ela diz que estão mais próximos, agora. [Texto de Joana Rigato].
Jornadas dos Bens Culturais
“Uma pintura de Van Gogh pode ser mais religiosa do que a representação do martírio de São Sebastião”
“Uma pintura de Van Gogh pode ser, no seu efeito espiritual, mais religiosa do que a representação do martírio de São Sebastião”, diz uma das artistas que nesta sexta-feira participa nas Jornadas da Pastoral dos Bens Culturais, da Igreja Católica. Estará em debate “a importância dos bens culturais na acção de evangelizar”, dimensão que “tem sido claramente desvalorizada”.
Ensaios, ficção e antologias
Bíblia para jovens, diálogo islamo-judaico, o herege, o monge e os ensaios da contista – novidades literárias até ao Natal
A Bíblia de Lourenço adaptada a jovens, os 1400 anos das relações entre judeus e muçulmanos, um ensaio sobre o Cântico das Criaturas, não-ficção de Flannery O’Connor, uma antologia do “herege” Savonarola ou a autobiografia de Thomas Merton. Alguns dos títulos que, no âmbito religioso, da espiritualidade ou das questões sociais, várias editoras publicam até ao Natal
Ano Jubilar São João da Cruz (9)
João da Cruz: poesia e mística
Até Dezembro decorre o ano jubilar de São João da Cruz, celebrando o terceiro centenário da canonização e os 100 anos da sua proclamação como Doutor da Igreja Católica. O jubileu tem como lema “A esperança alcança tanto quanto espera” e propõe itinerários de renovação espiritual e mística. A propósito do ano jubilar, o 7MARGENS propõe mensalmente, aos dias 13/14 (assinalando o dia da sua morte, a 14 de Dezembro de 1591), um conjunto de textos do padre carmelita e teólogo Armindo Vaz.
Pessoas
Edição
Um psicólogo no campo de concentração – um livro sobre Viktor Frankl
Uma leitura biográfica, intelectual e testemunhal de uma das figuras mais marcantes da psicologia e da reflexão antropológica do século XX – é desse modo que se apresenta o livro “Logoterapia e Análise Existencial – Vida, testemunho e obra de Viktor E. Frankl”, da autoria de Nuno Almeida, bispo de Bragança-Miranda.
Sete Partidas
[Sete Partidas]
As cápsulas
No radio do carro tocava um CD da Rosalía e comecei a pensar no que já me disseram sobre o meu carro, pequeno e velho, dito em várias variações. Não levo a mal. É verdade, mas tem tudo o que preciso. Abrigo do sol, do frio, da chuva e da neve. Confiável. Riscado e muitas vezes sujo por fora, mas por dentro limpo e arrumado. Um pouco na ordem como valorizo as coisas na vida. Menos ostentação, mais conteúdo. [Texto de Inês Patrício, Berlim].
Visto e Ouvido
Agenda
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Entre margens
[Entre Margens]
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[Entre Margens]
Continuar a confiar
Há pessoas que entram em nossas vidas tão cedo e permanecem por tanto tempo que deixamos de imaginar a possibilidade de perdê-las – não pelo ciclo natural da vida, já explico. De certa forma os anos, por si mesmos, parecem constituir uma espécie de garantia, de blindagem dos laços. [Texto de Denise Sabino Villanova, Brasil].
[Entre Margens]
A sedução da omnipotência
A inteligência artificial entrou na nossa vida de mansinho e foi-se tornando imprescindível. Tomou conta da nossa atenção, reclama o nosso tempo, dá-nos rebuçados de ego a toda a hora, retira-nos das tensões relacionais e mostra-nos que é possível viver sem elas. Dá-nos respostas para tudo, tornando os outros progressivamente redundantes, lentos ou obsoletos. [Texto de Dina Matos Ferreira].














