O Papa Francisco, o cineasta Scorsese e como contornar a crueldade

| 31 Out 18

 

Scorsese perguntou e o Papa respondeu. O encontro deu-se no Vaticano, aquando do lançamento do novo livro Sharing The Wisdom of Time (editado já no Brasil pela Loyola, com o título A Sabedoria das Idades), que reúne entrevistas e reflexões de vários idosos de todo o mundo.

Na tarde de dia 23 de Outubro, o Papa Francisco respondeu a perguntas de novos e velhos. O realizador norte-americano, de 75 anos, convidado de honra, foi o último a colocar a sua questão. Na sua intervenção, reproduzida em vídeo no Vatican News, falou da sua infância em Nova Iorque e do sofrimento que via à sua volta quando saía da igreja. Fazendo uma analogia com o “mal” que ainda hoje se vê pelo mundo, perguntava: “Como podemos nós, idosos, dar força e guiar os jovens e o que eles têm de passar na vida? Como podemos ajudar jovens mulheres e homens a sobreviver a este furacão? Como podemos ajudar a Igreja neste caminho?”

Em resposta, Francisco falou de como se deve ultrapassar a crueldade do dia-a-dia: “É na verdade um furacão. Mesmo quando éramos crianças havia um fenómeno que sempre existiu, mas não era assim tão forte: o bullying; hoje, vê-se mais claramente o que a crueldade pode fazer numa criança. (…) Como ensinar, como transmitir aos jovens que a crueldade é um caminho errado, um caminho que mata, não só a pessoa, também a humanidade, o sentimento de pertença à comunidade?”

A isto, o Papa argentino propõe que se responda em três frentes: o choro, algo “humano e cristão” que “abre e amolece o coração”; a empatia entre idosos e jovens tentando “não condenar os jovens, como os jovens não devem condenar os idosos”, e valorizando a “empatia da transmissão de valores”; e a proximidade “com quem sofre” e entre jovens e velhos.

Referindo-se ao uso da violência nas relações interpessoais e sociais, o Papa acrescentou: “A tortura é como uma bofetada na cara, é jogar com a dignidade das pessoas. A violência para sobreviver, a violência em alguns bairros nos quais, se tu não roubas, não comes. Isso faz parte da nossa cultura, é a verdade e devemos reconhecê-la.”

Também a italiana Fiorella Bacherini, 83 anos, professora de italiano junto de migrantes e refugiados, disse ao Papa: “Olho para o meu país e para o mundo e vejo cada vez mais divisão e violência. Por exemplo, tenho visto a dureza e crueldade que se tem verificado no tratamento de refugiados. Não quero falar de política, estou a falar de humanidade. É fácil cultivar o ódio entre as pessoas. Recordo momentos e memórias da guerra que experimentei em criança. Com que sentimentos enfrenta este momento difícil na história do mundo?”

Citado pelo Crux, o Papa respondeu que é verdade que muitos jovens não compreendem os danos da guerra, que deixavam mortes e destruição. E referiu a ascensão de governantes populistas, usando como exemplo Adolf Hitler e alertando: “Semear o ódio. Não se pode viver semeando ódio”.

Breves

Boas notícias

Outras margens

Cultura e artes

Canções para estes tempos de inquietação 

No ano em que Nick Cave se sentou sozinho ao piano, para nos trazer 22 orações muito pessoais, desde o londrino Alexandra Palace para todo o mundo, numa transmissão em streaming, o australiano dedicou-se também à escrita de 12 litanias a convite do compositor neoclássico belga Nicholas Lens.

Franz Jalics, in memoriam: a herança mais fecunda

Correr-se-ia o risco de passar despercebido o facto de ser perder um dos mais interessantes e significativos mestres da arte da meditação cristã do século XX, de que é sinal, por exemplo, o seu reconhecimento como mestre espiritual (a par de Charles de Foucauld) pela conhecida associação espanhola Amigos del Desierto, fundada por Pablo d’Ors.

Pessoas

Padre Armindo Marques Garcia: um homem na minha vida

Padre Armindo Marques Garcia: um homem na minha vida novidade

Éramos ainda adolescentes e ele era o nosso ídolo. Tinha pouco mais de dez anos do que nós. Uma diferença que o tornava suficientemente respeitável, mas igualmente próximo, muito próximo. E tinha um ar juvenil, surpreendentemente jovem, que, de resto, conservou durante toda a vida.

Sete Partidas

Vacinas: Criticar sem generalizar

Alguns colegas de coro começaram a falar dos espertinhos – como o político que se ofereceu (juntamente com os seus próximos) para tomar as vacinas que se iam estragar, argumentando que assim davam um bom exemplo aos renitentes. Cada pessoa tinha um caso para contar. E eu ouvia, divertida.

Visto e Ouvido

Agenda

Entre margens

Servir: lavar as mãos, lavar os pés, lavar o coração novidade

Depois de alguma leitura, aquela conversa não me saía da cabeça. Lembrei-me do ritual do “Lava pés”, que teve lugar na última ceia de Jesus Cristo, na qual Ele ensinou-nos, entre outras coisas, a partilhar o pão e o vinho (a comida) e a servir (lavou os pés aos seus discípulos). Lembrei-me também de uma tradição ocidental, segundo a qual quando alguém vai à casa de outrem pela primeira vez, a dona de casa deve servir ao visitante o “primeiro copo”. Por ser de “bom tom”, é cortês. E é, porque abre o à vontade ao visitante.

Como o “bicho” mexe com a prática religiosa

A verdade é que um de cada três cristãos praticantes americanos parou de frequentar a igreja com a pandemia, apesar da evidência de que a comunidade de fé exerce um efeito integrativo do ponto de vista social, de estabilização emocional e promove o encorajamento e a esperança dos indivíduos. Curiosamente, as gerações mais novas apresentaram mais dificuldades na substituição das celebrações presenciais pelas online, eventualmente devido a uma maior necessidade gregária.

Direitos Humanos das Pessoas Idosas. Importa-se de repetir?

Todos os textos são incontroversos, lembram que os idosos têm direito a trabalhar ou a ter uma fonte de rendimento, a viver com dignidade e segurança, a poder residir em casa pelo máximo de tempo possível, a formar associações que defendam os seus interesses ou a aceder a programas educacionais próprios; e reafirmam que os mais velhos contribuem para o desenvolvimento das sociedades de que fazem parte (tem o seu quê de irónico, dada a média etária dos “líderes mundiais”).

Fale connosco

Pin It on Pinterest

Share This