1. Há pormenores do texto em que parece que o Papa Leão está a dar recados eleitorais (já lá irei), mas comecemos por um aspecto menos conseguido na exortação apostólica Dilexi te (“Amei-te”, em português) o primeiro grande documento do Papa Leão, “sobre o amor para com os pobres”, divulgado nesta quinta-feira, dia 9, depois de assinado dia 4 de Outubro (festa de Francisco de Assis na liturgia católica): o texto não traz novidades na linguagem, nas propostas ou na forma de abordar o tema. Em grande parte, é uma colagem de citações dos papas Francisco (55 num total de 130, quase metade), João Paulo II e Bento XVI, de organismos da Cúria Romana, das conferências do episcopado latino-americano em Puebla e Aparecida e de diferentes “padres da Igreja”, os teólogos dos primeiros séculos do cristianismo.
Essa que é uma fraqueza, acaba por ser também um ponto forte de Dilexi te: ao propor uma exaustiva revisão da matéria dada pela Bíblia, pela teologia e pelo pensamento social católico, Leão XIV evidencia, para quem ainda tenha dúvidas, que a opção pelos pobres está no coração do evangelho dos cristãos: “O cuidado com os pobres faz parte da grande Tradição da Igreja”, escreve o Papa no parágrafo 103. E mais à frente (110): “Para nós, cristãos, a questão dos pobres remete-nos à essência da nossa fé. A opção preferencial pelos pobres, ou seja, o amor que a Igreja tem por eles, como ensinava São João Paulo II, ‘é decisivo e pertence à sua constante tradição, impele-a a dirigir-se ao mundo no qual, apesar do progresso técnico-económico, a pobreza ameaça assumir formas gigantescas’.”
Nesse percurso, o Papa Leão recorda etapas e temas fundamentais: além da tradição judaica do Primeiro Testamento (numerosas páginas “nas quais Deus é apresentado como amigo e libertador dos pobres, Aquele que escuta o grito do pobre e intervém para o libertar”), Jesus, o evangelho e a práticas das primeiras comunidades cristãs, os padres da Igreja, Francisco de Assis, várias ordens religiosas cujo carisma é a atenção a grupos mais desvalidos e, finalmente, o moderno pensamento social católico.
Ao “resumir” deste modo o olhar católico e cristão sobre o tema da opção pelos mais pobres, ou do “amor para com os pobres”, como diz o subtítulo da exortação, Leão XIV coloca também à evidência os alçapões com que a prática de muitos cristãos e da própria Igreja por vezes se confrontam, entre a afirmação de princípios e a sua prática – nomeadamente espiritual, social, económica e política, como também se recorda em vários pontos.

Mesa com comida para pessoas sem-abrigo em Lisboa: a falta de água e comida é um dos problemas graves apontados. Foto © Miguel Veiga
2. No parágrafo 12, por exemplo, Leão começa por recordar que se não deve “baixar a guarda diante da pobreza” – e a mensagem é para os governos, as sociedades e a Igreja, enquanto enaltece as Nações Unidas por terem colocado a erradicação da pobreza entre os Objectivos do Desenvolvimento do Milénio (uma atitude oposta à de alguns políticos das novas extremas-direitas, que os condenam). O Papa enumera um conjunto de situações trágicas: “as graves condições” em que vive quem não tem “alimentos e água potável; os milhares que morrem diariamente em desnutrição; as muitas famílias, mesmo na Europa, cujo salário não chega ao fim do mês; as “crescentes desigualdades”; as mulheres, “duplamente pobres” quando sofrem a exclusão, os maus-tratos e violência… Noutros passos da carta, referem-se questões como os migrantes, os reclusos, os problemas do emprego e dos mais jovens ou as “estruturas de pecado que criam pobreza e desigualdades extremas”.
O documento cita ainda, no parágrafo 30, a Carta de São Tiago (5, 3-5): “Olhai que o salário que não pagastes aos trabalhadores que ceifaram os vossos campos está a clamar; e os clamores dos ceifeiros chegaram aos ouvidos do Senhor do universo! Tendes vivido na terra, entregues ao luxo e aos prazeres, cevando assim os vossos apetites… para o dia da matança!”
3. Quer a lista de problemas quer a citação bíblica chocam com uma realidade ambígua, paradoxal – humana, enfim: de um lado, o papel fundamental de milhões de crentes para minorar, remediar ou atacar de frente todas essas “estruturas de pecado” e apoiar as suas vítimas; por outro, o papel de muitos, muitas vezes também crentes pelo menos na sua afirmação pública, no crescimento da lógica da guerra, da destruição e do aniquilamento do “outro”.
A actualidade está cheia de exemplos, não é necessário trazê-los aqui de novo. Um entre muitos: soubemos há dias que a maternidade e a gravidez custou o emprego a duas mil mulheres só no ano de 2024; não é difícil imaginar que, entre quem decidiu os despedimentos, também haverá empresários cristãos; percebe-se por isso a negação absoluta dos valores que continua a fazer-se em muitas situações do quotidiano que criam as tragédias e injustiças de que fala o Papa Leão. E mesmo se os que estão do lado da destruição sejam talvez muito menos, são eles os mais poderosos – porque detêm o dinheiro, a capacidade de influência, a decisão e, em última instância, o poder económico ou militar.

Desmatamento no rio da Saudade, na Amazónia: o Papa recorda o princípio do destino universal dos bens da terra. Foto © Gérard Moss/Projecto Brasil das Águas-Simpósio Religião, Ciência, Ambiente
4. Ou seja, mais uma vez, um papa vem indirectamente levantar a questão da consequência política (de responsabilidade pela polis, pela cidade, pelos outros cidadãos) da adesão ao cristianismo e ao evangelho. O cada vez menor conhecimento do que diz a doutrina social da Igreja é grave, numa Igreja que queira, também ela, enquanto comunidade, ser fiel aquilo que apregoa.
Quando neste documento o Papa Leão recorda princípios básicos como o do destino universal dos bens da terra e “a função social da propriedade que dele deriva”; ou quando critica os “critérios pseudocientíficos para dizer que a liberdade do mercado levará naturalmente à solução do problema da pobreza”; ou que se opte na Igreja por uma “pastoral das ditas elites, defendendo-se que, em vez de perder tempo com os pobres, é melhor cuidar dos ricos, dos poderosos e dos profissionais, para que, através deles, seja possível alcançar soluções mais eficazes”; ou que critique ainda o argumentário segundo o qual os pobres são pobres porque não querem trabalhar – está a contradizer muitas afirmações de partidos, empresários, gestores, governantes ou responsáveis católicos que preferem acentuar o poder e a manutenção das “estruturas de pecado”. Aliás, não por acaso, em tempo de campanha eleitoral em Portugal, vários destes argumentos continuam a ser repetidos à exaustão por vários políticos que gostam de aparecer como católicos…
Muitas destas ideias foram também expressas por João Paulo II. Leão recorda várias delas, evidenciando a ignorância de tantos que gostam de invocar o Papa polaco, mas que desconhecem os seus principais documentos sociais e o seu pensamento, que chegam a ser mais avançados do que muitas propostas da esquerda política – por exemplo, colocando a pessoa e não a economia no centro da actividade produtiva.

O Papa Francisco no Scholas Ocurrentes, em Cascais, no dia 3 de Agosto de 2023: Leão recorda os nomes de muitos que quiserma dar educação às crianças mais pobres. Foto ©️ Jesus Huerta / JMJ Lisboa 2023
5. O que ficou dito tem a ver também com uma outra questão que o Papa refere na Dilexi te como muito positiva: ao longo da história da Igreja, foram muitos, sobretudo nos últimos séculos, os que promoveram a educação das crianças mais pobres: José de Calasanz em Roma, no século XVI, criando a primeira escola pública popular e gratuita da Europa; João Batista de La Salle, promovendo em França no século XVII o ensino gratuito para as crianças filhas de camponeses excluídas do sistema educacional do tempo; os irmãos maristas de novo em França, ou João Bosco e Antonio Rosmini em Itália e muitas congregações femininas, todos e todas elas atentos aos mais pobres.
Hoje, muitas escolas ou universidades católicas por todo o mundo tornaram-se quase só espaços supletivos do ensino público (incluindo as que surgiram prioritariamente para as crianças pobres) e lugares de transmissão do privilégio e do domínio. Estou a generalizar, eu sei, porque há excepções, e muitas delas apoiam crianças e jovens mais desfavorecidos. Mas aquele que deveria ser o modelo prioritário – traduzido por exemplo no projecto Scholas Ocurrentes, apoiado pelo Papa Francisco – é ainda a excepção e não a regra.
Ou seja: é de questionar onde está a profecia, a ruptura com as classes dominantes que essas escolas deveriam protagonizar ou as pedagogias alternativas que deveriam procurar e propor, para resolver problemas como a violência, os limites da educação formal e de um modelo de ensino com 200 anos e que todos sabemos esgotado. Também aqui, estão por retirar consequências de sucessivos documentos e textos do magistério católico – incluindo, agora, da Dilexi te.

Encontro dos Movimentos populares em Temuco, em Janeiro de 2018: uma herança que Leão XIV assume. Foto © Encuentro Mundial de Movimientos Populares.
6. Um último tópico, entre os muitos que a leitura da exortação de Leão XIV pode suscitar: neste texto, o Papa assume a herança latino-americana que muitas vezes foi criticada e castigada pela Cúria Romana. Francisco já o tinha feito, o seu sucessor confirma-o, ao valorizar a teologia da libertação, os contributos das grandes conferências do episcopado regional em Medellín, Puebla, Santo Domingo e Aparecida, e a sua própria experiência pessoal como missionário no Peru.
O Papa Leão acrescenta, entretanto, um outro ponto, muito caro ao seu antecessor: a valorização dos movimentos populares, “constituídos por leigos e conduzidos por líderes populares, colocados muitas vezes sob suspeita e até perseguidos”, que “convidam a superar ‘aquela ideia das políticas sociais concebidas como uma política para os pobres, mas nunca com os pobres, nunca dos pobres e muito menos inserida num projeto que reúna os povos’.”
Leão XIV é claro no aviso, numa época em que tantos movimentos informais e inorgânicos são por vezes criticados por quem detém o poder político ou mediático – mesmo que por vezes esses movimentos expressem a raiva, as frustrações, os desejos, tensões e contradições próprias da instabilidade e do medo em que tantas pessoas vivem mergulhadas. “Se os políticos e os profissionais não os ouvirem, ‘a democracia atrofia-se, torna-se um nominalismo, uma formalidade, perde representatividade, vai-se desencantando porque deixa de fora o povo na sua luta diária pela dignidade, na construção do seu destino’.” E, para dentro da “sua” comunidade católica, Leão acrescenta: “O mesmo se deve dizer das instituições da Igreja.”
7. Nos números 17 do documento, o Papa Leão sugere que os pobres são mesmo o caminho para que um crente se salve: “Desde o seu início, a Sagrada Escritura manifesta com grande intensidade o amor de Deus através da protecção dos mais fracos e dos menos favorecidos, a tal ponto que, em relação a eles, se poderia falar de uma espécie de ‘fraqueza’ de Deus: ‘No coração de Deus, ocupam lugar preferencial os pobres […]. Todo o caminho da nossa redenção está assinalado pelos pobres’.
Quase no final do texto, escreve Leão XIV: “O cristão ‘não pode considerar os pobres apenas como um problema social: eles são uma ‘questão familiar’. Pertencem ‘aos nossos’. (…) como estamos todos muito concentrados nas nossas necessidades, ver alguém que está mal incomoda-nos, perturba-nos, porque não queremos perder tempo por culpa dos problemas alheios. São sintomas duma sociedade enferma, pois procura construir-se de costas para o sofrimento.”
Enquanto sociedade ou enquanto comunidades crentes, temos todos de sarar esta enorme ferida aberta.










