Encontro Mundial das Famílias

O Papa não quer as mães a passar a ferro as camisas dos filhos

| 25 Jun 2022

Papa Francisco no final da missa de encerramento do X Encontro Mundial das Famílias, em Roma. 25 Junho 2022. Foto © Vatican News

Papa Francisco no final da missa de encerramento do X Encontro Mundial das Famílias, em Roma. 25 Junho 2022. Foto © Vatican News

 

“Há tantos jovens que não têm coragem de se casar. E, por vezes, algumas mães dizem-me: ‘faça qualquer coisa, fale com o meu filho que tem 37 anos e não se casa…’ ‘Mas minha senhora, não lhe passe a ferro as camisas, mande-o embora, faça-o sair do ninho’.” A afirmação foi feita pelo Papa Francisco, na Praça de São Pedro, perante casais de mais de 120 países, reunidos na missa de encerramento do X Encontro Mundial das Famílias.

O Papa acrescentou que o “amor familiar impulsiona os filhos a voar, não é possessivo, mas sempre de liberdade”. “É preciso coragem para se casar”, afirmou ainda, desaafiando os jovens a rejeitar o “caminho mais fácil” diante das dificuldades: “E nos momentos difíceis, de crise, que todas as famílias atravessam, por favor não enveredem pelo caminho fácil de voltar para casa da mãe. Não! Avancem… Sigam em frente.”

A missa foi celebrada pelo prefeito do Dicastério para os Leigos, Família e Vida, cardeal Kevin Farrell, assinalando o encerramento do congresso teológico-pastoral do X Encontro Mundial das Famílias, sobre o tema “O amor familiar: vocação e caminho de santidade”, que o Papa apresentou como uma “viagem”, informa a Ecclesia.

Ao acolher a vocação para o matrimónio e a família, deixastes o vosso ‘ninho’ e começastes uma viagem, da qual não podíeis conhecer de antemão todas as etapas, e que vos mantém em constante movimento, com situações sempre novas, factos inesperados, surpresas, algumas surpresas dolorosas”, disse Francisco.

Na homilia da Missa, Francisco referiu-se à liberdade dos membros do casal, que deve ser colocada ao serviço: “Em vez de viver como ‘ilhas’, fizestes-vos ‘servos uns dos outros’. Assim se vive a liberdade em família! Não há ‘planetas’ ou ‘satélites’, movendo-se cada qual na sua própria órbita. A família é o lugar do encontro, da partilha, da saída de si mesmo para acolher o outro e estar junto dele. É o primeiro lugar onde se aprende a amar”, afirmou.

O Papa aludiu também ao medo que torna os pais “ansiosos” ou “super-protectores” por temerem que que os filhos não consigam orientar-se no meio da complexidade e confusão” das sociedades”.

“Não é preservar os filhos do mínimo incómodo e sofrimento, mas procurar transmitir-lhes a paixão pela vida, acender neles o desejo de encontrar a sua vocação e abraçar a missão grande que Deus pensou para eles”, afirmou.

No fim da celebração, o cardeal Ferrell agradeceu ao Papa a proximidade aos temas da família e anunciou que o próximo encontro de Francisco com as famílias vai ser no “Jubileu das Famílias”, em 2025, em Roma. O XI Encontro Mundial das Famílias terá lugar em 2028.

No encontro que terminou neste sábado, o Dicastério para os Leigos, Família e Vida, do Vaticano, apresentou os “Itinerários catecumenais para a vida matrimonial”, que pretendem fazer do casamento não apenas “algo social”, mas um “caminho consciente de vivência de um sacramento e sinal da graça de Deus”, como afirmou o padre Alexandre Awi Mello, citado pela Ecclesia.

“Que o casamento não seja o momento, mas seja um processo que começa na infância, com a tomada de consciência da vocação matrimonial, passa pela pastoral juvenil, culmine numa preparação consciente para o matrimónio e seja bem acompanhada, especialmente nos primeiros anos”, afirmou.

 

Violência doméstica também entre casais religiosos

Parte do problema, diz a psicóloga Christauria Welland, está no facto de não se falar sobre isso nos ambientes crentes. Foto Kat Jayne/ Pexels.

 

O secretário do dicastério da Santa Sé que trata os temas familiares lembrou que “é muito fácil falar de família”, o “difícil é viver família. Por isso a opção foi apresentar o tema do Congresso “Amor em família: vocação e caminho de santidade” com a “força dos testemunhos”, não como uma teoria, mas como “algo que se pode viver”, como mostraram as 63 conferências, 59 das quais de leigos casados.

Questionado sobre o acompanhamento, por exemplo, de casais do mesmo sexo, Alexandre Awi Mello disse que “a Igreja deve acolher a todos”. E acrescentou: “Temos de fazer esse esforço de acompanhamento das realidades, tal como são. É algo que precisamos de aprender a acompanhar: que todos sintam que podem ter um lugar e ser acolhidos no seio da Igreja.”

Uma das situações levadas ao congresso foi a da violência doméstica, que a psicóloga Christauria Welland considerou que resulta da “indiferença” e que a religião não diminui o problema nas famílias crentes.

“Infelizmente, não tem havido muita investigação sobre o tema, mas a pesquisa que li e que é muito citada é que as pessoas que praticam religião não têm menos violência doméstica nas suas famílias do que as famílias que não praticam nenhuma religião”, afirmou, em declarações à Agência Ecclesia.

Parte do problema, considera a psicóloga, está no facto de não se falar sobre isso nos ambientes crentes: “Começámos a falar no pontificado do Papa Francisco e agora é algo que está nos documentos, as pessoas falam, eu estou aqui a dar esta entrevista, e isto é algo que não se via antes.”

Perante estatísticas que apontam para médias, em muitos países, de 30% das pessoas a praticar actos de violência doméstica (chegando aos 50% noutros), Christauria Welland verifica a surpresa generalizada, apontando o alcoolismo e a “cultura de violência” global como causas do problema.

“Se crescemos numa cultura em que há muita violência de qualquer espécie, então haverá muita violência doméstica. Se cresceu numa zona de guerra ou onde a polícia não entra, onde não há leis contra violência doméstica, ou respeito pelas mulheres, se não estamos sempre a falar nisto, as pessoas não recebem a mensagem”, exemplifica.

Christauria Welland sublinha a necessidade de “falar sobre a dignidade humana, sobre a violência, de ensinar as crianças​ desde mais novas​,​ com estratégias para evitar a violência”.

A psicóloga diz também que é necessário colocar o tema entre as preocupações das comunidades católicas, incluí-lo nos temas das homilias e passar a consciência de que “é pecado”.

“Muitos católicos não sabem que é pecado magoar outro ser humano, em particular a sua esposa ou os seus filhos, não associam que precisam de se confessar por causa disso. Temos muito que ensinar às pessoas sobre dignidade, autocontrolo, respeito e a igualdade de homens e mulheres, para que as pessoas percebam que não é correcto magoar as pessoas”, acrescenta ainda.

O bispo auxiliar do Porto, Armando Esteves, um dos membros da delegação portuguesa, afirmou que a violência doméstica é um problema que “preocupa imenso”, também porque a pandemia e o ambiente de guerra a agravam. “A violência doméstica é um fruto da indiferença. Educamos durante muito tempo para o individualismo, e damos conta do quão difícil é ser casal, e ser casal para sempre”, afirmou o também membro da Comissão Episcopal Laicado e Família.

Este X Encontro Mundial das Famílias decorreu de forma “multicêntrica e generalizada”, em Roma e nas várias dioceses do mundo, depois de ter sido adiado devido à pandemia de covid-19 – era para ter acontecido há um ano.

A delegação portuguesa era constituída pelos seis casais do Departamento Nacional da Pastoral Familiar, a irmã Inês Senra, o assistente padre Francisco Ruivo, dois bispos da Comissão Episcopal Laicado e Família (Joaquim Mendes e Armando Esteves) e o secretário da mesma, José Francisco Cruz.

 

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