O Papa nas Arábias para ajudar a mudar o rumo da guerra no Iémen

| 3 Fev 19

Uma rua no Qatar: Francisco é o primeiro Papa a visitar a Península Arábica; foto © ACN Portugal (idem para a foto de abertura)

Dizer de um gesto, iniciativa ou viagem do Papa Francisco que são acontecimentos históricos já se tornou uma quase banalidade, tal a sua frequência. Mas a visita que ele iniciou neste domingo, 3 de Fevereiro, aos Emirados Árabes Unidos, é histórica por duas razões, mesmo havendo quem contestasse a sua realização. E a pergunta é: o que irá o Papa dizer em privado ao príncipe herdeiro e nas duas únicas intervenções públicas previstas?

 

Histórico: pela primeira vez, um Papa católico visita, entre este domingo e terça-feira, um país da Península Arábica; e, também pela primeira vez, a região acolherá, terça-feira, dia 5, uma eucaristia multitudinária, na qual são esperados mais de 100 mil católicos, na sua maioria trabalhadores imigrantes no país, ainda para mais num espaço público cedido pelo Governo.

Histórico ainda porque o próprio príncipe herdeiro dos Emirados, Mohammed bin Zayed, escreveu na rede social Twitter: “Saudamo-vos calorosamente, Santo Padre, Papa Francisco, e ansiamos pelo histórico Encontro de Fraternidade Humana entre si e sua eminência o Dr. Ahmad Al Tayyeb, grande imã de Al-Azhar Al Sharif, em Abu Dhabi. Temos a esperança de que as gerações futuras prosperem em paz e segurança.”

Bin Zayed, que assumiu as funções de governo desde que o seu pai, Khalifa bin Zayed, teve um derrame cerebral em 2014, esteve já com o Papa Francisco no Vaticano, em Setembro de 2016, numa visita privada. Esse encontro terá permitido abrir as portas para esta viagem. Nesta segunda-feira, 4, o príncipe voltará a receber o Papa, em audiência privada – a ocasião perfeita para que Francisco converse com ele sobre a importância de uma solução pacífica para o conflito no Iémen.

De facto, foi precisamente por causa da guerra civil neste país do sudoeste da Península Arábica que a viagem do Papa mereceu reservas de algumas vozes. Em declarações dia 29 de Janeiro ao National Catholic Reporter(NCR), o ex-director do Programa de Análise Estratégica do Islão Político da CIA (a agência de espionagem dos Estados Unidos), Emile Nakhleh, dizia: “Não é bem visto o Papa visitar os Emirados Árabes Unidos, quando o país está envolvido em todos os tipos de atrocidades humanitárias no Iémen.” O agora responsável dos Programas de Segurança Nacional na Universidade do Novo México acrescenta que nem sequer sabe como o Papa “pode justificar” a viagem.

Desde 2014, o Iémen vive uma situação de guerra civil, depois de o movimento Houthi ter contestado o Governo de Abdrabbuh Mansur Hadi. A Arábia Saudita envolveu-se na guerra, apoiando Hadi contra os rebeles armados, numa coligação que envolve outros países do Golfo, entre os quais os EAU.

 

“Uma nova página”

Um relatório publicado em Agosto de 2018 pelas Nações Unidas, recordado pelo NCR, registava que a coligação árabe já tinha morto milhares de civis com ataques aéreos, além de ter torturado prisioneiros de guerra e usado crianças-soldado, o que a lei internacional considera um crime de guerra. E há duas semanas, a coordenadora da ajuda humanitária da ONU no Iémen disse que mais de dez milhões de pessoas no país correm o risco de morrer de fome.

No texto citado, Nakhleh insistia em que o Papa deveria usar as oportunidades dadas pela visita para falar sobre o papel dos Emirados no Iémen. “Se ele não levantar essa questão, perderia muita credibilidade no Médio Oriente”. A homilia “tem de ser sobre a tragédia humana”, acrescentava, e se não o fizer, “não terá significado”, acrescentava. Registe-se a ironia de estas reservas virem de alguém que teve responsabilidades federais de espionagem, no país que continua a manter relações privilegiadas e a apoiar o regime saudita, mesmo com o fornecimento de armas que são usadas na guerra contra o Iémen.

O próprio Papa, que aterrou no aeroporto de Abu Dhabi, a capital dos EAU, às 22h locais de domingo (eram 17h em Lisboa), já respondeu a objecções como as de Nakhleh. Numa mensagem vídeo gravada e destinada à população dos Emirados, Francisco começa por saudar em árabe: Al Salamu Alaikum, a paz esteja convosco. Depois, afirma-se feliz por visitar o país, que “procura ser um modelo de convivência, de fraternidade humana e de encontro entre as diferentes civilizações e culturas, onde muitos encontram um lugar seguro para trabalhar e viver livremente, no respeito das diversidades”.

Como uma das ideias fundamentais da sua visita aos EAU, o Papa propõe que a fé em Deus “une e não divide, aproxima apesar da diferença, afasta da hostilidade e da aversão”. E acrescenta que fica feliz por Deus lhe ter oferecido a oportunidade de escrever, naquele país, “uma nova página da história das relações entre as religiões, confirmando que somos irmãos, mesmo sendo diferentes”.

 

Muçulmanos a participar na missa

Uma igreja católica, sem torres nem cruzes, ao lado de uma mesquita com os seus minaretes: a presença dos cristãos é aceite, desde que se seja discreta; foto © ACN Portugal

Os Emirados são, na Península Arábica, uma excepção: num país com cerca 9,2 milhões de pessoas, 12,4 por cento são cristãos (mais de um milhão de pessoas, na quase totalidade imigrantes). Os muçulmanos (cerca de 77 por cento da população) não podem mudar de religião e a apostasia pode ser punida com a pena de morte, de acordo com o relatório 2018 sobre a Liberdade Religiosa no Mundo, da Ajuda à Igreja que Sofre (AIS), uma organização dependente da Santa Sé.

Apesar de tais limitações, o país é mais tolerante para com os cristãos do que os seus vizinhos da Arábia Saudita: há nove igrejas no país, embora as comunidades cristãs locais sintam a necessidade de mais. E o cristianismo pode ser praticado às claras (e não apenas em salas ou casas privadas como no país vizinho), mesmo que seja aconselhada alguma discrição.

Exemplo disso mesmo é a catedral de São José, a cerca de 20 minutos do centro da cidade. Na descrição do La Croix International, a igreja é uma “discreta nave de cimento e vidro com desenho contemporâneo”, mas confunde-se na paisagem. Sede do vicariato apostólico da Arábia meridional, nela não se vêem nem “nem cúpulas nem torres para anunciar a sua presença”, nem quaisquer altos e baixos, que “simplesmente não são autorizados”, como escreve o vigário apostólico, o capuchinho suíço Paul Hinder, no livro Un vescovo in Arabia (Um bispo na Arábia, Emi, 2018). “Uma nave de igreja, ainda vá, mas uma aparência demasiado religiosa, não. Pode mostrar que está ali, mas, por favor, que não seja de maneira explícita. As únicas torres autorizadas no céu de Abu Dhabi são os minaretes. E os hotéis.”

Apesar dessa limitações, o bispo Hinder afirmava há dias, em entrevista à AIS: “Vários muçulmanos contactaram-me para perguntar de que maneira podiam ajudar a preparar a visita. Muitos deles manifestaram interesse em assistir à missa. Também o Governo está a fazer tudo o que está ao seu alcance para garantir que o maior número possível dos nossos fiéis possam ver o Papa.”

Para lá de, pessoalmente, nunca ter sentido “qualquer animosidade”, também há outros pequenos sinais: em Junho de 2017, o príncipe herdeiro mudou o nome da Mesquita Xeque Zayed para Mesquita Mãe de Jesus, com o argumento de querer fortalecer os laços entre muçulmanos e cristãos. O desejo do bispo é poder construir “mais igrejas, pois o número das nossas paróquias ainda não é proporcional ao número de fiéis”.

O bispo Paul Hinder tem expectativas positivas: “Espero que a visita do Papa seja capaz de mudar o clima geral para melhor. No entanto, seria um erro esperar muitos milagres deste tipo de visita.” E o padre Andrzej Halemba, responsável da AIS por esta região, acrescenta: “Ao aproximar-se dos Muçulmanos, o Papa não faz mais do que cumprir o mandamento do Evangelho, pois é um diálogo de Deus com a humanidade, que continua como diálogo de pessoa a pessoa”.

O bispo Paul Hinder, vigário apostólico do sul da Arábia; foto © ACN Portugal

 

“Outra política”

Iniciada seis dias depois do regresso de Francisco do Panamá, onde presidiu à Jornada Mundial da Juventude, o Papa tem como lema desta sua 27ª viagem internacional uma das frases da oração tradicionalmente designada como de São Francisco de Assis: “Senhor, faz de mim um instrumento da sua paz”. E é esse desiderato que o Papa leva na sua bagagem. O padre Paul Lansu, assessor da Pax Christi, movimento internacional católico pela paz, referia também ao NCR que o dilema do Papa será falar ou não explicitamente do tema da guerra. “Em ambos os cenários, é um risco. Se ele [não fosse], deixava-os continuar a fazer o que estão a fazer. Indo, tem a oportunidade de conversar com eles.”

“Espero que o Papa possa convencer os líderes dos Emirados a encontrar outra política em relação ao Iémen, porque é um desastre o que estão a fazer agora, com os sauditas”, dizia Lansu. Para isso, Francisco terá de ser “muito firme”, na crítica aos Emirados e ao seu “papel de estímulo ao conflito, em vez de representar a dimensão da diplomacia”.

Na mesma reportagem, um outro padre, o jesuíta Jan Peters, ex-presidente do Instituto Holandês para o Médio Oriente e membro do Conselho de Curadores da Universidade Islâmica de Roterdão, elogia o Papa pela oportunidade aproveitada para desempenhar o seu papel de “falar com pessoas que ele espera convencer a tomar outra posição”, promovendo negociações de paz.

Além do encontro com o príncipe, o Papa terá duas oportunidades para falar em público: na segunda-feira ao final da tarde (13h em Lisboa), quando discursar no encontro inter-religioso promovido pelo Conselho Muçulmano de Anciãos, na Grande Mesquita do Xeque Zayed; e na terça às 10h30 (5h30 em Lisboa) quando presidir à missa no Zayed Sports City.

 

“Um verdadeiro diálogo”

No encontro inter-religioso, participou já, na manhã deste domingo, 3 de Fevereiro, o secretário-geral do Conselho Ecuménico de Igrejas, Olav Fykse Tveit, que pediu um novo pacto social e apelou a que as diferentes religiões e seus responsáveis promovam a tolerância e o respeito, através dos valores transcendentes e de práticas concretas do amor. “Sabemos também que as convicções religiosas podem motivar emoções fortes, incluindo a agressão, o ódio e até a violência para com os outros. É nossa responsabilidade, de nós que estamos aqui, e de todas as pessoas representativas de religiões no nosso tempo, reflectir o amor de Deus pela humanidade.”

O secretário-geral do Conselho Ecuménico de Igrejas, este domingo no fórum inter-religioso; foto © Carla-Khijoyan/WCC

O encontro inter-religioso, cuja tema é a fraternidade humana, pode ser uma oportunidade para prosseguir no caminho aberto pela declaração “Uma Palavra Comum”, publicada em Outubro de 2007. Esse texto, preparado por um conjunto de académicos e líderes muçulmanos, seguiu-se ao incidente provocado um ano antes, depois de um discurso do Papa Bento XVI na Universidade de Ratisbona (Alemanha) ter incendiado a rua de vários países muçulmanos.

Nesse discurso, o agora Papa emérito citou um imperador bizantino que ligava Maomé directamente à violência. Depois de cartas trocadas entre o Papa e o Vaticano, de um lado, e académicos e líderes muçulmanos, do outro, vários destes juntaram-se com pensadores cristãos e 138 pessoas acabaram a assinar o documento. Na eucaristia de terça-feira, na qual participa um coro internacional de 120 pessoas (filipinos, indianos, libaneses, sírios, jordanos, arménios, franceses, italianos, nigerianos, estadunidenses, indonésios, holandeses e argentinos), estarão também um católico e um muçulmano portugueses: Pedro Gil, porta-voz da Opus Dei, e Khalid Sacoor Jamal, da direcção da Comunidade Islâmica de Lisboa; ambos participam no programa de debate religioso E Deus Criou o Mundo, na Antena 1. O Governo declarou o dia como feriado, para que todos os interessados possam participar na missa.

Não acaba com esta viagem a aproximação do Papa Francisco ao islão. No final de Março, Francisco estará de novo num país de maioria muçulmana: Marrocos, onde João Paulo II esteve em 1985. A preocupação por um diálogo que, como tem proposto Francisco, acentue aquilo que as diferentes religiões têm em comum e a possibilidade de uma convivência pacífica não deixarão, de novo, de ser sublinhadas. Confirmando que esta será mais uma etapa necessária na construção de um verdadeiro diálogo”, como aponta John Allen numa análise no Crux, entre católicos e muçulmanos.

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