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autores - Phyllis Zagano (1)

O Papa recusou-se a dizer aos americanos como votar. Mas disse-nos como pensar sobre o assunto.

| 06/10/2024

eleições nos eua , foto c d-keine

Papa Francisco: “É preciso votar. E há que escolher o mal menor. Qual é o mal menor? Aquela senhora ou aquele senhor? Não sei.”  Foto: Eleições nos EUA. © C.D-keine

 

Tem havido muito barulho sobre o facto de [o candidato republicano à vice-Presidência dos EUA] JD Vance ser católico, mas será que ele vai à missa?

Claro que ninguém tem nada a ver com o facto de alguém ir à missa – a não ser que o católico em questão seja um candidato a um cargo importante.

Lembram-se das “guerras das hóstias” durante os anos do aborto legalizado Roe v. Wade? Em 1984, o candidato presidencial democrata Walter Mondale tinha como companheira de candidatura a deputada americana Geraldine Ferraro, a primeira mulher e a primeira ítalo-americana nomeada por um grande partido político. Ferraro deparou-se com a onda anti-aborto do arcebispo de Nova Iorque, John O’Connor, que em breve seria cardeal, quando disse que os católicos tinham opiniões diferentes sobre o aborto.

Outros políticos católicos conhecidos por serem pró-escolha, nomeadamente o governador de Nova Iorque, Mario Cuomo, e o senador dos EUA Ted Kennedy, do Massachusetts, não sofreram a mesma ira episcopal. Joe Biden, que, como candidato ao Senado e à Presidência dos Estados Unidos, fez eco da posição “pessoalmente contrária” de Cuomo, também conseguiu encantar os eleitores católicos, se não todos os bispos, apesar da sua defesa do direito ao aborto, então constitucional.

As coisas não correram bem para a congressista Ferraro.

Actualmente, os bispos continuam a queixar-se individualmente da posição de Biden e da sua assiduidade à missa, e o documento Faithful Citizenship, da Conferência dos Bispos Católicos dos Estados Unidos, em época de eleições, afirma mais uma vez: “o aborto continua a ser a nossa prioridade principal”.

O Papa Francisco, na sua conferência de imprensa no avião, quando regressava do Sudeste Asiático, foi questionado: “Que conselho daria a um eleitor católico confrontado com um candidato que apoia a interrupção da gravidez e outro que quer deportar 11 milhões de migrantes?”

A longa e ponderada resposta do Papa terminou com: “Ambos são contra a vida”. E continuou: “É preciso votar. E há que escolher o mal menor. Qual é o mal menor? Aquela senhora ou aquele senhor? Não sei.” [ver 7MARGENS]

Os católicos da linha dura acusaram Francisco de equívoco moral. É um desafio, mas não tem de o ser.

Realisticamente, não há luz do dia entre os candidatos presidenciais sobre o aborto. Cada um deles apoia-o. Um prefere restaurar um pastiche de leis estaduais, como antes da decisão do Supremo Tribunal de 1973 em Roe v. Wade. O outro prefere uma determinação nacional.

Vance, o único católico de ambos os grupos, opõe-se diametralmente à doutrina católica, apoiando o “aborto médico”. Pouco ou nada disse sobre a promessa do seu companheiro de candidatura de obrigar a cobertura de seguros para tratamentos de fertilização in vitro, apesar das proibições dos ensinamentos morais católicos.

E depois há as infindáveis afirmações falsas de Vance sobre os imigrantes haitianos legais no Ohio. Para ser claro, as repetidas afirmações falsas e depreciativas de Vance são tecnicamente calúnias, sendo assim classificadas pelos ensinamentos católicos como mortalmente pecaminosas.

A Conferência Episcopal do Ohio referiu-se às falsidades das declarações sobre os comedores de gatos, mas não citou Vance pelo nome. A conferência também não considerou necessário chamar a atenção para a promessa do seu companheiro de candidatura de deportar esses mesmos imigrantes.

Então, o que fazer?

Deve-se votar num ou noutro, como sugere o Papa? As pessoas que não conseguem fazer uma escolha podem escrever outro nome nos seus preciosos boletins de voto. Podem ser desencorajadas pelas recentes condenações criminais e descobertas de agressão sexual do republicano, mas ainda assim não conseguem decidir entre a equipa republicana pró-aborto, que mente na história dos gatos, e a equipa democrata pró-aborto liderada por uma mulher.

O que nos leva de volta a Ferraro. Os seus adversários atiraram-lhe com tudo. Algumas acusações tiveram sucesso. Ela era italiana e “com ligações” (tradução: Máfia). Era uma negociadora dura (tradução: “pouco feminina”). Barbara Bush, na altura a segunda dama dos Estados Unidos, disse sobre Ferraro, após o debate para a vice-presidência em 1984: “Não consigo dizê-lo, mas rima com rica”. Atualmente, a maioria das pessoas esquece que o legado legislativo de Ferraro se centrou nas mulheres.

A votação antecipada já está a decorrer. Dizem que os estados decisivos do Arizona, Geórgia, Michigan, Nevada, Carolina do Norte, Pensilvânia e Wisconsin vão decidir. Antes de Roe, apenas a Pensilvânia proibia totalmente o aborto. Nos restantes estados, era legal em diferentes graus. As coisas mudaram, mas não muito.

A questão básica, para os eleitores e para os bispos: que equipa é mais pró-vida?

 

Phyllis Zagano integrou a Comissão para o Estudo do Diaconado das Mulheres (2016-2018). É investigadora na Universidade de Hofstra, Hempstead, Nova Iorque, e o seu livro mais recente é Just Church: Catholic Social Teaching, Synodality, and Women (Paulist, 2023) [Igreja justa: ensino social católico, sinodalidade e mulheres]. Este texto foi inicialmente publicado no Religion News Service e é publicado em Portugal por cedência da autora e daquela publicação ao 7MARGENS.

 

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