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O paradoxo do silêncio (ou acautelar a ingenuidade)

| 29/09/2020

Rémi écoutant la mer. Rémi escutando o mar. Edouard Boubat

Rémi écoutant la mer (Rémi escutando o mar). Paris 1995. Foto © Edouard Boubat/Wikimedia Commons

É por demais sabido que o silêncio é o maior aliado do medo. Enquanto calamos as ameaças que nos invadem por dentro, umas vezes com razão e outras sem sequer terem pretexto, elas crescem, avolumam-se e, a dado momento, incapacitam-nos.

Por outro lado, ninguém duvida que a calma, como refere Eckhart Tolle, no seu livro O Poder do Silêncio, é a nossa natureza essencial. Precisamos de parar, de olhar para os detalhes, de cheirar, de saborear, de tocar, de deixar o nosso pensamento ir sem objetivo, mas com liberdade para ser capaz de entender o que encontra a cada instante e de processar tudo isso de forma sã.

Há momentos que não são percebidos nem apreciados porque não nos atemos a eles. Passamos como flechas com a preocupação do que se segue sem deixar lugar ao aqui e agora, único momento para verdadeiramente existirmos.

Seguindo o mesmo autor, quando perdemos o contacto com a nossa calma interior, perdemos o contacto connosco mesmos. Conhecemos o risco iminente do ruído constante que ocorre pelo excesso de informação, pelo excesso de desinformação, pelos conteúdos atualmente quase monotemáticos que nos asfixiam. Realmente temos de nos posicionar, pois não é possível viver bem, assim, permanentemente invadidos por correrias exteriores e interiores que resultam de um permanente desejo de não perdermos os comboios da vida, mas também de um sistemático risco de vermos desaparecer os carris da nossa essência.

Sem calma não alcançamos a verdadeira inteligência que só atua silenciosamente, afirma Tolle. Por isso temos de a fomentar com a serenidade de quem sabe que, tal como outro alguém disse, quando não podemos controlar uma situação, devemos tentar controlar como reagimos a ela. Esse é o nosso verdadeiro poder.

Ao continuar um pouco mais esta viagem pelo pensamento do autor, encontramos algo que temos vindo a defender noutros enquadramentos – a sabedoria vem da capacidade de manter a calma e o silêncio interior.

Nos tempos que correm precisamos muito de nos equilibrarmos entre as certezas e as dúvidas, a confiança e o medo, a esperança e o desespero. Se o silêncio nos ajuda a entender melhor o mundo exterior e o nosso mundo interno, a partilha equilibrada e serena contribui para que o nosso eco nesse outro que nos escuta e disso é merecedor, desmistifique e desconstrua algo que pode ser aterrorizador se for vivido sozinho e inundado de sombras, já que muitas pessoas vivem aprisionadas nos limites dos próprios pensamentos sem a consciência de que isso, só por si, as faz cair num abandono humano a resvalar para a diluição quase completa do seu eu.

O lugar do silêncio parece paradoxal nas nossas vidas. Ele é insubstituível mas, ao mesmo tempo, não pode deixar-se ficar em si mesmo. Trata-se, pois, de nos esforçarmos por encontrar o equilíbrio entre o espaço que lhe damos e o tempo para o encontro com o outro. Esse outro que merecemos e que nos merece; esse outro que quer, genuinamente, o nosso bem e a quem também queremos bem; esse outro que escuta e se esforça por compreender o que colocamos em comum e procura, connosco, alternativas de bem ser e de bem sentir.

Vivemos, exatamente agora, um período de grande exigência. Somos desafiados a crescer à força para enfrentarmos um invisível que continua poderoso, sem sabermos como foi possível que assim tivesse acontecido, a não ser que conspiremos baseados nos raciocínios de cada um ou em tantos estudos, não raramente contraditórios.

Somos, hoje, protagonistas de histórias e de preocupações que só os irresponsáveis colocariam em segundo plano. Queremos continuar a lutar no mundo e por ele, construindo paz, apoiando famílias e buscando saúde.

Ainda assim, com toda esta panóplia de desafios, está visto que não podemos resvalar para a ingenuidade. Há e haverá sempre aqueles que, nos momentos mais críticos, tentarão aproveitar e aproveitar-se da generosidade dos bem-intencionados. É por isso que, frequentemente, o justo paga pelo pecador.

Mantenhamos o silêncio interior, a partilha equilibrada e o olhar bem aberto ao que nos rodeia para que, desse modo, o contributo que damos ao mundo e a cada outro, seja merecido e merecedor do nosso esforço e do nosso empenho.

 

Margarida Cordo é psicóloga clínica, psicoterapeuta e autora de vários livros sobre psicologia e psicoterapia.

 

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