O Pastor Ferido

| 28 Jan 2021

Inesperadamente, foi-me dada a possibilidade de fazer um retiro espiritual. Um tempo de reflexão, meditação e prece. Foi uma das “prendas do Menino Jesus” na última celebração do Natal. É verdade.

Recebi um livro de Austen Ivereigh com o título O Pastor Ferido – O Papa Francisco e a Sua Luta para Converter a Igreja Católica (ed. Vogais). É um texto com 511 páginas, 80 das quais com referências às fontes onde se fundamentou o autor para as suas constatações e análises. Confesso que interrompi as anteriores leituras que estava a fazer, tal foi a enorme curiosidade que se apoderou de mim. Confesso que fui galvanizado pelo conhecimento das intrigas a que o Papa tem estado sujeito desde o início do seu pontificado.

Porém, ao longo da leitura, fui-me centrando mais nos comentários às intervenções ditas ou escritas por Francisco do que na descrição dos já muitos ataques de que tem sido alvo. O autor passa pelos grandes temas que têm estado nas preocupações do bispo de Roma, faltando apenas a referência à mais recente carta encíclica Fratelli Tutti, mas terminando a obra a falar do Documento sobre a fraternidade humana em prol da paz mundial e da convivência comum, assinado pelo Papa e pelo Imã Ahmed el-Tayeb, que é citado na encíclica referida.

A leitura deste livro foi, de facto, um retiro: refleti sobre as observações do autor, meditei, como forma de aprofundamento, sobre as posições assumidas por Francisco e rezei para que as fundamentais se tornem, rapidamente, uma realidade; e rezei, também, por todos os que se opõem às mudanças que se impõem para a renovação da Igreja e pelo contributo a dar para uma “nova ordem mundial”. Compreendo que quem desempenha funções de comando não agrade nem a todos, nem em tudo. Mal seria. Mas já me custa a aceitar que os maiores opositores sejam quem deveria estar próximo e que, sempre que houvesse discórdias, elas nunca deveriam gerar inimizades e separações.

O livro centra-se, como já aduzi, nas principais preocupações de Bergoglio, como sejam: a renovação das estruturas de governo da Igreja; a família, incluindo os recasados; o envolvimento dos jovens na construção das sociedades e da Igreja; o efeito perverso das desigualdades sociais; a misericórdia como virtude cristã incontornável; o poder clerical; a importância do laicado; a missão das mulheres na Igreja; os desafios ecológicos; o diálogo entre religiões.

Sobre alguns destes temas limito-me a citar trechos do livro, que traduzem, como é óbvio, a minha sensibilidade, mas que podem ter noutros leitores os ecos que eclodiram em mim.

São os seguintes: “Quando traía o seu chamamento para um serviço pastoral discreto e devoto, desempenhado de forma zelosa em contacto direto com o povo de Deus, a cúria tornava-se numa alfândega pesada, burocrática, fiscalizadora e inquisitorial, atrapalhando o trabalho do Espírito Santo e o crescimento do povo de Deus” (p. 117).

“O clericalismo é a ideia perversa de que os clérigos de qualquer tipo – bispos, padres, pessoas consagradas – são superiores aos não clérigos, que são tratados como inferiores, ou como crianças, e cuja tarefa é rezar, pagar e obedecer, e não questionar o clérigo. É uma perversão porque a ordenação confere poderes para administrar sacramentos. Para ensinar e para governar, mas não confere superioridade – moral, espiritual ou intelectual – sobre os não ordenados. Acreditar nisso vai contra o próprio ensinamento da Igreja no Concílio Vaticano II, e a insistência nessa superioridade é o refúgio de pessoas espiritualmente vazias com egos frágeis” (p. 141).

“É a Igreja que não tem medo de comer e beber com prostitutas e publicanos; a Igreja cujas portas estão abertas de par em par para receber os necessitados, os penitentes, e não apenas os justos ou aqueles que julgam que são perfeitos!” (p. 333).

“Não se deve atirar para cima de duas pessoas limitadas o peso tremendo de ter de reproduzir perfeitamente a união que existe entre Cristo e a sua Igreja. Um casamento e uma família idílicos ou perfeitos eram um mito de campanhas publicitárias; era muito mais saudável “aceitar com realismo os limites, os desafios e as imperfeições e dar ouvidos ao apelo para crescer juntos” (p. 376).

“Inimigo da fraternidade é o individualismo, que se traduz na vontade de eu mesmo e do meu próprio grupo nos sobrepormos aos outros”. A verdadeira religiosidade, por outro lado, “consiste em amar a Deus de todo o coração e ao próximo como a si mesmo” (p. 426).

Estas são algumas das muitas mensagens que poderemos recolher do livro O Pastor Ferido. Aconselho a sua leitura.

 

Eugénio Fonseca é presidente da Confederação Portuguesa do Voluntariado

 

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