O pecado de Sodoma foi a falta de hospitalidade (Reportagem, epílogo)

| 12 Abr 19 | Igrejas Cristãs, Judaísmo, Últimas

(Em busca de Sodoma, por Frédéric Martel – IV)

Thomas Römer, numa imagem reproduzida de um vídeo do Collège de France, disponível no endereço https://www.youtube.com/watch?v=YpyXgeO3t2w

 

Thomas Römer é um dos maiores especialistas do Antigo Testamento. Professor no Collège de France, o mais prestigiado dos centros de pesquisa franceses, é aí que o encontro.

O gabinete deste investigador suíço situa-se no Quartier Latin, perto da Sorbonne. Por também eu aí ter estudado vários anos, conheço este tipo de atmosfera, tão antiga quanto parisiense: livros empilhados, revistas empilhadas, manuscritos empilhados; um gabinete feito de arquivos e de publicações acumuladas.

Römer publicou várias obras sobre a questão da homossexualidade na Bíblia e a história de Sodoma. E é categórico: os versículos do Antigo Testamento sobre Sodoma que sustentaram as perseguições aos homossexuais ao longo da história cristã e judaica foram desvirtuados.

O especialista identifica em primeiro lugar problemas graves de tradução e de interpretação. Sublinha depois que a própria Bíblia revela que os habitantes de Sodoma eram heterossexuais, uma vez que Lot chega a propor as suas próprias filhas a estes habitantes, para que as «conheçam» sexualmente. A presumível homossexualidade dos sodomitas é, portanto, refutada, tanto mais que não é concebível que uma cidade inteira, vivendo em auto-suficiência ao longo de séculos, possa ser composta apenas por homossexuais. Finalmente, por que é que cinco cidades teriam sido destruídas ao mesmo tempo que Sodoma, se esta fosse a única (talvez com Gomorra) a ser homossexual?

A partir de comparações complexas e filológicas com outros relatos bíblicos do Antigo Testamento, e um trabalho de análise da sexualidade na antiguidade, Thomas Römer chega à conclusão definitiva de que a punição de Sodoma está ligada à violação, à violência sexual, à recusa da justiça e à falta de hospitalidade.

– A homossexualidade não tem nada a ver com o assunto. O narrador da Bíblia não faz uma reflexão sobre o valor moral, a homossexualidade, mas sobre o orgulho, a agressividade e a falta de hospitalidade de Sodoma, garante Römer.

O Novo Testamentotambémnão relaciona a destruição de Sodoma com a homossexualidade. Segundo os evangelhos de Mateus e Lucas, o próprio Jesus pensava que a destruição de Sodoma estaria ligada à falta de hospitalidade dos seus habitantes. Várias outras alusões a Sodoma noNovo Testamentoconfirmam que a falta de hospitalidade e de acolhimento dos estrangeiros são as causas principais da punição divina, não sendo nunca evocada a homossexualidade para justificar a destruição da cidade maldita.

– A história de Sodoma é um exemplo do modo como a Igreja, por razões ideológicas, leu os textos bíblicos, contrariando o que dizem, afirma Thomas Römer.

Se aceitamos esta leitura, o Papa Francisco, que defende os migrantes e tende a aceitar os gays, estaria na linha da Bíblia, enquanto a extrema-direita católica mereceria a excomunhão! Os juízos de cardeais como Raymond Burke, Robert Sarah ou os famosos “indecisos” estariam, portanto, profundamente baralhados!

Segundo Römer, a reinterpretação selectiva da Bíblia é muito mais tardia.

– A condenação da homossexualidade corresponde a uma leitura muito posterior, quando o judaísmo se encontrou com acultura grega, provavelmente no séc. I d.C.. O pecado da homossexualidade ter-se-ia definido naquela altura, com os judeus helenistas que fazem da Bíblia uma releituraenviesada, numa palavra, apócrifa.

 

Uma leitura selectiva da Bíblia

Finalmente, Thomas Römer surpreende-se por esta leitura homofóbica da Bíblia ser tão selectiva. Se, por um lado, não nega que há dois breves versículos problemáticos no Antigo Testamento, essencialmente no Levítico, em que a homossexualidade é condenável, por outro, considera que é preciso relativizar tais interditos e recolocá-los no seu contexto. Aliás, a maior parte dos teólogos cristãos recusou as regras do Levítico, actualmente anacrónicas ou indefensáveis. É preciso lembrar que a Bíblia considera a escravatura como um dado natural; que os homens são “proprietários” das mulheres, longe de qualquer igualdade de género; que a poligamia é consentida; que Jacob se casa com duas irmãs ou ainda que o incesto é bem tolerado entre Lot e as filhas. E que dizer da visão bíblica sobre as estrelas ou a criação das plantas e dos animais? Hoje nenhum católico arriscaria contar essas histórias, sob pena de ser ridicularizado pelos filhos. Então, porquê querer seguir à letra as afirmações sobre a homossexualidade que são arcaicas e ultrapassadas e, além disso, apócrifas?

Afinal, Römer denuncia todos os teólogos contemporâneos que fazem uma leitura da Bíblia tão selectiva, só retendo os interditos.

O principal desafio da destruição de Sodoma é a questão da hospitalidade, insiste Römer. Lot é poupado porque se revelou hospitaleiro. A questão da homossexualidade não se coloca. Segue-se o episódio do incesto de Lot com as filhas. Estranhamente, fecha-se os olhos a este pecado, mencionado na história de Sodoma, para realçar a homossexualidade, que não é referida.

Centenas de passagens do Antigo Testamento, refere ainda, são cruéis e violentas: Deus é sanguinário e vingativo e actua para matar, quando não está presente como um déspota e um purificador étnico; a lapidação e a pena de morte são infligidas a numerosos “crimes”; o marido tem o dever de matar a mulher adúltera; o pai tem o direito de vender os filhos como escravos e de matar o filho rebelde que não lhe obedeça….

Perante esta litania de passagens insustentáveis e das quais nenhum cristão pode hoje fazer uma leitura fundamentalista de preceitos entretanto apagados ou esquecidos, por que razão continuar a ler à letra só as passagens críticas a respeito dos homossexuais? – interroga-se ainda o célebre pensador. 

Em relação a estas afirmações selectivas, Römer acrescenta a incoerência de enfatizar na Bíblia os textos anti-homossexuais, apesar de o Antigo Testamento conter narrativas bíblicas que fazem o elogio da homossexualidade. Assim, a história de David e Jónatas seria claramente, segundo ele, a ilustração de relações amorosas entre homens, embora raramente isto seja tido em conta, tal como o erotismo das histórias de Saul e David ou Ruth e Noami.

Esta leitura parcial da Bíblia – preconizada, designadamente, pelos papas Paulo VI, João Paulo II e Bento XVI – consistiu, portanto, em exagerar o crime dos “sodomitas”, ignorando os amores homossexuais. Dois pesos, duas medidas.

A história de Sodoma, apócrifa, foi, na verdade, escrita sobre a areia. Ou, pelo menos, sobre o sal.

 

(Tradução: Maria Carvalho Torres; Edição: Maria Carla Crespo e António Marujo)

 

No trabalho de reportagem que fez para o livro No Armário do Vaticano (ed. Sextante Editora, Sodoma, na versão original), o jornalista e investigador francês Frédéric Martel incluiu uma pesquisa sobre a busca da cidade bíblica de Sodoma. Esse trabalho acabou por não ser incluído no livro e deu origem a um capítulo que o autor promete publicar na página da Internet dedicada à obra (www.sodoma.fr). Entretanto, os direitos de publicação deste trabalho, para português, foram cedidos pelo autor ao 7MARGENS, que hoje termina a publicação desta grande reportagem. O texto anterior da série pode ser lido aqui.

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