O pensamento nómada do poema de Deus

| 18 Nov 19 | Cultura e artes - homepage, Literatura e Poesia, Últimas

Uma leitura de Uma Beleza que Nos Pertence, de José Tolentino Mendonça

 

 

O aforismo, afirma Milan Kundera na sua Arte do romance (Gallimard, 1986), é “a forma poética da definição” (p. 144). Esta, prossegue o grande autor checo, envolvendo-se reflexivamente numa definição da definição, é o esforço, provisório, “fugitivo”, aberto, de dar carne de visibilidade àquelas palavras abstratas em que a nossa experiência do mundo se condensa como compreensão. Se “não quisermos cair no vago em que todos acreditam compreender tudo sem compreender nada, é necessário não apenas uma precisão extrema, mas que eu defina e redefina. Um romance não é frequentemente outra coisa do que uma longa busca atrás de algumas definições que lhe escapam” (p. 148).

A definição do conceito de definição torna-se aqui uma definição do conceito de romance que pode servir perfeitamente para a literatura em geral, se admitirmos que ela é, como observa José Tolentino de Mendonça no seu último livro, A beleza que nos pertence (Quetzal, 2019): “um instrumento de precisão como existem poucos” (p. 110). A precisão da literatura, ao contrário da das ciências exatas – diz Kundera, em plena consonância com Tolentino de Mendonça – é o oposto do definitivo. Não se constrói como apuramento progressivo de resultados que visam o irrefutável, mas como “peregrinação”, viagem fora de si e dos territórios que habitamos para se reencontrar numa “extraterritorialidade simbólica” que “faz, momentaneamente, viver sem cidade e sem morada” (p. 150).

A precisão da literatura, e é esta a razão pela qual ela recorre às “mesmas palavras que expressam a indagação crente, a construção da experiência crente” (p. 110), é a de um exercício de atenção tenso e intenso em relação à “singularidade, liberdade e tragicidade da vida” (Ib.). Toda a literatura, como toda a fé, é uma “arte de escuta […], contributo fundamental para a audição do dizível e do indizível, do visível e do invisível” (p. 108). Longe de ser a arte da ilusão, a literatura destrói a ilusão, em que a sociedade atual tão facilmente se envolve, de que o indizível e o invisível sejam simplesmente o que não há: o inexistente, pelo qual não temos algum interesse, que não tem algum significado para nós, ou que podemos inventar e reinventar à nossa discrição, como mero produto da nossa fantasia. A poesia, pelo contrário, faz-nos “teimosamente repetir: «Não pode ser só isto»” (p. 109), despertando a consciência da nossa ignorância, do “que eu ainda não sei. O que me falta do caminho a percorrer” (Ib.).

 

Poético, o oposto do totalitário

Por isso, um pensamento poético é o oposto de um pensamento totalitário, que pretende dizer de uma forma completa e definitiva «o que isto é e como é», que estabelece hierarquias e delimitações intransponíveis, estabelecendo certezas nas quais ficar, em vez de pontos de partida dos quais mover-se. Um pensamento poético não se demarca pela escolha de palavras bonitas, de recursos estilísticos, metáforas assombrosas, expressões inéditas, como às vezes somos ingenuamente levados a pensar, nem se demarca por renunciar às definições, mas por as apresentar como um caminho e não como um resultado, como uma ocasião de ir além, e não como um pretexto para parar. O aforismo é registo de eleição do pensamento poético, porque é uma forma de reflexão que renuncia à exaustividade e à sistematicidade, na sua fidelidade ao concreto, em que o teor abstrato das ideias (“esperança, espiritualidade, fé, felicidade”…) se rende à irregularidade vagabunda do real, à surpresa do inesperado, da novidade incalculável: o «emergente», que é a categoria criadora da contingência. O aforismo é expressão condensada do nomadismo do pensamento poético, do seu ser refletir em saída: que vai através dos campos (Per ager), para lá das fronteiras (Per eger) (p. 150).

Esta pertinência não é imediata. No começo surpreende-nos este livro de aforismos, com o alcance preciso, e no entanto não capturável em fórmula, do seu registo reflexivo: do poeta, exegeta e teólogo, esperamos versos ou conceitos, comentários bíblicos ou reflexões sistemáticas, e o que ele nos dá aqui é pelo contrário o respiro tão regular como não previsível de uma prosa rapsódica, que escolhe o ritmo paratático da justaposição em vez da arquitetura hipotática do sistema: não é o todo a ambição deste olhar, mas o singular, não a generalização mas o ponto de interseção da parte no conjunto.

Ao progredir na leitura, contudo, a surpresa dá lugar ao reconhecimento de um intento preciso, de um estilo de pensamento em diálogo profundo com as exigências tão espirituais como intelectuais da contemporaneidade. Não são as generalizações omnicompreensivas, moldes alegadamente todo-poderosos cuja duração é apenas a estação de uma moda filosófica ou teológica, que o nosso tempo quer e precisa. É, antes, uma linguagem fiel à experiência não falsificável do singular de cada um e do nós histórico a que reconhecemos pertencer, o singular em que o humano não fica dissolvido em conceito e reificado em objeto, mas mantém intacta a liberdade da auto-compreensão performativa como subjetividade: “Qualquer filosofia cristã, por mais inspiradora que seja, não se pode sobrepor à autobiografia. É uma «história de homem» que o cristianismo se propõe testemunhar, explicitando a forma como essa história radical se cruza com a nossa” (p. 159).

Escrever o poema de Deus para apagar o poema de Deus

A grande intuição especulativa intrínseca ao cristianismo – o humano são pessoas e não uma ideia – torna-se mais atual do que nunca, numa época que viu ruir todas as ideologias, as meta-narrativas, os sistemas, mas não pode resignar-se à afasia de um fragmentarismo anárquico e incomunicável. É no “nomadismo” do percurso, na exploração incansável dos horizontes e não na construção de um “departamento de mapas e guias de viagem” (p. 147) que se explica um pensamento adequado às perguntas levantadas pelo homem do nosso tempo e que encontra no cristianismo uma fonte de inspiração primária, porque a fé cristã não é uma “maquina bem oleada” (Ib.) para produzir simplesmente “práticas e convicções” (p. 158), mas a consciência de que o “radical lugar” da identidade “é a habitação da própria mudança” (p. 164).

O pensamento poético, o que encontra uma forma de expressão ideal no aforismo, e que se gera da intuição de que hoje as “vias da procura espiritual deixaram de ter sentido único” (p. 157), é enraizado profundamente na substância anti-idolátrica da fé judaico-cristã: “A Deus nunca ninguém O viu, diz-nos o Evangelho de São João. Nesse sentido nunca somos apóstatas. Porque o horizonte de verdade é, em última análise, invisível. Está em revelação. Temos de acertar as representações, acolhê-las, perceber o seu significado e ultrapassá-las. Temos de escrever o poema de Deus para apagar o poema de Deus. E de apagar o poema de Deus para escrever o poema de Deus” (p. 58). Nenhuma palavra humana pode aspirar a ser “poema de Deus”, porque não há verdade definitiva da palavra do homem, mas isto não significa que não haja verdade na palavra do homem, porque é a procura da verdade, a procura de Deus, que dá sentido à palavra humana, faz dela poema que incessantemente temos de apagar, para dar lugar a uma nova palavra em busca da verdade, a um novo poema nómada que habita a história como um peregrino governado pela lei mas conduzido pelo desejo (p. 133).

Andamos, enquanto estamos sentados a ler este livro, e ficamos de novo surpreendidos quando, quase de saída, damos connosco a pensar que ele é exatamente como aquele “banco de jardim” que se autocoloca com humildade no capítulo dedicado à “Simplicidade”: “pode parecer um artefacto completamente dispensável. Contudo ele representa bem todas essas coisas que nos ajudam a reorganizar não só o visível, mas também o nosso próprio modo de ver” (p. 188).

 

Uma Beleza que Nos Pertence

Autor: José Tolentino de Mendonça

Edição: Quetzal; Lisboa 2019

 

Teresa Bartolomei é doutorada em Teoria da Literatura pela Universidade de Lisboa, investigadora do Centro de Investigação em Teologia e Estudos de Religião da Universidade Católica Portuguesa e professora convidada na Faculdade de Teologia da UCP.

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Dez
10
Ter
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Dez 10@17:30_18:30

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Dez
11
Qua
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Dez
14
Sáb
3º Concerto de Natal da Academia de Música de Santa Cecília @ Basílica do Palácio Nacional de Mafra
Dez 14@21:00_22:30

Entrada gratuita mediante o levantamento de bilhetes nos Postos de Turismo de Mafra e Ericeira

 

A Academia de Música de Santa Cecília, escola de ensino integrado de música, apresenta o seu terceiro concerto de Natal nos dias 14 e 15 de Dezembro, no Palácio Nacional de Mafra, classificado recentemente como Património Cultural Mundial da UNESCO.

Neste concerto participa um coro constituído por 250 crianças e jovens dos 10 aos 17 anos e uma orquestra de cordas de alunos da escola, a soprano Ana Paula Russo e ainda o conjunto, único no mundo, dos seis órgãos da Basílica de Mafra.

No programa estão representados vários compositores nacionais e estrangeiros, destacando-se a obra “Seus braços dão Vida ao mundo”, sobre um poema de José Régio, da autoria da jovem Francisca Pizarro, aluna finalista do Curso Secundário de Composição da Academia de Música de Santa Cecília.

O concerto assume especial importância não apenas pela singularidade do conjunto dos seis órgãos do Palácio Nacional de Mafra mas também pela dimensão do número de jovens músicos envolvidos.

A relevância do concerto manifestou-se em edições anteriores (2016 e 2017), pela sua transmissão integral na RTP2, tendo o concerto de Natal de 2017 sido difundido em directo para a União Europeia de Rádio. O concerto tem o patrocínio da Câmara Municipal de Mafra.

Programa do concerto

Arr. Carlos Garcia (1983)
Ó Pastores, Pastorinhos (tradicional de Alferrarede)

Francisca Pizzaro (2001)
Seus braços dão Vida ao mundo (sobre um poema de José Régio), obra em estreia absoluta, encomendada para a ocasião; Francisca Pizarro é aluna do curso secundário de Composição da AMSC

Arr. Fernando Lopes-Graça (1906-1994)
O Menino nas Palhas (tradicional da Beira Baixa)

Eurico Carrapatoso (1962)
Dece do Ceo (sobre um poema de Luís de Camões)

Arr. Carlos Garcia
Gloria in excelsis Deo (tradicional francesa) *

Franz Xaver Gruber (1787-1863) Arr. Carlos Garcia
Stille Nacht

Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791)
Alleluia, do moteto Exsultate, jubilate

Tradicional francesa
Quand Dieu naquit à Noël

Louis-Claude Daquin (1694-1772)
Noël X

Arr. Malcolm Sargent (1895-1967)
Zither Carol (tradicional da República Checa)

Tradicional do País de Gales
Deck the Halls

John Henry Hopkins Jr. (1820-1891); Arr. Martin Neary (1940)
We three Kings

Arr. Mack Wilberg (1955)
Ding! Dong! Merrily on High (tradicional francesa)

Arr. David Willcocks (1919-2015)
Adeste Fideles (tradicional), com a participação do público.

CANTORES E MÚSICOS
Ana Paula Russo, soprano

Ensemble Vocal da AMSC
Coro do 2º Ciclo da AMSC
Coros do 3º Ciclo e Secundário da AMSC

Orquestra de Cordas da AMSC
Pedro Martins, percussão

Rui Paiva, órgão da Epístola
Flávia Almeida Castro, órgão do Evangelho
Carlos Garcia, órgão de S. Pedro d’Alcântara
João Valério (aluno da AMSC), órgão do Sacramento Liliana Silva, órgão da Conceição
Afonso Dias (ex-aluno da AMSC), órgão de Sta. Bárbara

Carlos Silva, direcção da orquestra

António Gonçalves, direcção

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