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O pequeno Deus da partida

“Aqui mesmo, no entanto, no regaço da mulher que neste instante me dá a mão, companheira de todas as viagens, está o meu mundo que não parte. Que não se parte. Vai comigo. Inteiro.”  Foto: Potomac (Washington DC) © Luis Castanheira Pinto

 

Lá fora a neve ainda não derreteu. O sol atreve-se por entre a bruma que acorda e a vegetação que desponta timidamente, a clamar primavera. Bate nos olhos. Ofusca. Sabe bem.  Acompanha sem mácula o café da manhã, ainda quente. As páginas do jornal trazem conforto, longe da actualidade das noticias. A alma alimenta-se da ideia da leitura no sofá, mais do que das letras estampadas no papel. Ou no ecrã, tanto faz. Há uma paz indizível no oxigénio que respiro.

Lá fora faz frio. Cá dentro, o roupão mal enrolado aguarda o despertar dos meninos. O som, primeiro remoto, depois bem nítido, dos primeiros passos do dia, lá em cima. Um a um, descem à chamada de um pequeno-almoço que não se fez anunciar. Sabemos quem são – quais são –  sem os ver. Os pés descalços. O beijo matinal. Um abraço ainda quente dos lençóis desgrenhados. As marcas do sono inscritas na pele de criança (eles diriam “adolescentes”, para evitar confusões). Como é belo o rosto dos filhos a dormir. Que terno aquele carinho com as costas da mão. Suave, silencioso, para não acordar. A pergunta de sempre atirada sem propósito. “Dormiste bem?”. Um ritual mais do que uma interrogação. A certeza de que estou em casa. No meu ninho. Com os que mais amo.

Lá fora aguardará em breve o táxi que me leva ao aeroporto. Por agora, adio sem pudor o momento da partida. Será mais tarde, efectivamente. Mas começou já. Há uns dias aliás. Largou ferros a barca da angústia, da partida. A distância que se evita. Uma dor feita moinho, que desfaz sem quebrar. Mói apenas. Lentamente. Irremediavelmente. A saudade que se instala antes do tempo. Ainda não fui. E já só penso no regresso.

Lá fora, lá bem longe, há um destino que me aguarda. Algures nos confins da África continental, 43 graus à sombra darão lugar à geada que agora me conforta. Como em outras ocasiões, seguir-se-ão os encontros de fato-e-gravata. Os confrontos e entendimentos que, esperamos, ajudem as vidas de milhões de mulheres e crianças. Hoje entregues à crueldade de uma morte extemporânea, anunciada nas folhas de excel sem emoção. Um dia – desejamos – capazes novamente de sonhar com a vida de um feto agora condenado. É nobre esta causa. Traz sentido ao pacto profissional. Comove saber-me parte – ainda que insignificante – de um mundo que se quer melhor, e faz por isso. E no entanto.

Lá fora está a partida. A ausência sentenciada. Aflição. Remorso. Ressentimento. Não sempre. Mas agora sim. Aqui mesmo, no entanto, no regaço da mulher que neste instante me dá a mão, companheira de todas as viagens, está o meu mundo que não parte. Que não se parte. Vai comigo. Inteiro. No afã matinal dos meus filhos, alheio aos desnortes que me consomem, está a prece que agora me acompanha. O meu pequeno Deus feito menino, e que volta e meia me convida a partir.

 

Luís Castanheira Pinto é licenciado em economia, tem-se dedicado às questões do conhecimento, aprendizagem e desenvolvimento de competências e trabalha no Banco Mundial, em Washington DC (Estados Unidos). É casado e pai de três filhos. Viveu anteriormente no Porto, Lisboa, Bruxelas e Copenhaga.

 

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