[O flagelo que não acaba (IX)]

O perdão não substitui a justiça

| 27 Mai 2023

“Se o perdão não é fácil, a reconciliação é ainda mais complicada.” Ilustração original de © Catarina Soares Barbosa para o 7MARGENS

“Se o perdão não é fácil, a reconciliação é ainda mais complicada.” Ilustração original de © Catarina Soares Barbosa para o 7MARGENS

 

Gostaria muito que este pudesse ser verdadeiramente o último artigo dedicado ao flagelo que não acaba, os abusos na Igreja. Como temo que, infelizmente, não poderá ser assim, não quero colocar (fim) e deixo em aberto a possibilidade de poder retomar a série.

Vou-me referir ao perdão e à reconciliação em geral na Igreja, porque nos faz muita falta, dentro de um processo maior que é a cura nesta Igreja que tanto nos magoa a muitos de nós.

O perdão, que é um processo, requer tempo. Um tempo que não será igual para todas as pessoas e que se terá de aceitar que, em alguns casos, nem venha a acontecer. Isto não terá de supor apontar a essas pessoas que não conseguem chegar a perdoar, mas deve-nos fazer pensar e, acima de tudo, respeitar, que existem feridas que se fecham em falso e cuja cicatrização é realmente difícil.

Não poderá ser o mesmo processo para toda a Igreja porque os fatores culturais e sociais não são iguais em toda ela, mas também não poderá ser o mesmo processo nas paróquias, capelas, comunidades ou grupos dentro da mesma diocese. Convém recordar que os processos são vivenciados por pessoas, não por lugares.

Se o perdão não é fácil, a reconciliação é ainda mais complicada. Podemos correr o risco de nos tornarmos no irmão mais velho da parábola do filho pródigo que, para além de não entender o gesto do pai, fica sem saber, sem ser consciente de que tudo fora sempre seu. Quer dizer, a reconciliação fará com que nos recoloquemos na Igreja de modo que ocupem o seu lugar aqueles que se aproximam depois de um itinerário de revisão, perdão e cura espiritual e psicológica.

Acompanharemos as vítimas e os vitimadores e estou convencida que será uma experiência enriquecedora para todos. Não há que ter medo. Temos de ser pessoas de esperança, de uma grande esperança, de que o processo de cura na Igreja é possível. Não podemos nem devemos ser profetas de calamidades, nem acreditar que esta situação horrível não tem remédio. Tem, se todos, repito, todos quisermos que a tenha e a enfrentarmos.

Num texto tão breve quanto intenso, Vida em comunidade, o teólogo protestante Dietrich Bonhoeffer escreve: “Desapontados pelos outros e por nós mesmos, Deus vai-nos levando ao conhecimento da autêntica comunidade cristã […] Porque Deus não é um deus de emoções sentimentais, mas sim o Deus da realidade. Por isso, somente a comunidade que, consciente das suas tarefas, não sucumbe à grande desilusão, começa a ser o que Deus quer e alcança pela fé a promessa que lhe foi feita.”

É claro que o perdão e a reconciliação não privarão os vitimadores do seu encontro com a justiça. Não em vão, Bento XVI disse-o claramente: “O perdão não substitui a justiça.”

Como afirmei na meditação de abertura do Sínodo em que estamos imersos: “Somos caminhantes feridos cheios de esperança, confiança e amor no Deus que não nos abandona e ajusta o seu passo ao nosso, ao ritmo do acolhimento, do perdão, e da graça.

Estamos diante de ti, nosso Deus, como uma Igreja ferida, profundamente ferida. Temos causado muitos danos a muitas pessoas e a nós mesmos. Desde há séculos que temos vindo a confiar mais nos nossos egos do que na tua Palavra. Há muito tempo que esquecemos que, de cada vez que não te deixamos caminhar ao nosso lado, somos incapazes de manter o rumo certo. […] É bom e saudável corrigir os erros, pedir perdão pelos delitos cometidos e aprender a ser humildes. Seguramente viveremos momentos de dor, mas a dor faz parte do amor. E a Igreja magoa-nos porque a amamos”.

Celebramos agora o Pentecostes. Recordemos que o Espírito vem para todos.

Com dor e com muito mais esperança, encaramos o nosso futuro na Igreja. Infelizmente, como disse no início, tenho a certeza de que voltarei a escrever sobre abusos mais adiante.

Até que chegue esse momento (esperemos que tarde), dentro de alguns dias voltaremos a encontrar-nos no 7MARGENS com artigos sobre outros temas.

Cristina Inogés Sanz é teóloga e integra a comissão metodológica do Sínodo da Igreja Católica. Tradução de Júlio Martin.

 

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