Nunca a exigência de sentido crítico no cidadão comum foi tão elevada como a que precisamos para os tempos que se avizinham. Se existe livro que as pessoas mais precisam de ler neste momento é o romance Mil novecentos e oitenta e quatro de George Orwell e não pelos motivos que poderão estar a pensar.
Em Mil novecentos e oitenta e quatro, a crítica mais evidente é a de um “Big Brother”, um Partido que controla a vida das pessoas, mas um perigo maior que estamos à beira de viver é o associado ao “Ministério da Verdade”: o perigo de reescrever a história.
O lema do Partido é — «Quem controla o passado controla o futuro; quem controla o presente controla o passado.» — e com o recente passo de Mark Zuckerberg que pretende eliminar a verificação de factos na rede social Facebook, podemos estar diante de uma realidade semelhante ao Ministério da Verdade, onde a possibilidade de manipular a informação se sobrepõe à verdade dos factos. A desinformação é um passo perigoso na reescrita da história, sobretudo neste período em que 99.9% das pessoas se volta para a internet como fonte de informação.

“(…) com o recente passo de Mark Zuckerberg que pretende eliminar a verificação de factos na rede social Facebook, podemos estar diante de uma realidade semelhante ao Ministério da Verdade, onde a possibilidade de manipular a informação se sobrepõe à verdade dos factos.” Foto: Ministério da Verdade. Imagem gerada no DALL-E (programa de inteligência artificial que cria imagens a partir de descrições textuais) com prompt de Miguel Panão.
O desenvolvimento do sentido crítico faz-se com uma vida intelectual amadurecida pela curiosidade e pela educação. Não é preciso ir para a Universidade e frequentar um curso para desenvolver uma vida intelectual activa. Bastaria ler mais.
Em A Vida Intelectual, Antonin Sertillanges desenvolve uma ideia central em torno da dedicação disciplinada e espiritual ao cultivo da vida do intelecto, compreendida como uma vocação exigente e nobre. Sertillanges clarifica que a busca pela verdade não é apenas uma actividade intelectual, mas um compromisso profundo que integra o espírito, o carácter e a conduta de quem a persegue. Para Sertillanges, na vida intelectual devemos equilibrar a reflexão com a ação, valorizar a concentração e a simplicidade, e cultivar uma rotina que privilegie a leitura, o estudo, e o silêncio criativo, sempre em sintonia com um sentido de propósito moral e espiritual. A vida intelectual não é querer saber muito, ou mais do que os outros, mas um caminho de serviço à verdade, que exige tanto rigor quanto humildade.
No pouco conhecido (e não traduzido) livro de Jonathan Rose, A Vida Intelectual das Classes Trabalhadoras Britânicas, o autor explora a rica e muitas vezes negligenciada história do envolvimento intelectual das classes trabalhadoras britânicas, desafiando a visão convencional de que o pensamento sofisticado e a cultura literária eram exclusividade das elites. Rose investiga como operários, mineiros, artesãos e outros trabalhadores acederam à educação, desenvolveram um profundo amor pela leitura e refletiram sobre questões sociais, políticas e filosóficas, muitas vezes em condições adversas. Através de diários, memórias e cartas, o autor revela como as classes trabalhadoras moldaram as suas próprias tradições intelectuais, apropriaram-se de ideias de grandes obras literárias e filosóficas, e contribuíram para os debates culturais e políticos do seu tempo, evidenciando a universalidade da aspiração ao conhecimento. A única forma de não perder este sentido crítico para examinar tudo e reter apenas o que for verdade é estimular uma vida intelectual activa.
Porém, como recentemente ouvi num encontro de pais de crianças da catequese, que dinamizo com a minha esposa, a vida é um corre-corre e todos se queixam de ter pouco tempo para estar com quem mais precisa, quanto mais cuidar da vida intelectual, lendo mais. Onde encontrar o tempo, a paciência e espaço para ler?
Se as pessoas usassem o tempo que passam nas redes sociais e no WhatsApp para ler mais livros, a vida intelectual activa estaria assegurada. Por outro lado, já me disseram que não liam as notícias dos jornais principais, preferindo fontes menos credenciadas, por serem da opinião que os ditos jornais de renome controlam a informação que publicam. Não podemos confundir controlo com crítica. Os jornalistas sérios possuem sentido crítico e, quando erram, deveriam ser suficientemente humildes para se corrigirem. Mas também nós podemos exercer o sentido crítico quando lemos alguma coisa num jornal.
Por fim, o diálogo em comunidade com os outros, não por mensagem ou troca de comentários, é um forte estímulo a uma vida intelectual activa, confrontado aquilo que pensamos com o que pensam os outros. Estas comunidades podem ser grupos de leitura, oração, acção caritativa, ou uma simples paróquia.
Assim como Sun Tzu afirmou que a suprema arte da guerra é vencer sem lutar, a melhor defesa contra o Ministério da Verdade emergente, alimentado pela crescente desinformação e pela ausência de formas de verificar a verdade, será cultivar uma vida intelectual activa que desenvolva um sentido crítico arguto, permitindo-nos identificar, questionar e resistir às manipulações da verdade antes mesmo de sermos capturados por elas.
Miguel Panão é professor na Universidade de Coimbra, autor do livro “Tempo 3.0 – Uma visão revolucionária da experiência mais transformativa do mundo” (Bertrand, Wook). Para acompanhar o que escreve pode subscrever a Newsletter Escritos em https://bit.ly/NewsletterEscritos_MiguelPanao









