O perigo dos ressentimentos

| 15 Mar 2024

Ressentimento

O Peso de Ressentimento. Fonte: psychologytoday.com/Thinkstock

 

Estávamos no final dos anos 60 do século passado quando o 25 Abril era ainda um sonho distante. Carlos fugiu para França por se negar a ir à tropa e por alguns problemas com a PIDE, a polícia política do regime ditatorial. Fez de Paris o seu refúgio de forçada solidão impedido de visitar a família e amigos em Portugal. Carlos era cuidadoso, desconfiado e evitava criar rotinas visíveis. Esquivava-se a frequentar ajuntamentos de compatriotas e só depois do 25 de Abril abriu a porta de casa a alguns (poucos) amigos. Na empresa onde trabalhava, teve problemas com alguns colegas norte-africanos que olhavam para ele com desconfiança apenas por ser português. Essa desconfiança dos seus colegas, seus iguais, incomodava-o e não entendia as razões. Decidiu enfrentar a situação e perguntar-lhes o porquê. Obteve a resposta que, sem o saber, o deixou ferido obrigando-o a expor-se. Sendo português era fascista, colonialista e apoiante da ditadura. Foi então que Carlos decidiu contar-lhes as razões pelas quais estava ali. Viu-se obrigado e expor-se porque os outros o julgaram antes de lhe perguntarem.

Quando li no 7MARGENS o episódio do que acontecera a Esther Mucznik, veio-me à memória a história do Carlos e como nos conflitos, ao tomarmos partido por um dos lados, facilmente incorremos no erro de tomarmos a parte pelo todo e acusarmos o povo da outra parte, esquecendo que também ele é vítima de quem decide e de quem se serve do poder. Inadvertidamente ignoramos que todos os povos têm a sua resistência e também conivências. Facilmente julgamos o outro sem nos perguntarmos sobre a sua história. E quantas vezes a sua história não é semelhante à nossa!? Sem nos darmos conta atribuímos a outros o selo do mal, mesmo que sejam vítimas do mesmo destino. Existe cada vez mais um ressentimento contra o que é diferente e não encaixa na nossa história ou na visão que temos da realidade (ver 7MARGENS).

Volvidos 50 anos sobre o 25 de Abril vemo-nos confrontados, pela primeira vez, com uma maioria de direita e extrema-direita. Os partidos ditos do centro – PS e PSD – têm vindo a perder protagonismo. Que forma estranha de comemorar os 50 anos do 25 de Abril, comentou a minha filha. Surpresa? Só para quem anda distraído, porque por toda a Europa (e não só) os factos contradizem as nossas veleidades de uma vã esperança. Apesar do muito que conseguimos construir nestes 50 anos de democracia, infelizmente para nós, Portugal tem outras fragilidades. Ao contrário de outros países com os quais gostamos de nos comparar, assentamos o nosso desenvolvimento na aparência de um novo-riquismo possibilitado pelos fundos europeus, descuidando ou destruindo ativos que poderiam tornar o nosso futuro um pouco mais sustentável. Mas a realidade é o que é e não o que desejaríamos que fosse, assim como o futuro será o que formos capazes de construir coletivamente e não o desejo de um qualquer protagonista.

Os grupos desfavorecidos, arredados das decisões, sem voz, ou se resignam ou encontram formas de afirmarem a sua contestação. E o voto é uma delas, talvez a única. A solução, concretizada através do voto, é o ressentimento contra quem lhes prometeu melhorias e que foi incapaz de cumprir. Ou então orientam esse seu ressentimento contra grupos tidos como “inferiores” (imigrantes e ciganos por exemplo) por lhes roubarem o espaço que pensam ser o seu. Não se trata apenas de uma zanga circunstancial, temporária, de protesto, mas de um sentimento mais profundo que nega o presente e se refugia no conforto de um passado, o qual empresta algum sentido à sua vida. E os populistas sabem explorar até à exaustão esse ressentimento. Daí que a adesão a movimentos populistas e radicais seja bem mais complexa e duradoura do que nos pretendem fazer crer.

O mundo, especialmente a Europa, parece virado de pernas para o ar. Muito diferente do mundo pré-globalização. As alterações climáticas e a urgência de atalharmos caminho com todas as consequências que daí derivam; as migrações e o confronto entre a humanidade e a necessidade demográfica com o discurso xenófobo dos movimentos populistas (ver 7MARGENS); o conflito israelo-palestino e o confronto entre uma culpa histórica da Europa (proteção a Israel) e a criação de condições para a afirmação de um Estado palestiniano; a guerra da Ucrânia e o confronto entre uma perspetiva democrática e uma visão imperialista, expansionista e autoritária; a previsível alteração na presidência dos EUA e as consequências daí decorrentes para o mundo (ONU, NATO e reconfiguração de alianças) e sobretudo para a Europa, nomeadamente no que toca à defesa; a Inteligência artificial e o confronto entre as transformações dela decorrentes e a organização das sociedades, sem esquecermos a guerra cibernética entre países, pouco visível aos olhos comuns, mas que pode causar danos irreversíveis em estruturas fundamentais e expor de forma cruel as fragilidades deste nosso tempo.

É neste mundo em convulsão, terreno fértil ao desenvolvimento de soluções pouco condizentes com a realidade, que os governos se veem obrigados a resolverem problemas internos, alguns dos quais definidores do futuro. Atender aos anseios imediatos das populações mais desprotegidas e também aos grupos mais reivindicativos parece o mais óbvio. Mas os tempos têm outras exigências caso contrário arriscamo-nos a perder definitivamente o comboio do futuro e a desbaratarmos o que foram as conquistas do pós-guerra ou, em Portugal, das conquistas de Abril.

Os ressentimentos que se vão disseminando na sociedade representam um grande risco pela memória recalcada que exibem e por nos tornarem indisponíveis para acolhermos a novidade.

O muito que nos une parece incomodar-nos e assustar-nos mais do que aquilo que nos separa. E isso é um problema.

 

Guerra e Paz: angústias e compromissos

Um ensaio

Guerra e Paz: angústias e compromissos novidade

Este é um escrito de um cristão angustiado e desorientado, e também com medo, porque acredita que uma guerra devastadora na Europa é de alta probabilidade. Quando se chega a este ponto, é porque a esperança é já pequena. Manda a consciência tentar fazer o possível por evitar a guerra e dar uma oportunidade à paz. — ensaio de Nuno Caiado

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