O pesadelo da comunicação social em tempos de adversidade

| 7 Abr 20

Este é um artigo condenado à nascença. Hoje em dia, fazer críticas à comunicação social ou aos jornalistas é um risco que só os “Trump”, nas suas lastimáveis contradições e populismo alcançado, ousam fazer.

Hesitei algum tempo em escrever este texto, não pelo seu conteúdo ou propósito, mas por se tornar mais um entre os artigos e opiniões sobre a pandemia que vivemos. Porém, encontrei nele motivação na medida em que será potencialmente lido por aqueles que atentamente seguem a evolução da covid-19. É para esses que escrevo.

Sou médico e estou integrado atualmente numa equipa de reforço que trabalha a tempo inteiro no serviço de urgência. Não irei falar de como é o meu trabalho diário, dos desafios clínicos e estruturais que a novidade da situação oferece ou dos doentes que, entretanto, perdi. É o meu trabalho, e se tiver algum sentido partilhá-lo, um dia, com o público em geral poderei fazê-lo. Mas só depois de toda esta situação passar.

A pandemia é uma questão que nos diz respeito a todos, pelo modo como atinge a sociedade por inteiro. Contudo, embora a narrativa do meu dia-a-dia possa dar títulos atrativos, quando lida por quem não está acostumado à vivência hospitalar, torna-se, com naturalidade, pavorosa.

É certo que os nossos hospitais não vivem dias habituais mas, de um momento para o outro, a imprensa tornou-se monotemática. Como todos sabemos, por exemplo, um dos exercícios preferidos do momento é contabilizar diariamente as pessoas que morrem por causa desta doença).

Não é de agora que todos os dias morrem pessoas. E não o digo com indiferença ou insensibilidade. Digo-o como alguém que lida com a morte na sua rotina. Porém, para a maioria de nós, a morte é algo muito mais esporádico, que acontece entre os círculos das nossas afinidades ou entre os famosos que são noticiados. É normal – e saudável – não estarmos habituados a pensar nas mortes que hora a hora sucedem.

Preocupante, contudo, são os meios de comunicação que ignoram as nefastas consequências daquilo que consideram o seu “bom trabalho”.

Há um pânico generalizado e eu, no meu testemunho profissional, comprovo-o com a descida abrupta de consultas às urgências por motivos não respiratórios. As outras doenças não deixaram de existir, mas foram as pessoas que, com medo, deixaram de consultar.

No último Natal, recebi como prenda a assinatura digital de um dos maiores jornais portugueses – que não cito, pois este texto não se refere a um em particular mas, infelizmente, à grande maioria dos meios de comunicação com alcance nacional. E é, para mim, aterradora a forma como o jornalismo profissional se tem comportado nos últimos tempos. Este desapontamento não o vejo como uma estreia; mas o facto de as notícias se centrarem em grande parte na minha área de trabalho, e pela enorme responsabilidade que os tempos atuais exigem, tenho ficado estupefacto diante da falta de profissionalismo e, sobretudo pela mercantilização da informação como prioridade nestes órgãos de poder.

A sua “informação credível”, que motivou estes dias um apelo em conjunto contra a pirataria de artigos, não é, em geral, falsa; mas é altamente perigosa quando colocada de forma tão exaustiva e dirigida para o público em geral.

Os grandes títulos e notícias criaram uma espécie de atividade quotidiana nas nossas conversas. Como se se tratasse de um campeonato desportivo, todos os dias somos informados dos números de casos confirmados em cada país. “Este tem tantos, aqui cresce, ali cresceu menos, agora aquele está exponencial, …”.

Como dizia um antigo professor universitário, citando um outro de quem os tempos não guardaram memória: “A estatística é a ciência mais inexata das ciências exatas.”

Muitos dos números que nos atiram diariamente são falaciosos. Têm importância para quem está habituado a interpretá-los, não para a generalidade da população [1]. Os países não são equipas de futebol que vão somando pontos com o número de casos positivos e se possam comparar entre si. Quanto às mortes, que mortes? Quantas sucederão como efeitos colaterais e que não são nesta altura sequer mensuráveis? As razões serão diferentes; mas, por exemplo, os Centros para o Controlo e Prevenção de Doenças estimam que, durante o surto de Ébola em 2013-16 morreram quase tantas pessoas vítimas do vírus como aquelas que perderam a vida devido à malária, tuberculose e VIH, e que em condições normais não morreriam [2].

A quantidade de notícias (desnecessárias) à volta deste coronavírus a que somos sujeitos promove, naturalmente, um medo generalizado. Fico mesmo a pensar se os apelos dos jornais e televisões contra o pânico são uma espécie de sarcasmo refinado ou o produto de uma completa negligência profissional. Essas expressões de encorajamento à calma que sempre completam o final das notícias lembram-me os anúncios das marcas de cerveja que juntam os amigos em gargalhadas ao pôr do sol na praia, a rapariga com decote e uma música estimulante, e no final dizem: “Beba com moderação!”.

Pois o meu apelo aos órgãos de comunicação social é que adotem as medidas do tabaco – hoje proibido de fazer publicidade – e não façam promoção, neste caso, do terror.

Não precisamos da poesia dos pivôs da televisão com discursos comoventes. Embora muitos deles tenham livros no topo de vendas, não é pela sua capacidade literária que os seus microfones são amplificados para todo o país em horário nobre. O lirismo só aumenta o dramatismo e não é disso que necessitamos.

Precisamos de uma comunicação social que saiba racionalmente cobrir a peculiaridade do momento, que sintetize e reforce os comportamentos individuais a adotar, que dê voz a especialistas e a decisores, e que diversifique os temas, porque nem a vida nem outras agruras deixaram de existir. Parte do nosso pânico é também fruto do desinteresse que demonstramos perante os problemas em lugares distantes à esfera de influência onde nos encontramos.

Se tem um problema de saúde sério agudo, não deixe para amanhã e venha à urgência! Poderá ser para si um motivo tão ou mais sério que a covid-19. E, entretanto, não promova a pirataria dos artigos dos jornais: antes reduza o tempo dedicado às notícias e escolha com critério o que ler ou ouvir.

 

Tomás Sopas Bandeira é médico, vive e trabalha em Lausana (Suíça) e é autor de Zahra. 

 

Notas

[1] A título de exemplo, o número de casos positivos de covid-19 num determinado dia está dependente do número de pessoas que são testadas (e que variam de país para país, com critérios diferentes), do tempo (às vezes dias) que o resultado leva a sair, da fiabilidade da notificação (de cada país) e da estandardização que é necessária em função da população total (nº de casos/milhão de habitante).

[2] https://www.cdc.gov/vhf/ebola/history/2014-2016-outbreak/cost-of-ebola.html?CDC_AA_refVal=https%3A%2F%2Fwww.cdc.gov%2Fvhf%2Febola%2Foutbreaks%2F2014-west-africa%2Fcost-of-ebola.html

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