AGENDA

SOBRE NÓS

ASSINAR

APOIAR

O poder clerical e os abusos

| 22/03/2023

Perdão

“Pedir perdão é um regresso ao Evangelho e reconstruir a Igreja baseada na herança que Jesus nos ensinou.” Foto © James Chan / Pixabay

 

Muito se tem escrito e dito sobre os abusos sexuais do clero, neste caso pertencente à Igreja Católica Romana, e se tem pedido aos bispos que suspendam os prevaricadores. Não foram todos os membros portugueses do episcopado que compreenderam a configuração de crime e a necessidade de afastar provisoriamente os membros do clero e os seus encobridores; alguns bispos têm mesmo a tentação de recuar alguns séculos no exercício dos poderes clericais. Os pais autorizam os seus filhos, nessas dioceses, a confessarem-se e sentirem-se seguros perante a enormidade dos factos que têm sido declarados? E já agora uma criança de 8 e mesmo 14 anos vai confessar o quê? É mesmo querer incutir já em criança o dever de se submeterem aos poderes da estrutura eclesial, que agora sai abalada pelos hediondos crimes sexuais cometidos, mas não vencida, pois o medo dos “purgatórios” e dos “infernos” permanecem vivos na esperança da submissão. Falamos, e bem!, nos crimes de índole sexual cometidos pelo clero, mas existem outros abusos, criminosos, nos planos sociais, culturais, sociológicos, éticos e morais e de comando, uma obediência estrita aos poderes eclesiais. Sobre esses abusos de poder ainda não começamos a falar, teríamos uma percentagem enorme de bispos, padres e diáconos, ufanos das “obediências” que devem ter todos os fiéis. É certo que os crimes sexuais cometidos sobre crianças são “pecados que brada aos céus” e punidos pela sociedade; não valerá a pena dizer que no resto da sociedade também existem – o que é bem verdade –, porque a educação e o ensino recebidos são os da Igreja; ou não será verdade que 80% dos portugueses são católicos e cristãos?

É imperioso assumir os pecados dos crimes de abusos de crianças – como também dos outros abusos sexuais com pessoas de maior idade; é com clareza que se devem suspender todos os bispos e padres e agentes de pastoral envolvidos, pagar indemnizações e  todos os tratamentos a “abusados”, colocar os “abusadores” fora do alcance de crianças e submetendo-os aos tratamentos necessários e que os poderes civis intervenham tempestivamente e os condenem; mas o perdão que a Igreja pede às vitimas deve ser ativo e pesquisar as causas que levam os padres e bispos a cometerem tais crimes, incluindo o de encobrimento; o rigor da pesquisa das causas deve talvez ser o melhor perdão que as hierarquias da Igreja podem viver e pedir.

E dito algumas. A revisão completa do regime dos seminários e as suas matérias, assim como a eliminação dos seminários menores; os bispos e os padres e outros agentes não podem ser obrigados ao celibato, todo o homem e mulher tem direito à sua sexualidade; uma revisão profunda do que é a “virgindade” e da moral sexual imposta pela Igreja Católica; a ordenação de mulheres, cuja necessidade é a assunção da sua dignidade; o casamento dos homossexuais, incluindo membros da hierarquia; a perda do poder da hierarquia colocando-a nas mãos dos leigos e leigas, em todas as decisões, e isso é que é sinodal. E muito mais: é necessário o reconhecimento profundo duma mudança drástica na Igreja Católica, sem a qual não haverá qualquer perdão.

Pedir perdão é um regresso ao Evangelho e reconstruir a Igreja baseada na herança que Jesus nos ensinou. Não parece, contudo, que a hierarquia da Igreja Católica esteja disposta a isso. Mas o Espírito Santo não deixa de atuar, mesmo quando não fala pela boca da hierarquia.

 

Joaquim Armindo é diácono católico da diocese do Porto, doutorado em Ecologia e Saúde Ambiental.

 

Últimas Notícias

Últimas Notícias

“Um conselho pastoral em cada paróquia”, o desafio está lançado

Diocese de Portalegre – Castelo Branco

“Um conselho pastoral em cada paróquia”, o desafio está lançado novidade

No fim do processo, “nem um centímetro” da Diocese de Portalegre – Castelo Branco deve “ficar sem ser coberto por um conselho pastoral paroquial” (ou interparoquial se necessário e conveniente). Foi o desafio do bispo Pedro Fernandes à diocese de que assumiu a tarefa de pastor ainda não há um ano. Esta é talvez a melhor síntese do que foi a “Assembleia Diocesana”, no dia 6 de outubro, em Ponte de Sor, a que várias centenas de pessoas responderam participando de um modo ativo.

Guerras e mudanças de regime

[Entre Margens]

Guerras e mudanças de regime novidade

Já muitos se terão esquecido, ao acompanhar a trágica e intrincada evolução da guerra entre Estados Unidos e Israel e o Irão, que, no seu início, essa guerra foi apresentada como tendo por objetivo primacial o de derrubar um regime ditatorial e opressor, que há pouco tempo havia reprimido de forma violenta e mortífera a contestação de largas canadas da população sedentas de uma liberdade que essa guerra lhes haveria de proporcionar. [Texto de Pedro Vaz Patto].

7MARGENS é um jornal digital
de Religiões, Espiritualidades e Culturas

Propriedade de Associação Porta 18 [ACSFL]
R. da Páscoa, 12 – R/C Dtº – 1250-179 Lisboa | NIPC: 514 876 905
Redação Lisboa: Largo da Luz, 11, 1600-764 LISBOA
IBAN: PT50 0035 0675 0004 6941 7308 1 (CGD)

O 7MARGENS aceita e incentiva a colaboração escrita, em vídeo ou audio dos seus leitores.
Reserva-se o direito de os difundir ou não e aconselha que os textos não excedam os 4.000 caracteres.