
Uma imagem de Drive My Car: “Procurar o sentido da existência para lá da vida terrestre”. Foto: Direitos reservados.
“‘Este filme, cuja beleza formal reflete a beleza dos sentimentos que exprime, tocou-nos, porque oferece uma reflexão poética sobre o remorso e a dificuldade em perdoar-se’, explica a crítica Mariangeles Almacellas (La Croix), membro do júri (ecuménico), acrescentando que ‘as duas personagens (ao longo do filme) aprendem a procurar o sentido da existência para lá da vida terrestre’.”
É uma boa maneira de entrar nestas viagens que o filme Drive My Car (que também ganhou um Óscar de melhor filme estrangeiro) nos faz acompanhar ao longo de quase três horas que valem cada minuto. Pela beleza formal, certamente, mas ainda mais pela beleza serena dos silêncios, das palavras, dos gestos, da ritualidade, dos corações que se vão abrindo.
Adaptado de uma novela de Haruki Murakami e realizado pelo japonês Ryusuke Hamaguchi, Drive My Car, depois de uma espécie de prólogo inicial, centrado no casal formado por Yusuke Kafuku, actor e encenador carismático, e pela sua mulher, Oto – argumentista de televisão com um processo de criação muito especial –, vai centrar-se num outro par, formado agora pelo mesmo Yusuke, e pela sua motorista, uma mulher discreta e enigmática, Misaki. Takatsuki, um jovem actor que volta a aparecer no casting para o Tio Vânia também terá um papel importante.
Depois da morte inesperada e brutal da sua mulher, Yusuke vai ter de reconstruir-se, mas isso só acontecerá se for capaz de olhar-se a si mesmo, sem fugir. Como sabemos, para além de ser difícil, é também um processo longo, e não se faz sozinho. Yusuke vai conseguir encontrar a sua redenção através das palavras do Tio Vânia de Tchekhov – a peça que ele foi convidado a encenar num festival em Hiroshima (e não será um acaso esta referência) – e nas muitas viagens de ida e vinda, no seu Saab 900 vermelho (que ele faz questão de usar), entre o lugar onde está alojado e a sala de ensaios.
É aqui que entra Misaki, primeiro pelo seu silêncio e irrepreensível cumprimento do dever, depois, pouco a pouco, pelas (poucas) palavras, até à viagem final. Também ela carrega o peso de uma infância dolorosa e marcada pela morte. No espaço fechado do carro, nas muitas idas e vindas, uma subtil e discreta amizade vai crescendo entre eles. É isso que vai permitir a ambos confrontar-se com o seu passado, para “continuar a viver”, como diz Sónia a Vânia, no final da peça.
É, portanto, nessa viagem tanto material quanto interior que nos faz entrar Ryusuke, sem qualquer aborrecimento, apesar da duração. Aquelas duas personagens aparentemente frias, mas que partilham uma afinidade pela solidão e igualmente feridas pelo passado, vão ganhando confiança para se abrirem sobre a sua história pessoal. É nesse jogo que aparece o fio condutor da narrativa: o poder curador das palavras e a sua capacidade para revelar as pessoas. Todas as palavras, em todas as linguagens, também as ditas pelos sinais, na linguagem gestual.
Sendo um filme sobre o luto e a culpa, parecendo mesmo durante muito tempo andar à roda do passado, cada um fechado na sua tristeza, sem sair do lugar (como é sugerido numa outra peça de teatro À Espera de Godot, no início), será a grande viagem à terra de Mysaki e ao seu passado que vai mostrar-nos como ambos descobrem que é possível seguir em frente.
Kafuku, dando a mão a Misaki para subir uma escarpa na neve (bem como a cena final do Tio Vânia), são a imagem da redenção e do futuro que nascem do amor e da verdade.
Drive My Car, de Ryûsuke Hamaguchi
Título original: Doraibu mai kâ
Com Hidetoshi Nishijima, Tôko Miura, Reika Kirishima
Drama, M/12; JAP, 2021, Cores, 179 min.
Manuel Mendes é padre católico e pároco de Esmoriz (Ovar). Este texto foi inicialmente publicado no número de Maio 2022 da revista Mensageiro de Santo António.










