1.
No debate sobre as múltiplas razões que levaram ao recente desastre eleitoral em Portugal, pode acrescentar-se um outro elemento, que considero relevante: o poder do dinheiro. Hoje, com o agravamento das desigualdades, muitas grandes fortunas servem basicamente a interesses pessoais ou de grupos e não têm qualquer escrúpulo em esmagar pessoas e promover o ódio contra quem é diferente. Muitas vezes, usando as redes sociais, grande fonte de mentira e manipulação apesar dos aspectos positivos que ainda têm. Vemos isso com o actual Presidente dos Estados Unidos, que usa o cargo para fazer negócios pessoais, como se percebeu no seu recente périplo pelo Médio Oriente: contou mais a oferta de um avião de luxo trocado por negócios multimilionários, onde não faltou a venda de armas (ver texto no Público, ligação exclusiva para assinantes); um negócio obsceno, se pensarmos que o aparelho é oferecido por um governo que tem 400 milhões de dólares para mostrar a sua subserviência, mas não é capaz de pressionar o seu homeageado para poder levar comida e água às crianças, mulheres e homens da Faixa de Gaza.
Em Portugal, o factor do dinheiro não é tão notório no crescimento da extrema-direita, mas têm vindo a público notícias que apontam para dinheiros duvidosos ou não assumidos, por parte de alguns grandes empresários, destinados a essas forças políticas (como estes publicados na Visão e no Público)
Sempre foi assim? Sim: sempre houve muitos ricos para os quais o resto das pessoas pouco ou nada contavam. A diferença é o grau das desigualdades e a vontade de vários desses magnatas em quererem dominar o mundo inteiro. Mas, como se lê no Evangelho segundo Marcos (8, 36), “que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se perder a sua vida?”
2.

“O dinheiro tudo mexe e tudo espezinha.” Foto © Zenstock
No país, e sem querer generalizar, é líquido que as eleições de dia 18 mostraram a desvalorização da política, do diálogo e da aceitação da diferença por parte de muitos eleitores e a secundarização absoluta da ética por parte de alguns políticos, que deveriam ser os primeiros a dar o exemplo. Também mostraram o grau zero a que chega algum jornalismo, sobretudo nas televisões, tornado propagador da mentira, da falsidade e da preocupação em mostrar traseiras de ambulâncias.
O que se passa em vários países e em vários âmbitos, no entanto, mostra a que ponto o dinheiro tudo mexe e tudo espezinha: muitos dos que têm o dinheiro (e o poder) movimentam guerras, impedem a chegada de ajuda humanitária a diversos pontos do globo onde ela é necessária, criam obstáculos à luta contra o narcotráfico, potenciam o comércio de armamento e o tráfico de pessoas, e promovem a exploração sexual de crianças, as escravaturas contemporâneas, a manipulação e a corrupção…
Quem tem o dinheiro, influencia o comportamento de responsáveis políticos, sociais (é ver o que se passa no mundo do futebol, por exemplo) e, por vezes, também religiosos. Foi tornada pública pelo Sunday Times uma recepção organizada com magnatas católicos americanos em Roma, antes do recente conclave que elegeu o Papa Leão, conforme o 7MARGENS noticiou.
Eles esperavam, como contava em detalhe o jornal inglês, a eleição do “papa certo” para poderem “ajudar” com mil milhões de dólares para resolver a crise financeira do Vaticano (ligação só para assinantes).
Obviamente, a escolha do conclave terá decepcionado profundamente essas pessoas. Seria, aliás, impensável, que um papa aceitasse entorses à sua missão e à doutrina da Igreja em nome de um qualquer saneamento de contas do Vaticano ou de outras obscuras razões. Mas a história do que aconteceu em Roma confirma que, hoje, muitos querem controlar, com o seu dinheiro, até o poder religioso, porventura um dos poucos que lhes tem fugido. E sabe-se que, nos âmbitos locais, regionais ou nacionais, os poderes religiosos acabam por vezes por ser coniventes ou muito tolerantes com quem tem dinheiro e poder.
3.

Pessoas retornam aos bairros devastados no norte de Gaza. Foto de arquivo © Unicef/Mohammed Nateel.
É também o poder do dinheiro, aliado às armas, que mantém e agrava a tragédia de Gaza. O poder de um país que tem um dos mais equipados exércitos do mundo tem arrasado sistematicamente, pelo poder das bombas e pela fome, uma população exausta. O massacre do 7 de Outubro de 2023, perpetrado pelo Hamas, já deixou de ser argumento há muito tempo, ainda mais quando os familiares dos reféns que ainda estão em Gaza se manifestam contra uma guerra cujo objectivo real nunca foi devolvê-los a casa; e ainda mais quando corajosos palestinianos de Gaza, aprisionados entre a fome, a guerra e os líderes do Hamas, exercem “o seu direito de protesto pacífico”, contra as “ameaças, intimidação e assédio, incluindo interrogatórios e espancamentos por forças de segurança controladas pelo Hamas”, como referiu a Amnistia Internacional na quarta-feira, 28.
As sucessivas intervenções do Papa Leão já mostraram que ele pretende contribuir para a busca de soluções para as guerras que assolam o mundo. No caso de Gaza, a voz de Leão XIV terá menos influência entre as partes em presença, mas é importante que os crentes (cristãos, mas também judeus e muçulmanos) se mobilizem na pressão sobre os nossos governos (português e europeus), no sentido de parar imediatamente com o morticínio e iniciar um processo de paz efectivo que permita colocar um ponto final nesta guerra de décadas. A recente intervenção da Comissão Justiça e Paz de Espanha, noticiada pelo 7MARGENS, pedia o fim do “silêncio cúmplice” com o que se passa em Gaza.
Mas é preciso mais, muito mais, e é pena que a Conferência Episcopal Portuguesa não tenha dado uma única resposta ao repto lançado há quase um ano no 7MARGENS por Nuno Caiado, no sentido de promover um conjunto de iniciativas pela paz, que fossem mobilizadoras e construtoras de uma consciência pacífica e não-violenta. Nada disso iria mudar as situações da guerra no terreno – ou talvez sim –, mas marcaria uma posição e formaria consciências.
Neste jornal, apesar da sua fragilidade, não descansamos. E, no que estiver ao seu alcance, o 7MARGENS voltará ao assunto. Mesmo lutando contra o poder do dinheiro e as máquinas do ódio, a busca da paz tudo merece.










