Hoje deparei-me com esta extraordinária arte centenária japonesa, de recuperação de peças de cerâmica e porcelana através de laca ou cola, misturadas com pó de ouro, prata ou platina. A origem desta técnica remonta ao século XV, quando um alto titular e político, Ashikaga Yoshimasa, enviou à China uma peça de cerâmica para restauro que era usada nas cerimónias de chá. Quando ela retornou, Yoshimasa não apreciou a técnica chinesa que usava grampos metálicos para unir as peças partidas, e pediu aos artesãos japoneses que desenvolvessem outra maneira de a restaurar. Ao invés de tentar disfarçar as rachas da peça quebrada, os artesãos usaram laca japonesa misturada com ouro para colar os pedaços partidos e tornar evidentes as partes que haviam sido restauradas.
A teologia sempre se confrontou com várias visões acerca de como Deus vê e reage às nossas imperfeições e falhas. A visão de justiça punitiva, que prevalece principalmente nos círculos tradicionalmente mais conservadores do cristianismo, coloca a ênfase na soberania e justiça divinas absolutas. Calvino, por exemplo, defende que, sendo Deus perfeitamente justo e incorruptível, Ele faz cair a sua ira, enquanto expressão da sua justiça, sobre o pecado e o pecador, condenando-o implacavelmente à danação eterna. Um dos sermões mais paradigmáticos desse tipo de visão é o proferido por Jonathan Edwards, cujo título “Pecadores nas mãos de um Deus irado”, só por si mesmo, expressa uma antropologia demasiado pessimista e negativa, e uma imagem terrível e vingativa de Deus, o Qual abomina o pecador.

“Revejo-me totalmente nesse Deus que deseja amorosamente redimir e consertar com amor as nossas vidas, colando cada pedaço, ainda que imperfeito, com a Sua maravilhosa graça. Foto: Tigela verde-acinzentada do século XV ou XVI, reparada com a técnica Kintsugi. Museu de Arte de Columbia, Carolina do Sul (EUA).
Existe, no entanto, uma outra visão que concebe a justiça divina como sendo restaurativa, subscrita por muitos dos pais da Igreja, como Orígenes de Alexandria, Gregório de Nissa e Evágrio do Ponto. Estes defendiam que a justiça divina seria, em última análise, restauradora para toda a humanidade e criação. Esta teologia restaurativa fundava-se certamente numa antropologia cristocêntrica, segundo a qual a justiça de Deus seria mais um processo misericordioso de cura criativa, e não uma prontidão constante para punir e castigar, ao estilo legalista.
Penso na imperfeição de todo o universo, deste mundo, da vida criada, inclusive a nossa. Terá sido Leibniz que defendeu uma convergência entre o ser, o bem e a beleza na ordem da criação divina. Segundo o seu pensamento, o mal pode ser classificado em três modalidades: o físico, observado na dor e sofrimento corporais; o moral, decorrente das nossas más escolhas; o metafísico, que consiste nas nossas imperfeições e observada igualmente em toda a criação de Deus.
Não pretendendo aqui desenvolver um estudo profundo acerca destas problemáticas da teodiceia e da ponerologia (do grego poneros, o estudo do mal), podemos afirmar, grosso modo, que o relato das origens no Livro do Génesis está ele mesmo impregnado de linguagem poético-mítica, exprimindo os limites da linguagem e da compreensão do ser humano acerca de si mesmo e do universo.
Por vezes, acentuamos o carácter punitivo, quase vingativo, da justiça de Deus, esquecendo facilmente a Sua natureza misericordiosa e a Sua infinita graça. É com as nossas frágeis categorias humanas que interpretamos a justiça de Deus, incapazes de abarcar a Sua infinita transcendência, os Seus pensamentos. E se a Sua justiça for da mesma natureza daquela que encontramos muitas vezes descrita nos discursos e analogias dos profetas, como a de um oleiro que, amorosamente, quebra e refaz os seus vasos de barro? (Jeremias 18:1-6); ou a de um ourives que refina com cuidado o ouro num fogo purificador? (Malaquias 3:3). O profeta Isaías afirma mesmo que Deus jamais “esmagará a cana quebrada, nem apagará o pavio que fumega” (Isaías 42:3), mas que reacenderá com amor, as nossas vidas quebradas e imperfeitas.
Pessoalmente, revejo-me totalmente nesse Deus que deseja amorosamente redimir e consertar com amor as nossas vidas, colando cada pedaço, ainda que imperfeito, com a Sua maravilhosa graça. Deus, afinal, ama-nos incondicionalmente apesar das nossas imperfeições. Existe, afinal, aos olhos de Deus, beleza na imperfeição da Sua criação.
Doutorando em História e Cultura das Religiões pela FLUL – Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Investigador na Universidade Católica Portuguesa – Centro de Investigação em Teologia e Estudos da Religião. Email: vitor.rafael@edu.ulisboa.pt










