Padre e filósofo

O poeta viajante Hugo Mujica vem ao Porto

| 26 Abr 2022

Miguel García-Baró, José Rui Teixeira e Hugo Mujica, em 2015, no Centro Regional do Porto da Universidade Católica. Foto: Direitos reservados. 

Miguel García-Baró, José Rui Teixeira e Hugo Mujica, em 2015, no Centro Regional do Porto da Universidade Católica. Foto: Direitos reservados.

 

O poeta argentino Hugo Mujica, presbítero, filósofo e artista plástico vem a Portugal na próxima semana apresentar uma nova antologia da sua obra, com o título Tudo o que arde morre iluminando, numa edição bilingue da editora portuense Officium Lectionis, de José Rui Teixeira. 

O ponto alto da presença de Mujica no Porto será dia 2 de Maio, às 21h30, na Casa Comum (Reitoria da Universidade do Porto), onde conversará com o editor José Rui Teixeira e o escritor Valter Hugo Mãe (entrada livre). A tradução do livro é de Jorge Melícias. 

“O que procuro dizer, o que procuro pensar de forma poética ou poética, é que o acto criativo, nele e com ele, revivemos o acontecimento mais original e revelador que cada um de nós viveu: nascer, o instante sem sombra ou memória em que sem sermos nós próprios recebidos, o instante criativo que ao recebê-lo nos fez começar a ser”, afirmou o poeta em Julho de 2015, também no Porto, quando participou no Colóquio Internacional Poesia e Transcendência, organizado pela Cátedra de Sophia, no Centro Regional do Porto da UCP. 

Nascido em Buenos Aires, em 1942, Hugo Mujica estudou Belas Artes, Filosofia, Antropologia Filosófica e Teologia. Viveu em Nova Iorque na década de 1960, como artista plástico, antes de abraçar sete anos de silêncio na condição de monge trapista. Foi durante esse tempo que sentiu o apelo a começar a escrever poesia. 

“Sempre que escrevo – que é a minha forma de criar – descubro, ou talvez inauguro, algo de mim, de mim ou de todos, como se saber, compreender e mesmo agir não fosse a relação imediata que posso estabelecer com o meu ser ou com o meu nada; como se criar também me ensinou que: que criar é mais original do que saber, mais abismal do que compreender, mais definitivo do que agir”, afirmou também, na sua intervenção de 2015. 

“Cada acto criativo coloca-nos no que não há lugar: no nada de onde tudo chega, na escuta do que vem à procura de um nome que o nomeie no seu ser”, acrescentava Mujica. “Sem dúvida por esta mesma razão que, uma e outra vez, ao escrever estas páginas, dei por mim a equiparar criar a nascer, a continuar a criar a continuar a nascer.”

Com poesia traduzida, antologiada e publicada em quase vinte países, Hugo Mujica já tinha uma selecção dos seus poemas editada em 2015 em Portugal pela Cosmorama, com o título Margens.

“Quer um deus tenha criado o homem à sua própria imagem e semelhança, quer o homem tenha imaginado esse deus à sua própria semelhança, o que é certo é que quando os seres humanos começaram a dizer a si próprios o início do mundo em que se encontravam a viver, deram como atributo primordial a esse deus ser um criador, disseram, intuíram, que criar é o acto mais inicial que um humano ou um deus pode realizar, ou o acto em que um e outro são um e o mesmo acontecimento, uma e a mesma fecundidade”, afirmava no colóquio de 2015, no Porto. 

Monge trapista, viajante incansável

O tema do criar é o que dá título precisamente aos três volumes que reúnem parte significativa da sua obra: Del crear y lo creado, publicados na prestigiada Vaso Roto Ediciones. Sobre Mujica escreveu Ernesto Sabato que, quando aos 19 anos foi para os Estados Unidos, “a busca do sentido da vida já lhe era então imprescindível”. (Cuentos que Me Apasionaron, Seix Barral, Buenos Aires, 2011). Num dos poemas do livro que agora será apresentado, Mujica escreve: “Amanhece e/ calo;// calo todo o medo, calo qualquer/ presságio,// procuro uma alba virgem de mim,/ procuro o nascer da luz,/ não o seu iluminar-me.”

Nascido numa família proletária, Hugo começou a trabalhar aos 13 anos numa fábrica de vidro, por causa de um acidente que o pai sofrera e que o deixou cego. A sua ida para os Estados Unidos foi também para fugir ao serviço militar, envolvendo-se nesse país em vários movimentos artísticos alternativos e, depois, também no grupo Hare Krishna. Foi ainda nos EUA que entrou no mosteiro, passado depois para outro na Argentina e para um terceiro em França, onde acabou por deixar os trapistas. 

Dali foi ao Monte Athos, viajou por vários países da Europa, regressa à Argentina, onde acaba por ser ordenado presbítero. Com insaciável alma de eterno viajante, acaba no entanto, depois de vários anos a trabalhar numa paróquia de Buenos Aires, por se dedicar a tempo inteiro à escrita, participando também em encontros literários, fazendo conferências e seminários e retomando, desde 2006, a prática do yoga.

Na conferência de 2015, Mujica dizia ainda: “Sinto que na relação cara a cara, ou nudez a nudez, com o ser da existência, a criatividade é a relação mais decisiva, tão decisiva que não podemos dispor dela, tão decisiva que é gratuidade e dom”. E concluía: “Talvez, e finalmente, porque criar não é uma forma de nos compreendermos a nós próprios, é a forma mais radical de nos deixarmos criar.”

A vinda do poeta faz-se a convite da Cátedra de Sophia (da Universidade Católica Portuguesa – Porto) e da Casa Comum (Reitoria da Universidade do Porto), com o apoio do Instituto Cervantes.

A Officium Lectionis, que reeditou recentemente o , de António Nobre, celebra o seu primeiro aniversário de edição com a vinda ao Porto do poeta argentino. A editora tem publicado poesia e ensaios literários. Entre os autores já editados, estão Frei Agostinho da Cruz (um cancioneiro inédito do qual o 7MARGENS já falou), Teixeira de Pascoaes, José Duro, António Pedro, Maria Eulália de Macedo, José António Ramos Sucre, Rui Nunes, Miriam Reyes, Sandra Costa ou Luís Soares Barbosa – além do próprio editor e também poeta José Rui Teixeira. 

 

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