O politicamente incorrecto

| 12 Out 19 | Entre Margens, Últimas

Num debate em contexto universitário, precisamente em torno da questão do politicamente correcto, Ricardo Araújo Pereira afirmou que, embora fosse contra o “politicamente correcto”, não era a favor do “politicamente incorrecto”.

Estas suas palavras levam-me ao seguinte raciocínio: criticar o “politicamente correcto”, não significa concordar, secundarizar, ignorar ou parodiar aquilo que, efectivamente, é incorrecto, porque injusto – numa palavra, aquilo que é contra os direitos humanos.

Pode acontecer haver piadas ou anedotas que, em determinado contexto, são anódinas, mas noutros contextos, podem ser explosivas. Diria que, quando se trata do racismo (uma questão que continua por debater seriamente em Portugal, por causa do mito do “não-racismo” português) ou do sexismo (porque ainda há juízes cujos acórdãos aludem ao Deuteronómio para considerar o adultério um crime que, na altura em que o livro foi escrito, levava ao apedrejamento das mulheres e que constitui “uma vergonha para o marido”), por exemplo, é tremendamente simplista confundir a expressão discursiva contra os mesmos com o facto de eles existirem realmente.

Li o texto “A desvairada parvoíce do politicamente correcto”, de José Brissos-Lino, publicado no 7MARGENS, que me levou a reflectir nesta questão.

É possível que “o ridículo mate”, mas a violência doméstica mata muito mais, a exclusão dos “diferentes” afoga de facto e os Torquemadas não são quem o denuncia, ainda que a sua linguagem possa ser excessiva: os Torquemadas são os que desvalorizam a violência contra as mulheres, as crianças e os idosos, os que invocam o cristianismo para fazer uma selecção de pessoas “aceitáveis” na Europa ou não, aqueles que invocam, até, “a civilização cristã” para recusar a presença daqueles que vêm das regiões onde o cristianismo primitivo floresceu.

Pode ser que o facto de haver uma espécie de ideia subliminar de que Portugal é um cantinho onde nada de mal acontece nos cegue ou nos leve a ignorar o cerne dos debates mais relevantes na Europa actual, nos Estados Unidos da América ou no Brasil: é que uma das “armas” da extrema-direita, em diversos países europeus e não só, é precisamente a contestação do chamado discurso “politicamente correcto”, que está a levar a discursos, mas também a práticas “politicamente incorrectas”, isto é, de desumanização do outro.

A forma de reagir ao racismo pode, por vezes, ser mais “desastrada”, mas ele existe. Os modos de falar do sexismo podem ser, por vezes, menos felizes, mas, se queremos um mundo que não descambe numa distopia para os nossos filhos, temos de reconhecer que o racismo existe, o sexismo existe – não foram inventados por quem deles fala. E as reacções ao “politicamente correcto” estão a vir, precisamente, de quem considera que estes temas devem ser silenciados, de quem julga necessário um discurso e uma prática política “fora do sistema do politicamente correcto”: é esta estratégia de desactivação da gravidade dos temas em causa, juntamente com uma alienação preocupante face à realidade que contribui para levar ao poder homens como Trump ou Bolsonaro.

Estes não são “anti-sistema”, pelo contrário, são produto do sistema – o tal de que não se pode falar, porque corre-se o risco de se ser considerado como estando a fazer o discurso “politicamente correcto”. Ora, até ver (e esperemos que assim continue a ser), os direitos humanos ainda não são considerados parte do “politicamente correcto”. Mas já estivemos mais longe de isto acontecer: basta olhar para fora do mito do “jardim à beira-mar plantado” e seguir o que se passa pelo mundo fora. Em resumo, mais grave do que a existência de discursos “politicamente correctos” é a distração relativamente aos discursos e práticas que são, de facto, politicamente incorrectas.

 

Teresa Toldy é professora de Ética na Universidade Fernando Pessoa e co-coordenadora do Policredos – Observatório da Religião no Espaço Público, do Centro de Estudos Sociais sa Universidade de Coimbra

Artigos relacionados

Editorial 7M – Um dia feliz

Editorial 7M – Um dia feliz

Hoje é dia de alegria para os católicos e para todos os homens e mulheres de boa vontade. Em São Pedro, um homem que encarna e simboliza boa parte do programa de Francisco para a Igreja Católica recebe as insígnias cardinalícias. É português, mas essa é apenas uma condição que explica a nossa amizade e não é a fonte principal da alegria que marca o dia de hoje. José Tolentino Mendonça é feito cardeal por ser poeta, homem de acolhimento e diálogo. E, claro, por ser crente.

Apoie o 7 Margens

Breves

Nobel da Economia distingue estudos sobre alívio da pobreza novidade

O chamado “Nobel” da Economia, ou Prémio Banco da Suécia de Ciências Económicas em Memória de Alfred Nobel, foi atribuído esta segunda-feira, 14 de outubro, pela Real Academia Sueca das Ciências aos economistas Abijit Banerjee, Esther Duflo e Michael Kremer, graças aos seus métodos experimentais de forma a aliviar a pobreza.

Inscreva-se aqui
e receba as nossas notícias

Boas notícias

É notícia

Entre margens

Erradicar a pobreza… com Manuela Silva

«Nós queremos erradicar a pobreza», afirmou a profª. Manuela Silva, muito firmemente. Como se poderá concretizar esta «erradicação», à luz do pensamento de Manuela Silva? Talvez seja razoável considerar segmentos de ação…

Cultura e artes

“Aquele que vive – uma releitura do Evangelho”, de Juan Masiá

Esta jovem mulher iraniana, frente ao Tribunal que a ia julgar, deu, autoimolando-se, a sua própria vida, pelas mulheres submetidas ao poder político-religioso. Mas não só pelas mulheres do seu país. Pelas mulheres de todo o planeta, vítimas da opressão, de maus tratos, de assassinatos, de escravatura sexual. Era, também, assim, há 2000 anos, no tempo de Jesus. Ele, através da sua mensagem do Reino, libertou-as da opressão e fez delas discípulas. Activas e participantes na Boa Nova do Reino de Deus.

A beleza num livro de aforismos de Tolentino Mendonça

Um novo livro do novo cardeal português foi ontem posto à venda. Uma Beleza Que nos Pertence é uma colecção de aforismos e citações, retirados dos seus outros livros de ensaio e crónicas, “acerca do sentido da vida, a beleza das coisas, a presença de Deus, as dúvidas e as incertezas espirituais dos nossos dias”, segundo a nota de imprensa da editora Quetzal.

Sete Partidas

Hoje não há missa

Na celebração dos 70 anos da República Popular da China (RPC), que se assinalam no próximo dia 1 de outubro, são muitas as manifestações militares, políticas, culturais e até religiosas que se têm desenvolvido desde meados de setembro. Uma das mais recentes foi o hastear da bandeira chinesa em igrejas católicas, acompanhado por orações pela pátria.

Visto e Ouvido

"Correio a Nossa Senhora" - espólio guardado no Santuário começou a ser agora disponibilizado aos investigadores

Agenda

Out
17
Qui
Apresentação do livro “Dominicanos. Arte e Arquitetura Portuguesa: Diálogos com a Modernidade” @ Convento de São Domingos
Out 17@18:00_19:30

A obra será apresentada por fr. Bento Domingues, OP e prof. João Norton, SJ.

Coorganização do Instituto São Tomás de Aquino e do Centro de Estudos de História Religiosa. A obra, coordenada pelos arquitetos João Alves da Cunha e João Luís Marques, corresponde ao catálogo da Exposição com o mesmo nome, realizada em 2018, por ocasião dos 800 anos da abertura do primeiro convento da Ordem dos Pregadores (Dominicanos em Portugal.

Nov
8
Sex
Colóquio internacional Teotopias – Sophia, “Trazida ao espanto da luz” @ Univ. Católica Portuguesa - Polo do Porto
Nov 8@09:00_19:30

Fundacional para a percepção e expressão do mistério, a linguagem poética é lugar de uma articulação paradoxal, nada acrescentando à representação descritiva do mundo [Ricoeur]. Encontrando-se o positivismo teológico em crise, paradigma que sempre cedeu demasiado à obsessão pela verdade, tem-se vindo a notar um crescente interesse pelo estudo teológico de produções literárias como lugares de redenção da linguagem referencial, própria do discurso tradicional da teologia. Na sua performatividade quase litúrgica, a linguagem poética aproxima o objecto do discurso teológico do seu eixo verdadeiramente referencial: “a transluminosa treva do Silêncio” [Pseudo-Dionísio Areopagita].

Cátedra Poesia e Transcendência | Sophia de Mello Breyner [UCP Porto], em parceria com a Faculdade de Teologia e o Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, organiza um congresso no âmbito das hermenêuticas do religioso no espaço literário, com especial incidência sobre a sua dimensão poética.
O colóquio terá lugar na Universidade Católica Portuguesa | Porto, nos dias 8 e 9 de novembro de 2019, e dará particular atenção aos seguintes eixos temáticos: linguagem poética e linguagem teológica: continuidades e descontinuidades; linguagem poética e linguagem mística: inter[con]textualidades; linguagem poética e sagrado: aproximações estético-fenomenológicas.

Nov
9
Sáb
Colóquio internacional Teotopias – Sophia, “Trazida ao espanto da luz” @ Univ. Católica Portuguesa - Polo do Porto
Nov 9@09:00_19:30

Fundacional para a percepção e expressão do mistério, a linguagem poética é lugar de uma articulação paradoxal, nada acrescentando à representação descritiva do mundo [Ricoeur]. Encontrando-se o positivismo teológico em crise, paradigma que sempre cedeu demasiado à obsessão pela verdade, tem-se vindo a notar um crescente interesse pelo estudo teológico de produções literárias como lugares de redenção da linguagem referencial, própria do discurso tradicional da teologia. Na sua performatividade quase litúrgica, a linguagem poética aproxima o objecto do discurso teológico do seu eixo verdadeiramente referencial: “a transluminosa treva do Silêncio” [Pseudo-Dionísio Areopagita].

Cátedra Poesia e Transcendência | Sophia de Mello Breyner [UCP Porto], em parceria com a Faculdade de Teologia e o Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, organiza um congresso no âmbito das hermenêuticas do religioso no espaço literário, com especial incidência sobre a sua dimensão poética.
O colóquio terá lugar na Universidade Católica Portuguesa | Porto, nos dias 8 e 9 de novembro de 2019, e dará particular atenção aos seguintes eixos temáticos: linguagem poética e linguagem teológica: continuidades e descontinuidades; linguagem poética e linguagem mística: inter[con]textualidades; linguagem poética e sagrado: aproximações estético-fenomenológicas.

Ver todas as datas

Parceiros

Fale connosco