A peregrinação internacional de 12 e 13 de agosto, em Fátima, habitualmente centrada na problemática dos migrantes, foi este ano presidida pelo núncio apostólico em Portugal, o bispo Andrés Carrascosa, que vincou, num encontro com jornalistas, que “um cristão não tem direito a ser xenófobo”. E, na homilia da missa do dia 13, fez a defesa de uma “cultura de acolhimento”.
O representante da Santa Sé foi mais longe e acrescentou:
“se não temos direito como cristãos, também acho que o povo português é um povo que não tem direito a ser xenófobo”. E respondeu de imediato sobre o porquê de tal afirmação: “porque em tantos momentos da sua história [muitos portugueses também] saíram para procurar melhores condições de vida para a própria família”.
Na mesma linha se pronunciou o bispo português Pedro Fernandes, presidente da Comissão Episcopal da Mobilidade Humana (CEPMH), que pôs em destaque o imperativo ético do acolhimento, que responsabiliza cada cristão. E explicou:
“Não há espaço para preconceito, discriminação negativa, xenofobia para aqueles que se dizem cristãos”. Tais comportamentos e atitudes estão “claramente fora daquilo que é a sensibilidade cristã e a tradição de fé da Igreja. Para aquele responsável, cada imigrante é um “dom” e uma riqueza, que merece o acolhimento devido.
O bispo acrescentou ainda que “não podemos receber estas pessoas em Portugal de qualquer maneira. Temos de criar condições para que se apliquem de facto, os quatro verbos fundamentais que a Igreja tanto valoriza: acolher, proteger, promover e integrar”.

Conferência de Imprensa com D. Pedro Fernandes (presidente da Comissão Episcopal da Mobilidade Humana (CEPMH), D. Andrés Carrascosa (Núncio apostólico) e Eugénia Quaresma (diretora da Obra Católica Portuguesa de Migrações). Foto © Santuário de Fátima.
Na conferência de imprensa esteve também presente Eugénia Quaresma, diretora da Obra Católica Portuguesa de Migrações, que enfatizou um ponto que viria a marcar também a intervenção do Núncio: a excessiva politização do tema dos migrantes e das migrações e a instrumentalização política que deles é feita.
Em Fátima, acentuou Andrés Carrascosa, “todos somos irmãos e “filhos da mesma mãe” (Maria), ”filhos na casa da mãe, onde ninguém pode dizer que o outro não é de casa”. “Ninguém é estrangeiro em Fátima, nas comunidades cristãs ninguém é estrangeiro”, asseverou.
Na homilia da principal Eucaristia da peregrinação, que juntou à roda de 25 mil pessoas, o núncio Andrés Carrascosa dirigiu-se a todos aqueles que “nasceram em Portugal e vivem hoje espalhados pelo mundo”, assim como aos que “nasceram em diferentes países e fizeram de Portugal a sua nova casa” e ainda aos “muitos outros” que vieram como peregrinos de outros lugares, para lhes fazer um apelo à paz.
“Num mundo marcado por guerras, divisões e desconfiança, Nossa Senhora continua a repetir que a paz começa no coração, começa na família, começa na reconciliação, começa quando aprendemos a olhar para o outro não como uma ameaça, mas como um irmão”, afirmou.
O bispo da diocese de Leiria-Fátima dirigiu uma saudação final aos presentes na celebração, pedindo “uma sociedade de coração aberto, disponível a estender a mão a quem chega e parte”. José Ornelas expressou solidariedade com as vítimas dos terramotos que recentemente abalaram a Venezuela e a Colômbia e recordou com gratidão o antigo presidente da Cáritas Portuguesa, Eugénio Fonseca, falecido esta quarta-feira, 12 de agosto, destacando os seus 21 anos de dedicação aos marginalizados e à causa da justiça social – uma evocação que tinha feito também Eugénia Quaresma, na conferência de Imprensa.






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