O preconceito contra o ensino profissional não tem limites

| 30 Jun 19

“Quem é que diz que a escola e o ensino superior são a melhor opção para todos os jovens que terminam o nível básico ou secundário? Em nome de quê?” Foto © João Ferrand/Companhia de Jesus

 

Os Ministérios da Ciência e Ensino Superior e da Educação lançaram a campanha “não desistas de ti”. Ao entrar no site respetivo, pode ler-se, em letras gordas: “Hey, tu. Sim, tu. Tu podes fazer o que quiseres. A sério. Não porque és especial, porque tens um talento ou porque nasceste para isto. Mas porque sabes o que queres. E quando uma pessoa sabe o que quer tem algo para lutar. Por isso não baixes os braços e vai à luta. Escreve, desenha, faz e vive para contar. Insiste e persiste. Duvida de tudo, menos de ti. Não desistas de ti.” Depois, clica-se em baixo, em “vou à luta” e entra-se numa página sem qualquer graça, com uma listagem de cursos e de instituições, da Direção Geral do Ensino Superior.

Foi com esta frase-apelo que aqueles Ministérios lançaram uma campanha para atrair para o ensino superior os jovens que fazem cursos profissionais. Este jovens são cerca de 43% de todos os que frequentam o nível secundário, se somarmos aos 35% que frequentam os cursos profissionais aqueles que realizam cursos de aprendizagem e cursos de ensino artístico especializado.

A campanha contém ainda um vídeo profundamente manipulador onde se diz que Portugal tem uma das mais altas taxas de abandono escolar e onde se escreve: “Os estudantes saem da escola e aceitam trabalho sem futuro e sem margem para progressão. E todos perceberam que ao deixar de estudar o seu futuro fica no vermelho. O futuro está nas tuas mãos. Não desistas de ti.”

Ou seja, os jovens que escolhem o ensino profissional ou artístico, ou melhor, que não escolhem o ensino geral, já cometeram não um, mas vários erros ao mesmo tempo: saíram da escola, aceitaram trabalhos sem futuro, meteram as suas vidas e o seu futuro no vermelho, desistiram de si mesmos!

A mensagem para os jovens que frequentam os cursos profissionais e artísticos é: não podias ter feito pior opção. É assim que, em vida, se desce aos infernos vermelhos!

Mensagem para os jovens do 9º ano: nunca penses em seguir este caminho, nunca penses em seguir um curso profissional ou artístico, ele é o caminho da perdição, sem qualquer futuro, a pior coisa que podes fazer na tua vida! Estarás a desistir de ti!

Como é que é possível dizer isto no espaço público (e sem contestação!!!)? Até onde pode ir a falta de senso e a manipulação dos jovens? Parece mesmo que não há limite para subverter os princípios básicos da educação dos jovens, da liberdade e da livre escolha de um itinerário formativo, apenas porque as instituições do ensino superior estão aflitas com a diminuição da procura e porque as previsões apontam para novas descidas, na ordem dos 20 a 25%! Não há crianças e a luta por elas começa a desnortear profundamente os responsáveis pelas instituições e pelo Governo!

Basta haver um problema no horizonte e logo estala todo o verniz e o pior vem ao de cima: o anátema, a discriminação, o preconceito, a manipulação e a mentira.

Como é que isto foi possível, com apoio do Estado e através da televisão, como é que foi possível dizer a milhares de jovens, que optaram por frequentar um curso profissional ou artístico e que querem ingressar para já no mercado de trabalho, barbaridades como estas: “estão a aceitar empregos sem futuro, sem margem para progressão, a vossa vida fica no vermelho!”? E a pior mensagem de todas: não desistas de ti!

Quem o assume são dois ministérios, que ainda por cima não são o da Agricultura e Pescas, mas o da Educação e o do Ensino Superior!

Ou seja, o preconceito contra o ensino profissional não tem limites e é entre a elite dirigente do país que ele é mais grave e mais profundo. Não se podia de facto dizer pior e de pior modo! Sendo isto feito por organizações da administração pública, com apoio do Governo, estamos diante de um facto de uma gravidade enorme.

 

Uma elite que só olha para o umbigo e não se coloca na pele do outro

Anda este país a fazer um esforço colossal, ao longo de trinta anos, para promover o sucesso escolar e a realização pessoal e profissional de perto de meio milhão de jovens portugueses, que, como seria expectável, ingressaram na sua maioria nos mercados de trabalho, para aparecerem uns iluminados que usam os recursos públicos para lhes dizer na cara: o que estás a fazer é um erro, sai depressa dessa vida, se vais trabalhar qualificada e dignamente estás a entrar num beco sem saída, num inferno, estás a desistir de ti mesmo!

E disseram tudo isto com uma impunidade assustadora! Quase todos se calaram, Governo e oposições, de direita e de esquerda. É assim que se degradam os processos culturais e civilizacionais, passo a passo, pouco a pouco, diante do silêncio de quem nunca devia ter deixado de protestar. E perante o silêncio cúmplice da quase totalidade das escolas que oferecem estes cursos, como quem diz: não é nada comigo!

De facto, o que está ao contrário nesta história de trinta anos não são os jovens, não são as famílias, que optam pelo que é melhor para si e para os seus filhos. É mesmo esta elite que nos dirige e que só olha para o seu umbigo, que não se coloca nunca na pele do outro, que faz tudo, incluindo a mentira e a manipulação despudorada, para fazer valer os seus preconceitos contra metade dos portugueses e contra a sua liberdade.

Quem é que diz que a escola e o ensino superior são a melhor opção para todos os jovens que terminam o nível básico ou secundário? Em nome de quê? Estas atitudes e comportamentos derivam de uma mentalidade autocentrada, autoritária, cega diante de quem é diferente, uma mentalidade que recusa a liberdade, sobretudo destes, dos que são diferentes e que fazem opções diferentes das do mainstream.

Quantas centenas de milhar de jovens que fizeram os seus cursos profissionais e artísticos e foram trabalhar são hoje portugueses profundamente realizados, profissionalmente muito competentes, com carreiras desafiantes, portugueses para quem a vida entrou no verde, porque, ao contrário do que lhes dizem, nunca desistiram de si, nem das suas escolhas responsáveis!

O preconceito contra o ensino não liceal não tem limites! A lógica escolar seletiva, elitista e desumanizante não caiu com o 25 de abril, parece que ainda mais se enraizou. O autoritarismo e o medo da liberdade não têm limites e continuam a comandar estas mentes brilhantes dos nossos dirigentes.

Como alguns já começaram a perceber, o que vem a seguir a estas medidas é mesmo a obrigatoriedade da frequência do ensino superior para todos os jovens, tal como se fez em Portugal recentemente com a obrigatoriedade de frequência até ao 12º ano. O ministro da Ciência e do Ensino Superior já falou disso. Os seja, à falta de outros argumentos, usa-se a prepotência do Estado e metem-se os carneiros todos no mesmo redil, aquele que os iluminados dos governos do momento decidem qual seja. Assim é que é apostar num país com futuro, com cidadãos realizados, altamente letrados (e com um ensino superior com níveis de insucesso nunca vistos, mas sobre isso é melhor que não se fale!).

Se investissem em pensar o futuro do ensino superior em moldes de facto adequados para a sociedade em que vivemos, se investissem em promover cursos com taxas de sucesso adequadas a um sistema escolar aberto a todos e flexível, se… já tinham tanto que fazer! Mas não, é mais fácil usar a mentira, a manipulação e o preconceito ideológico.

Joaquim Azevedo é professor da Universidade Católica Portuguesa (Porto) e membro do Conselho Nacional de Educação

[related_posts_by_tax format=”thumbnails” image_size=”medium” posts_per_page=”3″ title=”Artigos relacionados” exclude_terms=”49,193,194″]

Pin It on Pinterest

Share This