7MARGENS na Antena 1

O presépio de Francisco de Assis, “quase como uma dança cósmica”

| 31 Dez 2023

Ana Lúcia Esteves, Isidro Lamelas, Antena 1, 7Margens, presépio, Greccio

Fr. Isidro Lamelas e Ana Lúcia Esteves no programa 7MARGENS/Antena 1: Francisco de Assis foi um “desconstrutor do presépio”. Foto © António Marujo77MARGENS. 

 

“Naquela noite, no meio da floresta e a caminho daquela gruta onde São Francisco quis que todos encontrassem o Menino, no seu coração, dentro de si, vieram a cantar homens, mulheres e crianças com tochas acesas e cânticos de alegria.” A afirmação é de Ana Lúcia Esteves, co-autora do livro De Belém a Greccio – o Presépio de S. Francisco de Assis (Paulinas Editora), no programa 7MARGENS da Antena 1, que foi para o ar de sexta para sábado, dia 31, e pode ser escutado na RTP Play.

Foi “quase como uma dança cósmica”, na qual participaram também pedras, árvores e a natureza, acrescenta a convidada do programa, que integra o grupo português da Comunidade de Santo Egídio e frequenta o mestrado em História e Cultura das Religiões, em cujo âmbito nasceu o projecto deste livro.

Na noite de 23 de Dezembro de 1223, fez agora 800 anos, Francisco de Assis convocou as pessoas da pequena aldeia de Greccio, no centro de Itália, para recriar o presépio. Esse foi o pretexto para o debate no programa. “Quando as pessoas chegaram tinham lugar para si porque não estava lá mais ninguém” na representação do presépio, acrescenta Ana Lúcia Esteves.

Isidro Lamelas, frade franciscano e também autor do livro, acrescenta que “São Francisco é o pai do presépio tal como o conhecemos, mas também é verdade” que ele “foi uma espécie de desconstrutor do presépio: o que ele fez” foi um “presépio minimalista”, com dois animais vivos “e uma simples manjedoura com feno”.

“Ao desconstruir o presépio, [São Francisco] tornou-se o pai do presépio: a partir daí, ao tirar de cena o que não fazia parte da essência do presépio, deixou espaço para entrarmos todos, entrar a vida, entrar o quotidiano, as nossas profissões”, acrescenta o também professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa. “E é a partir daí que o presépio se torna popular – ao fazê-lo, cada um de nós está a colocar-se lá”, diz Isidro Lamelas.

O presépio de Greccio também mostra uma atenção especial às mulheres e às crianças, acrescenta o franciscano. “São Francisco convidou todos os populares naquela noite de Greccio e sabemos” que estavam presentes muitas mães. “Na Idade Média havia esta ligação, por causa dos partos mal sucedidos, dos abortos, as perdas de crianças”, explica Isidro Lamelas. O historiado francês Jacques Le Goff, cita, “chega a dizer que São Francisco inscreveu na história a mulher e a criança – pela primeira vez na língua italiana aparece a palavra bambino…”

As pessoas da região eram “muito simples, muito abertas à mensagem franciscana de paz e bem”, que “vinham para a rua quando Francisco por lá passava a pregar, acrescenta Ana Lúcia Esteves. “São Francisco quis fazer-nos viver, entrar para dentro do presépio; daí esta recriação, que é mais do que uma representação, é revivermos como se estivéssemos com o Menino de Belém”, diz a investigadora de História.

 

A lição de Francisco: “Não é preciso sangue, os lugares santos são dentro de nós”

São Francisco e o Sultão do Egito al-Kamel , foto Vatican Media

Ilustração representando o encontro entre São Francisco e o Sultão do Egito, al-Kamel. Direitos reservados.

 

Ao não colocar o Menino no presépio, o Poverello “quis convidar a que cada um de nós” o fizesse nascer, “acolhendo-o em si e fazendo eco da mensagem de paz e de bem, num mundo carregado de guerra”, acrescenta Ana Lúcia Esteves. Um mundo que “era como o nosso: naquele tempo tínhamos as Cruzadas”. E “essa é a lição de São Francisco: não é preciso sangue, os lugares santos são dentro de nós”.

Francisco de Assis “traz a beleza de Deus para junto do povo, encontrando uma linguagem que todos entendem”, diz ainda Isidro Lamelas acerca do presépio de Greccio: “A linguagem do teatro, da representação, do sentimento, do afecto.”

Essa é uma das razões, acrescenta o também especialista em teologia patrística, relativa aos primeiros séculos do cristianismo, que leva a que o presépio se torne o “fenómeno artístico expressivo mais popular do cristianismo”. O livro inclui, aliás, um estudo sobre a iconografia mais significativa acerca do presépio de Greccio. Os 800 anos dessa iniciativa são também o pretexto para uma curta visita guiada à exposição com mais de 100 peças a concurso que podem ser vistas até dia 8, no Seminário Franciscano da Luz. E que constitui como que uma “convocação da cultura portuguesa”, diz Ana Lúcia Esteves.

Outros dois livros recentes são referidos no programa: O Meu Presépio (ed. Principia), que reúne textos do Papa Francisco sobre o tema, e Il Presepe di San Francesco – Storia del Natale di Greccio (ed. Il Mulino, Itália), de Chiara Frugoni, historiadora italiana e talvez a mais importante especialista no tema. Neste último livro, a autora refere que Francisco de Assis “não formulava nenhum juízo sobre o islão” e foi ao encontro do sultão em Damieta “desarmado” e com uma “mensagem de paz”.

capa Belém a Greccio, presépioO presépio é a “melhor resposta às heresias da época”, diz Isidro Lamelas, e nesse sentido tem uma mensagem “política”, no conceito de acolhimento, de lugar “onde todos são irmãos, uma certa utopia da família universal reunida à volta da manjedoura”. E também do que convoca como “pão da justiça, que deve ser partilhado por todos”, na relação que estabelece com a eucaristia.

No programa, Ana Lúcia sublinha a notícia do 7MARGENS sobre o pedido da ONU para uma pausa humanitária no Sudão, para poder socorrer à situação de fome aguda que atinge 18 milhões de pessoas. Isidro Lamelas destacou o financiamento comunitário que permitirá desenvolver o projecto 7MONTES, ligado ao 7MARGENS.

Como sugestões culturais, ambos os convidados foram para duas exposições: Ana Lúcia Esteves propôs a mostra sobre Os Caminhos da Liberdade Religiosa em Portugal, patente no Parlamento até 28 de Fevereiro.

Isidro Lamelas sugeriu a exposição O Tesouro dos Reis. Obras-primas do Terra Sancta Museum, patente até 26 de Fevereiro na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.

O programa pode ser ouvido na íntegra no endereço https://www.rtp.pt/play/p12257/7-margens

 

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