O princípio da incerteza
Seria talvez expectável que em tempo de férias de Verão, as relações humanas se tornassem mais calorosas e empáticas, em nome da descompressão de um ano de trabalho e do clima mais favorável e consentâneo com o sol sem o qual os portugueses não sabem viver.
Mas não. A verdade é que as perturbações emocionais provocadas pela pandemia do coronavírus estão a vir à superfície, em especial pela fase pós-confinamento, mas sobretudo pelo efeito de cansaço provocado pelo prolongar dos surtos que dele derivam, e ainda pela incerteza com que a educação, a saúde e a economia se defrontam.
De facto, por enquanto ainda não se podem fazer planos concretos para nada, nem na vida empresarial, nem nas universidades, nem na vida pessoal e familiar (por exemplo, marcar férias e viagens com antecedência). Mesmo a governação dos países é feita à vista porque tudo é fluído.
Esta incerteza está a dar cabo da saúde mental dos indivíduos e a minar as relações interpessoais. São demasiadas dúvidas, receios, medos e surpresas para conseguir gerir sem perturbação. Alunos, famílias e professores não sabem como vão decorrer as aulas no próximo ano lectivo, tanto no ensino básico, como no secundário e no superior. As empresas não sabem se devem investir, como e em que condições, nem se vale a pena programar produção para exportar, visto que se desconhece a evolução da economia nos mercados de destino.
O sector da saúde também está na expectativa, sem saber quando virá uma segunda vaga da pandemia ou se ela chegará mesmo. Os meios religiosos vão mantendo os serviços de forma condicional, mas sem saber por quanto tempo ou o que virá. No fundo, todos os sectores da economia e da sociedade estão pendentes do que vier a suceder nos tempos mais próximos, da banca aos seguros, da indústria à agricultura e pescas, da educação à saúde e às religiões, e em tudo quanto diz respeito às famílias e aos indivíduos.
Ora, sabemos que o talvez é normalmente mais difícil de gerir do que o sim ou o não, em termos emocionais. No final da década de 1920, Heisenberg formulou o chamado princípio da incerteza aplicado ao mundo subatómico, no âmbito da Mecânica Quântica. De acordo com esse princípio, não podemos determinar com precisão e simultaneamente a posição e o momento de uma partícula, não devido a qualquer dificuldade com o aparato utilizado nas medidas físicas de grandeza, mas sim pela própria natureza da matéria e da luz.
Pois bem, é mais ou menos assim que estamos. A incerteza permanecerá devido à acção humana face ao vírus, o que vai influenciar a contenção ou a multiplicação das cadeias de contágio, mas também a falta de vacina ou medicamento eficazes e comprovados.
É este princípio da incerteza que está a destruir a saúde mental das populações, quando se sabe que “a prevenção e a promoção da saúde psicológica e do bem-estar nas empresas pode reduzir as perdas de produtividade em pelo menos 30%, o que corresponde a uma poupança de mil milhões de euros por ano.” Ou seja, “três vezes mais que o despendido pelo Estado na Ponte Vasco da Gama”, estima a Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP).
Para agravar ainda mais a situação, note-se que estes números ignoram a crise pandémica, considerando apenas o stresse, o burnout e outros problemas de saúde psicológica, que levam os trabalhadores a faltar até 6,2 dias por ano, segundo o Jornal de Negócios.
Recentemente uma equipa de psicólogos do King’s College, em Londres, correlacionou um conjunto de vinte e quatro estudos realizados no contexto de outros surtos, e cuja análise global permitirá eventualmente antecipar o comportamento da generalidade das pessoas no período pós-pandemia da covid-19. Apesar de ser impossível para já antecipar com segurança o impacto psicológico provocado pelas medidas de confinamento ou quarentena nas populações, até porque diferem de país para país, o consenso geral é que será dramático do ponto de vista da saúde mental.
No caso de um dos estudos, cerca de 54% dos inquiridos declararam que durante algumas semanas depois de terminada a quarentena ainda continuaram a evitar o contacto com pessoas com tosse ou espirros, 26% disseram evitar espaços fechados e movimentados e 21% todos os espaços públicos. Num outro estudo qualitativo os participantes apontaram alterações no seu comportamento a longo prazo, incluindo a frequente lavagem das mãos e o evitamento de multidões, sendo que, uma parte dos inquiridos afirmou que o regresso à normalidade demorou alguns meses. Mas são igualmente apontados indicadores de stresse pós-traumático.
Todavia a intolerância, agressividade e violência também parecem surgir como respostas emocionais espontâneas à situação. Talvez por isso é que andamos todos um bocado azedos.
José Brissos-Lino é director do mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona e coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo; texto publicado também na página digital da revista Visão.
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