
Dina Figueiredo, vitral na Igreja da comunidade da “Casa Betânia”, em Parma, Itália
Numa sexta-feira, seis dias antes da Páscoa, no regresso de Jericó para Jerusalém, Jesus faz uma pausa em Betânia, uma pequena aldeia a três quilómetros de Jerusalém que visitava regularmente, sendo amigo da família de Lázaro, Marta e Maria. É que no sábado a lei judaica não permitia viajar. Entretanto, um tal Simão denominado “o leproso” (talvez um dos que Jesus tinha curado) convida-o para um jantar no sábado à noite na sua casa, também em Betânia. Reza assim a Escritura:
“¹ Foi, pois, Jesus seis dias antes da páscoa a betânia, onde estava Lázaro, o que falecera, e a quem ressuscitara dentre os mortos.
² Fizeram-lhe, pois, ali uma ceia, e Marta servia, e Lázaro era um dos que estavam à mesa com ele.
³ Então Maria, tomando um arrátel de ungüento de nardo puro, de muito preço, ungiu os pés de Jesus, e enxugou-lhe os pés com os seus cabelos; e encheu-se a casa do cheiro do ungüento.
⁴ Então, um dos seus discípulos, Judas Iscariotes, filho de Simão, o que havia de traí-lo, disse:
⁵ Por que não se vendeu este ungüento por trezentos dinheiros e não se deu aos pobres?
⁶ Ora, ele disse isto, não pelo cuidado que tivesse dos pobres, mas porque era ladrão e tinha a bolsa, e tirava o que ali se lançava.
⁷ Disse, pois, Jesus: Deixai-a; para o dia da minha sepultura guardou isto;
⁸ Porque os pobres sempre os tendes convosco, mas a mim nem sempre me tendes.”
Neste episódio bíblico descrito por João Evangelista no capítulo doze, versículos um a oito do seu evangelho, as personagens representam pelo menos cinco diferentes dimensões da vida espiritual:
A dimensão da admiração, que também pode ser descrita como conversar com Deus. Faz lembrar aqueles que assistiram de longe, algum tempo depois, à cena do Calvário. Os amigos de Simão sentaram-se à mesa em Betânia para conversar com Jesus. Representam os simpatizantes do Evangelho. Mahatma Gandhi assumia-se também como um grande admirador do Mestre da Galileia.
Mas será que basta ser admirador de Jesus?
Depois há a dimensão da gratidão, isto é, o interesse em ouvir Deus. Lázaro estava deliciado a ouvir Jesus, sentado à mesa. Lázaro ressuscitado representará os companheiros (os que comem pão com outros) e os crentes abençoados por Deus.
Mas será que basta ser abençoado por Deus?
Depois temos a dimensão do interesse, ou seja, dar apenas as sobras a Deus. Judas Iscariotes era ladrão e considerou um verdadeiro desperdício que Maria desse a Jesus o melhor que tinha, aquele perfume caríssimo. Judas representa os crentes equivocados e os falsos piedosos que seguem Jesus animados por interesses particulares.
Mas será que basta seguir Jesus?
Há ainda a dimensão do serviço, quer dizer, servir a Deus. Marta estava ocupada em preparar a refeição para o grupo. Marta representa os servos e fala-nos da importante dimensão da diaconia, do serviço cristão.
Mas será que basta ser um servo?
Finalmente vem a dimensão da adoração, ou de adorar a Deus. Maria perfumava os pés de Jesus e por isso representa os adoradores. Esta é a verdadeira dimensão da fé: “Mas a hora vem, e agora é, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade; porque o Pai procura a tais que assim o adorem. Deus é Espírito, e importa que os que o adoram o adorem em espírito e em verdade” (João 4:23,24).
Jesus ama a todos. A Bíblia diz que Ele não faz “acepção (discriminação) de pessoas “.“Ora, Jesus amava a Marta, e a sua irmã, e a Lázaro” (João 11:5), isto é, o seu amor era estendido a toda a família.
Já a velha questão do cântico dos anjos nas campinas de Belém, aquando do Seu nascimento, denuncia uma visão equivocada sobre a matéria. Tradicionalmente diz-se que aqueles seres espirituais cantaram “Glória a Deus nas alturas, paz na terra entre os homens de boa vontade”. Mercê de uma tradução pouco rigorosa efectuada há séculos, ficou assim suposto que o desejo divino não seria de paz para todos os seres humanos mas só para alguns. Os tais “de boa vontade”. Nada mais falso. O que o texto diz é “paz na terra e boa vontade entre os homens”. Assim mesmo. Entre todos os seres humanos.
O mais importante não é o que fazemos a cada momento para Deus, mas sim a nossa resposta ao Seu amor. Ninguém pode “comprar” o amor divino através de acções, orações ou qualquer mérito pessoal, pois tal amor é incondicional e universal.
Só assim conseguimos entender que Deus ama todos os pecadores (ao ponto de Jesus ter morrido por todos eles), mesmo os que nem sabem que Ele existe ou que, sabendo, são rebeldes à sua Pessoa e vontade.
Chamo o princípio de Betânia ao modo como respondemos ao amor de Deus, e que pode ser representado por estas cinco diferentes dimensões da vida espiritual.
José Brissos-Lino é professor universitário, investigador, Coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo e director da revista teológica Ad Aeternum.










