O prisioneiro de consciência mais breve da história

| 8 Fev 20

Nicolò Grassi (1682-1748, Flagelação de Cristo, obra de 1720: “Nessa mesma noite, foi ainda torturado e deixado a agonizar” – e esta história continua a acontecer…

 

1. Não é a primeira vez que escrevo para o 7MARGENS, mas é a primeira das crónicas que se querem regulares. Importa por isso um agradecimento ao jornal, pelo convite e consideração, e pelo contributo que possa vir a dar num mundo em que faz falta ponderação, atenção à verdade e serenidade de pensamento, para chegarmos ao discernimento daquilo que é o melhor para o nosso futuro coletivo.

Independente e salvaguardada pela ética e por elevados critérios jornalísticos, a edição do 7MARGENS privilegia a cobertura noticiosa sobre religiões. Em teoria, todas elas acreditam no bem comum, no primado do respeito pela humanidade e pelo planeta, fonte de vida e dos recursos que necessitamos para essa vida. Os direitos humanos são, assim, alicerce partilhado entre a generalidade das religiões, nessa procura de bem comum, entre a generalidade das organizações não-governamentais e da sociedade civil, e entre a generalidade teórica de partidos políticos. Até aqui tudo bem, não fossem estas instituições, por vezes, instrumentalizadas para outros fins que não os do bem comum: o poder.

 

2. A história que partilho de seguida é sobejamente conhecida. Tem cerca de dois mil anos, mas reflete uma atualidade bastante grande, pois tudo funciona, hoje, praticamente da mesma forma que na altura. É a história do prisioneiro de consciência mais breve da história. Entre figura citada por Heródoto, e mais de meia centena de outros documentos entre evangelhos canónicos e apócrifos, foi tão real – historicamente – quanto outros do seu tempo, como Octávio César Augusto, a título de exemplo.

Conhecido por Jesus de Nazaré, foi o prisioneiro de consciência mais breve da história e as linhas que escrevo a seguir misturam factos, com outros que apenas o são para os crentes, para os cristãos. Não me deterei a distingui-los. O que me interessa a seguir é provocar reflexão atuante a todas as pessoas que leem o 7MARGENS.

 

3. No seu tempo era tido por profeta por uns, por messias por outros. Falava muito de liberdade, de igualdade, de bem comum, de justiça, de perdão e de amor. Os seus discursos heterodoxos e desafiadores do poder e status quo incomodavam muitos poderosos que o queriam silenciar, eliminando a ameaça que ele constituiria.

Quando nasceu, os primeiros que o visitaram foram pastores, gente nómada e, por isso, mal vista socialmente. Curava pessoas ao sábado, quando era proibido trabalhar nesse dia. Dava-se com cobradores de impostos, ladrões, prostitutas, entre outras pessoas com profissões que tinham uma conotação negativa (hoje, também). Acolhia e tratava todas as pessoas por igual e com o mesmo afeto, acolhimento e ausência de preconceito. Privilegiava as mulheres, tão sem direitos no seu tempo, preferia os mais pobres, os doentes, os migrantes e os refugiados que, na época, não fugiam das guerras. Eram capturados nelas e feitos escravos. Tinha especial atenção pelos grupos vulneráveis desse tempo no seu programa de ideais, lembrando que apenas estavam em vulnerabilidade por razões de injustiça humana de circunstância. Falando de igualdade e dignidade para todas as pessoas, desafiava o poder dos que, na sociedade da época, se viam como superiores: os sacerdotes, os romanos, potência ocupante, entre outros grupos que constituíam a sua riqueza à custa de outros.

Foi famoso.

Num dia – que os cristãos designam, hoje, por Domingo de Ramos – entrou aclamado em Jerusalém. Entrou como um campeão só comparável à seleção nacional de Portugal à chegada a Lisboa quando venceu o Europeu de futebol, em 2016.

Essa entrada na cidade foi a gota de água da paciência de muita gente poderosa e depressa se fizeram circular notícias falsas sobre ele na cidade. As hoje chamadas fake news criaram condições para que, na quinta-feira seguinte, fosse preso, julgado sumariamente e condenado à pena de morte por dois juízes – o sumo-sacerdote judeu e a autoridade romana estabelecida. Nessa mesma noite, foi ainda torturado e deixado a agonizar. Na sexta-feira, o dia seguinte, foi executado, com o apoio e aplauso da generalidade da população que, manipulada pelas notícias falsas, preferiu que ele morresse e se libertasse um dos prisioneiros separatistas com histórico de assassinatos “pela causa”.

Quantos de nós daríamos apoio à decisão? Quantos ficaríamos em silêncio ou, pelo contrário, teríamos agido e até assinado uma petição da Amnistia Internacional se a história se repetisse hoje?

Termino com um spoiler: ela continua a acontecer.

 

Pedro A. Neto é diretor-executivo da Amnistia Internacional Portugal; este texto é uma reflexão pessoal e por isso não vincula a organização

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