“esta é a lei de que os portugueses precisam”[1], explicou o ministro,
e ele, que a desconhecia, achou que sim,
claro, pois então, isto não é o Bangladesh,
e aquela preta, lá no bairro, tira-o do sério:
deseja, em silêncio, seus olhos de esmeralda,
a pele escura, as mãos laboriosas.
perturba-o o luxo dos seus lábios,
as conchas que se riem nos cabelos.
a concupiscência da carne, porém,
é um pecado antigo;
há que ter cuidado, confessar-se amiúde,
fazer economias.
pensando bem, enraivecem-no nela os passos desenvoltos,
o contorno preciso dos mamilos,
a vida a vir-se, exuberante cada dia
a íntima nudez.
inveja-lhe os amigos, igualmente jovens,
cujos corpos em lume incendeiam os nativos,
seguram-nos entre mãos poderosas,
da noite rasgam a ordeira mesquinhez.
por isso, pediu mais um prato de tremoços,
guardou no bolso o recibo da segurança social,
e decidiu que afinal o país não precisa de pretos.
que voltem para a sua terra, e já, porque, em boa verdade,
fez sessenta anos, a tosse não melhora,
a renda pela hora da morte,
nem a imperial é o que foi, nem as mulheres.
culpa dos pretos, claro, mandem-nos de volta,
e já agora os chinas,
as putas brasileiras e os maricas,
acham-se quem?
basta vê-los chegar, não sabem ler,
em vez de um visto, um filho, ou dois, ou três,
e confiam que deus os faz crescer.
cobiçam-nos o que não temos, esses rufias,
quando não ladrões, ou chulos,
oportunistas que, da pátria, até camões hão-de vender.
deles depende, porém,
(e talvez o ministro o pudesse esclarecer)
o vale da reforma, a tempo e horas,
a creche para os netos
e, no hospital, uma cama lavada onde morrer.
[1] António Leitão Amaro, na aprovação da nova lei da nacionalidade, troféu de todas as direitas, a 1 Abril de 2026.
Luís Soares Barbosa ( luissoaresbarbosa.com) é professor na Escola de Engenharia da Universidade do Minho e autor, entre outros, de a poesia vende pouco (2023) e meu nome é ninguém (2025), ambos na Officium Lectionis.
Esta rubrica toma de empréstimo um verso de Guimarães Rosa: todo o dia é véspera, para estes “pequenos poemas da nossa circunstância” ( https://setemargens.com/a-nossa-circunstancia-em-pequenos-poemas-mensais-de-luis-soares-barbosa-no-7margens/ ) e é publicada aos dias 24/25 de cada mês, assinalando a data da implantação da democracia em Portugal.










