O problema de Inês Marques, 24 anos, não é a falta de emprego: aí, até considera que teve alguma sorte, comparando com amigos e colegas que conhece. Mas a relação do emprego com a habitação trouxe-lhe uma dificuldade: com os preços “incomportáveis” das casas em Lisboa, onde trabalha, teve de optar por ficar a residir em Tomar, onde nasceu, deslocando-se todos os dias para a capital.
Inês Marques será uma das pessoas cujo depoimento passará no colóquio que o 7MARGENS está a organizar no próximo dia 16, na Escola Secundária Camões, em Lisboa, entre as 15h00 e as 19h00, dedicado ao presente e ao futuro do trabalho.
A história mais imediata começou no final do curso, em Dezembro de 2024, depois de concluída a tese de mestrado integrado, na qual Inês aprofundou o tema dos espaços de trabalho saudáveis e produtivos. Colocou o foco em critérios como a cor, a iluminação e a existência de plantas como importantes para medir a produtividade.
Depois de concluir a tese, Inês ganhou uma bolsa de investigação, para a edição de textos e livros que recolhiam trabalhos de alunos e professores de arquitectura. Logo a seguir ao último Verão, quando a bolsa estava a terminar, o professor que orientara a tese e que apreciara muito o trabalho, convidou Inês Marques para trabalhar no gabinete de arquitectura de que é proprietário. “Não estive muito tempo sem trabalhar”, diz Inês. A procura de mão de obra jovem tem aumentado na arquitectura, depois de vários anos em que se registou uma grande crise no sector.
Coincidindo com a concessão da bolsa no início de 2025, Inês começara, com o namorado, à procura de uma casa. Assustou-se: “Pensava ficar a trabalhar em Lisboa alguns anos e voltar para Tomar mais tarde. Mas os preços das habitações ‘ajudaram’ muito à decisão de voltar já”, diz ao 7MARGENS. “Comecei a ver na Internet e assustei-me com o que vi: já se pede pelo menos 600 euros por um quarto para duas pessoas. E nós não queríamos um quarto…”
Perante o panorama, não foi preciso muito tempo para pensar e decidir fazer todos os dias o caminho de casa: sai de casa em Tomar, até ao Entroncamento normalmente de boleia; ali apanha o comboio até à Estação de Santa Apolónia e daí, de metro até ao gabinete de arquitectura. Duas horas para cada lado, aproveitadas muitas vezes para pôr em dia leituras ou trabalhos – do ateliê ou da JOC.
Os gastos com a viagem ficam em 50 euros por mês: 20 para o passe do comboio, 30 para os transportes de Lisboa. Em qualquer caso, bem longe dos 600 euros ou mais que custaria o quarto.
Paralelamente à actividade laboral, Inês mantém-se na JOC (Juventude Operária Católica), onde desempenha as funções de secretária nacional. Está no segundo ano de mandato, em regime de voluntariado. Neste domingo, 1 de Março, por exemplo, Inês participou num “festival de sopas” que a JOC organizou em Cacia (Aveiro), com o objectivo de angariar dinheiro para as iniciativas da JOC e pagar o dirigente livre que a organização mantém: tem havido menos apoio financeiro, quer da parte do Instituto Português do Desporto e da Juventude (IPDJ), quer da parte da hierarquia católica.
Apesar de a situação de emprego não ser grave, Inês sente que as propostas do Governo para a nova legislação laboral são mais uma ameaça ao seu futuro: está desde Novembro no gabinete de arquitectura, cumprindo também o estágio, obrigatório, para ingressar na Ordem dos Arquitectos. No gabinete, tem um contrato a termo incerto: significa que tem emprego durante quatro anos, mas pode ser despedida em qualquer altura, avisada com um mês de antecedência (ou uma semana, se ainda não tiver completado seis meses).
Nas propostas do Governo, os quatro anos podem aumentar para cinco. E Inês considera que não é justo ter de enfrentar mais incerteza e instabilidade no seu futuro. Mas no gabinete estão “a gostar” do seu trabalho. “Se não fosse isso, eu andaria um bocado aflita”…










