Pluralidade e diversidade nos debates e experiências

O problema dos cristãos e das igrejas na assembleia do Conselho Mundial

| 6 Set 2022

Conselho Mundial de Igrejas, Rudelmar Bueno de Faria, Ruth Maten, Karlsruhe

Rudelmar Bueno de Faria e Ruth Maten, dois dos intervenientes a marcar os debates da assembleia do Conselho Mundial. Foto © António Marujo

 

O problema dos cristãos está na resposta a esta pergunta: “Oitenta por cento das pessoas do mundo é religiosa ou tem uma forma de espiritualidade. Mas como influi isso nas plataformas onde se geram todas as políticas e decisões económicas que são decisivas para o nosso mundo?”

Na 11ª assembleia do Conselho Mundial de Igrejas (CMI), que decorre em Karlsruhe (oeste da Alemanha, 140 quilómetros a sul de Frankfurt). [ver 7MARGENS] Rudelmar Bueno de Faria, da Igreja de Confissão Luterana do Brasil, sintetizava desse modo várias das perguntas a aguardar resposta nos debates que mobilizam os mais de quatro mil delegados. Perante um mundo carregado de problemas – fome, pobreza, emergência climática, guerras, violência sobre as mulheres, jovens e pessoas frágeis… – como mobilizar os crentes e os cristãos, em particular, para a participação nas estruturas sociais, políticas e económicas onde se decide o quotidiano de milhões de pessoas?

Numa das sessões plenárias da assembleia, Bueno de Faria, também ex-representante do CMI nas Nações Unidas, referia a “muito grave crise de valores”. E citava questões como as reacções contra os direitos humanos e a dignidade humana, as notícias falsas, a polarização dentro das igrejas e na sociedade, os expansionismos que utilizam a guerra, o racismo e o neoliberalismo. É “um mundo dividido, que de um lado promove a exclusão dos mais pobres, das mulheres, dos jovens, dos povos autóctones e, do outro, tem pessoas que se baseiam nos valores cristãos da solidariedade e da justiça”.

O CMI, composto actualmente por 352 igrejas cristãs – na sua maioria, de tradição reformada, ortodoxa ou anglicana – é atravessado também por muitos desses debates, mesmo se a maioria dos seus membros tem uma perspectiva politicamente empenhada na transformação da sociedade. Muitas das igrejas do Conselho estão comprometidas com causas como a promoção das mulheres, o combate ao racismo e às discriminações ou a mobilização no combate à sida ou às guerras. Pequenos concertos, actuações teatrais ou bailados complementam os debates, diversificando linguagens.

Também convivem, no interior do Conselho Mundial (ou Ecuménico) igrejas mais reticentes a vários destes temas – desde logo, por exemplo, ao papel das mulheres. É fácil ver muitas delegadas, na assembleia, usando colarinho eclesiástico sobre camisas pretas como muitos padres e pastores, mas também sobre vestidos, saris, fato saia-casaco ou outras vestes. Mas também há várias delegações – sobretudo ortodoxas – com menos mulheres. Na oração do final da tarde desta terça-feira, animada pelas igrejas orientais, era visível a liderança masculina da celebração litúrgica. Algumas mulheres apareceram, entretanto, no grupo dos músicos e do coro, ou a fazer as leituras dos textos bíblicos. Mas quando se tratava de conduzir a oração, só se viam homens.

O papel dos jovens é outro dos temas em discussão. Na tarde desta terça-feira, 6, vários jovens intervieram na última sessão plenária, reivindicando que a sua voz fosse mais escutada. “Queremos ser ouvidos”, dizia um indonésio ao microfone. “Este é o único espaço onde podemos ser escutados pelas lideranças das nossas igrejas”, acrescentava uma brasileira, ambos envolvidos por um grupo significativo de jovens, que acenava a cada frase proclamada, em ambos os casos com vigor. Foi num dos momentos finais do trabalho da tarde, depois de o Comité Central e vários grupos de trabalho do CMI terem apresentado propostas de resolução à assembleia.

 

“Não damos o micro, mas escutamos”
Conselho Mundial de Igrejas, Karlsruhe

O psicoterapeuta Fadi El Halabi (na cadeira de rodas) e a bailarina Karen Abou Nader, ambos libaneses, numa dança, durante a sessão plenária de dia 6 sobre “Afirmar a justiça e a dignidade humana” na assembleia do Conselho Mundial de Igrejas. Foto © Albin Hillert/WCC.

 

“Não podemos agora dar-vos mais o microfone, mas estamos atentos ao que dizem”, assegurava a moderadora do Comité Central, Agnes Abuom, da Igreja Anglicana do Quénia, a primeira africana a ocupar o cargo, desde 2013.

Já na abertura da assembleia, Agnes Aboum apelara a que as igrejas cristãs ouçam “atentamente os jovens “, que muitas vezes expressam as suas preocupações e receios sobre a justiça, a paz e o futuro do planeta. “São a geração que está a sofrer as primeiras catástrofes da crise climática e a última que pode agir para travar o aquecimento global”, recordava.

Numa outra sessão plenária, veio da Índia, e de novo de uma jovem, uma das vozes mais assertivas: “Têm-nos dito que o futuro é nosso, mas ele está em perigo”, afirmou Ruth Mathen, da Igreja Ortodoxa Síria de Malankara. Referindo as pessoas que se suicidaram por causa de problemas financeiros ou da pandemia, o “egoísmo das empresas farmacêuticas” e dos países ricos no acesso às vacinas contra a covid-19, afirmou que isso “exacerbou e colocou em relevo” todas as injustiças e a “crise económica e de valores” já existentes.

Ruth Maten insistiria depois, falando da emergência climática e das injustiças sociais, que “para os cristãos há Criação e não natureza, por isso todas as pessoas fazem parte da Criação”. O secretário-geral do CMI em exercício, Ioan Sauca, afirmou também, na apresentação do seu relatório, que o cuidado com a Criação é central para os cristãos. “É uma questão teológica. O plano de Deus em Cristo era também a reconciliação e a cura de toda a Criação.”

O cónego Gideon Byamugisha, da Assembleia da Igreja do Uganda (anglicana), activista de saúde pública, recordou, noutro momento, os milhões de jovens que não recebem educação nem têm emprego ou as crianças e adolescentes que, a cada dois minutos, ficam contaminadas com o HIV-sida.

Jocabed Solano, teóloga indígena do povo gunadule (Panamá), que trabalha com a Missão Unida Mundial, pediu que os povos indígenas possam definir a sua própria história – a atenção aos povos autóctones é outra grande preocupação de muitas igrejas do CMI, como também, por exemplo, às pessoas com deficiência.

Fora da sala do Kongresszentrum de Karlsruhe, onde decorrem os trabalhos da assembleia, algumas dezenas de pequenos pavilhões fazem uma pequena mostra dessa pluralidade de iniciativas de igrejas que integram o CMI ou de outros grupos e organizações: combate à sida, prevenção da violência contra crianças, petições a pedir o fim da guerra na Coreia ou uma nova arquitectura financeira mundial, justiça climática, a paz no Médio Oriente, promoção social das mulheres (por exemplo, das dalit no Nepal e na Índia…) E também organizações como a Assembleia Inter-Parlamentar Ortodoxa, o Fundo de acção social das Igrejas na Índia, o Forum Cristão Global ou o católico Movimento dos Focolares, que há décadas vem colaborando com o CMI em acções pela unidade dos cristãos.

 

Do “padare” ao “brunnen”
Conselho Mundial de Igrejas, Karlsruhe

Bereite Kidane, da Igreja Ortodoxa Eritreia (dirª) com outros líderes ortodoxos orientais durante a oração da tarde de terça, dia 6: as mulheres estiveram mais ausentes. Foto © Mike DuBose/WCC.

 

Esta iniciativa da exposição nasceu em Harare, (Zimbabué), na 8ª assembleia do CMI, em 1998. Aí foi baptizada como padare, palavra para descrever um desfile público que assinala um dia ou um acontecimento especial; em Porto Alegre (Brasil, 2006) foi o mutirão, espaço de celebração colectiva, e em Busan (Coreia do Sul, 2013) era o madang, que significa pátio tradicional e espaço de deliberação e comemoração comunitária.

Em Karlsruhe, este espaço é o brunnen, que designa um fontanário. A ideia, explica o CMI, é “mostrar aos participantes a extraordinária riqueza das iniciativas e experiências com que o Espírito alimenta a vida de milhões de pessoas”.

Num dos pequenos pavilhões estão os textos bíblicos com comentários diários publicados desde há 292 anos pela Igreja da Morávia sem qualquer interrupção – e hoje em 60 línguas.

Três das organizações merecem destaque: uma delas é o Movimento dos Focolares, uma estrutura católica presente em 180 países, com cerca de 140 mil membros em todo o mundo, que vinca o carisma da unidade na diversidade. Apesar da sua origem católica, o movimento congrega hoje também pessoas de outras denominações cristãs e de diferentes religiões.

O Fórum Cristão Global (FCG) criado em 2007, teve o seu primeiro encontro em Limuru, Quénia. Inclui o Dicastério para a Promoção da Unidade Cristã, a Aliança Evangélica Mundial, a Fraternidade Mundial Pentecostal e o Conselho Mundial de Igrejas. O FCG já reuniu outras duas vezes em Manado (Indonésia) em 2011, e em Bogotá (Colômbia), em 2018, estando previsto o próximo encontro para Acra (Gana, 2024). Sempre com o objectivo de colocar em diálogo as grandes estruturas representativas das diferentes correntes cristãs.

A Assembleia Inter-Parlamentar Ortodoxa foi fundada há 30 anos por iniciativa do Parlamento grego, com o objectivo de “promover os princípios e valores da tradição cristã ortodoxa no campo da política europeia e internacional”. Hoje, apoia a protecção do património cultural mundial, material e imaterial, do mundo ortodoxo e está comprometida com o diálogo inter-religioso na perspectiva da promoção da paz.

Neste final de tarde de terça-feira, a oração animada pelas igrejas orientais fez-se do ritmo quase monocórdico, mas que continha, ao mesmo tempo, uma espiritualidade de séculos (a oração pode ser vista no vídeo seguinte, a partir dos 13’).

Numa sessão anterior, Iemaina Jennifer Vaai, da Igreja Metodista de Samoa, a fazer uma pós-graduação sobre mudanças climáticas nas Ilhas Fiji, reproduziu vários cantos tradicionais do seu povo. Um deles, mais brusco, como que despertou várias pessoas mais dormentes: “É um canto que usamos para despertar as pessoas quando elas dormem nas reuniões”, explicou depois, entre risos.

Muitos cristãos querem também acordar.

 

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