As questões “ambientais, económicas e éticas” do desperdício alimentar

| 13 Dez 18

 
É possível que o livro Desperdício alimentar, de Iva Pires, professora da Universidade de Lisboa, não seja para muitos um livro oportuno para a quadra natalícia. Os que pouco se apoquentam em multiplicar o esbanjamento de comida nesta altura do ano acharão, com certeza, impertinente a ocasião escolhida para ouvir falar do tema.
Os que se encontram no lote de perdulários são, aliás, abundantes. A autora chama a atenção para a circunstância de não passar um dia sem vermos comida em perfeitas condições para consumo depositada no lixo: “Estima-se que cada português desperdice 100 quilos de alimentos por ano. Responda honestamente: qual foi o último alimento que pôs no lixo – e porquê?”
Em Desperdício alimentar, Iva Pires pede mais acção para lutar contra o que é tanto mais grave quanto se sabe que, no mundo, anualmente, ao mesmo tempo que se estragam 1,3 mil milhões de toneladas de alimentos, há 805 milhões de pessoas a padecer de subnutrição ou a viver numa situação de insegurança alimentar.
O livro começa com um exemplo simples: “Se em minha casa se estragar uma laranja numa semana, porque se compraram demasiadas e uma acabou por apodrecer, tendo em conta que somos 4 043 726 famílias em Portugal (em 2016, segundo a Pordata) e que uma laranja pesa em média 80 gramas, nessa semana deitaram-se para o lixo em Portugal 323 toneladas de laranjas, e por ano 16 800 toneladas”. Iva Pires calcula que isto se traduz num desperdício de 25 200 euros. Depois, sugere: “Façamos o mesmo exercício incluindo maçãs, peras, pão, alfaces ou iogurtes que, semanalmente e por razões variadas, acabam no lixo”. A dúvida colocada no fim do livro é pertinente: “Já pensaram o que representaria para a redução do desperdício alimentar em Portugal se todas as quatro milhões de famílias dessem um pequeno contributo?”
O desperdício alimentar, como Iva Pires explica, é “um problema grave, que convoca questões ambientais, económicas e éticas”. Como alternativa “à economia linear de ‘extração-produção-deitar fora’”, a autora propõe a “economia circular”, que prolonga a vida dos recursos, “recuperando-os e reciclando-os”. Entre os modos de não estragar, há os apurados num inquérito citado por Iva Pires: os consumidores podem reduzir o desperdício tomando decisões mais reflectidas ao fazer compras; planeando as refeições; reaproveitando as sobras em vez de as deitar fora (embora isso não seja referido, o que nos sobeja quando vamos aos restaurantes também merece ser reutilizado); usando melhor o congelador, nele armazenando alimentos em excesso para os utilizar mais tarde; reclamando embalagens mais pequenas às cadeias de distribuição.
Sobre o combate ao esbanjamento, empreendido por Organizações Não-Governamentais (ONG) e movimentos da sociedade civil, como os Bancos Alimentares contra a Fome, a Re-food ou a Dariacordar/Movimento Zero Desperdício, dá também conta o livro, referindo os benefícios da recuperação de alimentos ainda em condições de consumo para doação: alimentos não cozinhados que se aproximam do fim do prazo de validade e não foram vendidos ou refeições preparadas que não foram servidas em cantinas ou restaurantes.
Outro género de iniciativas é promovido lá fora. Em Copenhaga, na Dinamarca, o supermercado WeFood, gerido por uma ONG, vende apenas produtos que, sendo adequados e seguros para consumo, ultrapassaram o prazo de consumo preferencial, têm rótulos incorrectos ou embalagens danificadas. Em Portugal, também há exemplos idênticos. É o caso da Cooperativa Fruta Feia, com 145 produtores parceiros, que lançou a campanha “Gente bonita come fruta feia” para criar um mercado alternativo para as frutas e as hortaliças que as grandes superfícies comerciais não vendem por serem “feias”.
Perceber que o desperdício alimentar é um problema grave é já um bom ponto de partida para o começar a resolver.
 
 

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