O profeta Jonas e a catástrofe de Moçambique

| 29 Mar 19

“A mera opção de escolher, ao lanche, uma fruta ou algo natural, ou um produto que passou por uma indústria, com um pacote de plástico, papel ou metal industrialmente fabricado, traz consigo emissões de Gases com Efeito de Estufa, que causam estes fenómenos climáticos extremos.” Foto © Instituto Nacional de Gestão de Calamidades, de Moçambique

 

Por mais dinheiro e meios que se reúnam para o apoio financeiro a Moçambique a verdade é que não nos preocupamos com Moçambique e continuamos a não nos preocupar. Esta é uma mensagem que precisa de ser dita e consciencializada.

Ter o papel de profeta da catástrofe, como Jonas na cidade de Nínive, é ingrato. Tão ingrato que mesmo o próprio Jonas tentou evitar essa missão que Deus lhe confiou, acabando até por ir parar ao estômago de uma baleia (a história é narrada no Antigo Testamento, em Jonas 1,1 – 4, 10). Sinto-me como Jonas no sentimento de não querer anunciar a desgraça e pedir a conversão do povo, a revolta e perseguição é uma realidade sem fuga possível. Todavia, sei que esta mensagem é de Deus e Ele estará comigo a transmiti-la e a minha fidelidade assim me impele, principalmente neste momento que as desgraças se abateram sobre tantos. 

Em dois textos anteriores aqui no 7MARGENS, escrevi sobre a necessidade da hospitalidade na casa comum e perguntei-me sobre se um só acto poderia salvar 250.000 vidas? Não sei se as mensagens caíram em terra fértil, em pedra ou espinhos, mas aqui estamos. E terei de retomar um anúncio não querido por todos:

“Estes ciclones mais intensos são os resultados da emissão desproporcional de gases de efeito-estufa e das suas consequências na dinâmica energética do nosso planeta”, diz Pedro Garret, investigador do Programa Doutoral em Alterações Climáticas e Políticas de Desenvolvimento Sustentável. O escritor José Eduardo Agualusa acrescenta que este apoio financeiro por parte de tantas entidades a Moçambique “não é ajudar, é indemnizar por danos causados”.

Na verdade, desde o furacão Irma (em Setembro de 2017) que ouvimos falar de uma conexão entre alterações climáticas e a repetição e intensidade destes fenómenos. Filipe Duarte Santos, presidente do Conselho do Ambiente e Desenvolvimento Sustentável e professor na Universidade de Lisboa, afirma: “Ainda que seja difícil atribuir um fenómeno especifico às alterações climáticas, a verdade é que tudo indica para que assim seja, pois à medida que as temperaturas do oceano aumentam, também aumenta a intensidade das tempestades tropicais. É um fenómeno global e tem a ver essencialmente com a temperatura média do oceano à superfície ter aumentado”, diz, para referir que os ciclones obtêm a sua energia “através da temperatura do oceano”.

A questão desta catástrofe em Moçambique prende-se com o conceito de Ecojustiça. A verdade é que o hemisfério norte dominava a indústria no tempo da revolução industrial. Após ter percebido os efeitos nocivos para a sociedade e cidades tanto da poluição, saúde e sociais, as empresas do hemisfério norte transferiram as indústrias para a Índia, Blangladesh, Turquia, Tailândia ou China (basta ler as etiquetas dos produtos que se compram). Agora, está tudo salvo, mais tranquilo. Outras crianças deixam de ir à escola pela poluição das suas cidades – como aconteceu em Pequim –, já não as europeias, hoje outros rios são poluídos sem limite – como os desses países – não os europeus.

 

O ar não tem fronteiras

E todos, inclusivamente os que pouco contribuem para a indústria como Moçambique, sofrem as consequências enquanto nós consumimos. É justo? Claramente, não.

O ar não tem fronteiras. Tudo o que é emitido, vai para o ar, influencia correntes, oceanos e marés. É através da nossa compra que várias indústrias são alimentadas (desde a transportadora à que fabrica os pacotes, até ao produto). É por isso que a mudança climática parte de nós e não (apenas) das indústrias. Estas mudam quando deixarem de lucrar e somos nós que as fazemos lucrar na constante e contínua emissão de GEE (Gases com Efeito de Estufa) com o nosso constante e contínuo consumo dos seus produtos.

Temos de ser contra-corrente e pensar porque, como avisava António Guterres, “não estamos a vencer a corrida” contra as alterações climáticas. A mera opção de escolhermos, ao lanche, uma fruta ou algo natural a um produto que passou por uma indústria, que tem um pacote de plástico, papel ou metal industrialmente fabricado, traz consigo carradas de emissões de GEE (Gases com Efeito de Estufa) que causam estes fenómenos climáticos extremos. Falo de um lanche individual num dia da semana. E se acrescentarmos o lanche de toda a família? Das pessoas da rua? Da cidade? Do país? De um continente?

Os mais jovens são muito claros na sua mensagem: “Não deixes para depois o que precisa de ser feito agora – o planeta não espera”, “Não comemos petróleo nem respiramos dinheiro”,“a Terra esgotou a sua paciência e nós também”,“Faz pelo Clima”

Esta questão da Ecojustiça é um tema já há muitos anos trabalhado pelo Conselho Mundial de Igrejas (CMI). Norman Tendis, que se dedicava às questões da Ecojustiça e Sustentabilidade no CMI, partiu para Deus no trágico acidente na queda do avião da Etiopia Airines. Mas deixou um projecto em que trabalhou e pode ajudar nesta relação com a Criação de Deus, e que ia apresentar precisamente na 4ª assembleia para o Meio Ambiente, da ONU, em Nairobi, para onde se dirigia quando o avião caiu.

Agora que a catástrofe já passou, que há dinheiro e ajuda a chegar, é tempo de erguer os braços – não apenas das pessoas de Moçambique mas também os nossos, através da mudança de hábitos, no sentido de prevenir. Para que, quando outra catástrofe ocorrer, possamos dizer: não foi em meu nome que morreram, as minhas mãos não têm mais manchas de sangue. Fazêmo-lo se adoptarmos um estilo de vida ‘desperdício zero’, sem fazer lixo novo, reduzindo substancialmente o consumo de carne e optando por transportes públicos ou sem emissões de carbono. Pegar nas cinzas e construir uma vida nova.

Possa Deus compadecer-se de todos nós, como se compadeceu dos habitantes de Nínive.
E a Terra se salve, como a cidade de Nínive foi salva: pela transformação.

 

Catarina Sá Couto é missionária leiga da Igreja Lusitana – Comunhão Anglicana, “jovem líder” da Carta da Terra e representante em Portugal dos Green Anglicans – Rede Lusófona

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