O que acontecerá à religião após a pandemia?

| 12 Set 2021

Pieter Bruegel o Velho, Caritas

Pieter Bruegel o Velho, Caritas, 1559. Museu Boijmans Van Beuningen, Roterdão

 

O que acontecerá à religião após a pandemia? Como poderão as igrejas reagir ao declínio da sua influência direta num mundo ocidental cada vez mais secularizado, relativizado e individualizado? Conforme apontou Lluis Oviedo, professor de Antropologia Teológica na Pontifícia Universidade Antonianum de Roma, a religião tem sido tradicionalmente associada, entre outras, a três funções principais: dar significado ou sentido existencial, oferecer recursos para lidar com os tempos difíceis e dificuldades e, finalmente, estabelecer padrões morais juntamente com a motivação para os cumprir. Contudo, a ampla difusão de uma mentalidade secular compreende a religião como um conjunto de crenças e práticas que se tornaram na sua maioria redundantes, de pouca ou nenhuma utilidade nas sociedades avançadas. A religião ainda é útil ou podemos substituir as funções que lhe são atribuídas por novos meios e mais eficientes?

Numa sociedade que tem cada vez mais valorizado a economia e, acima de tudo a produtividade, a pandemia revelou a todos nós várias vulnerabilidades, começando pela própria vida humana até ao vazio de significados exposto por este materialismo extremamente consumista e que coloca em risco, não só a própria vida, como toda a sustentabilidade do planeta. Quando vemos algo que tem vindo a ser destruído, teremos rapidamente de o substituir por algo que cumpra melhor as suas funções. Será este o tempo oportuno para se construir um mundo melhor, mais sustentável e mais justo, com uma economia mais humana e uma ciência mais humilde.

A religião pode contribuir para esta tarefa, dando sentido e apoio em tempos difíceis, bem como promovendo a cooperação a partir de um quadro de inclusão. Mas as próprias instituições religiosas também estão e estarão em crise. Um dos grandes filósofos e teólogos europeus da atualidade, Tomáš Halík, tem alertado para o facto de que muitas das igrejas continuarão fechadas, mesmo num futuro não muito distante.

 

Tal não será devido somente a fatores externos como a atual pandemia, mas em parte por causa da relutância das igrejas levarem a cabo reformas profundas. No caso concreto do cristianismo, tem de se reconhecer que mais um capítulo da sua história está a chegar ao fim, sendo necessário que a Igreja se prepare para essa nova fase. Os cristãos não deverão preocupar-se tanto com a apologética e o proselitismo, em converter pessoas e confiná-las às instituições existentes da Igreja. O próprio Papa Francisco na sua exortação apostólica Evangelii Gaudium, encoraja igualmente àquilo a que ele chama de uma “Igreja em saída”. Uma Igreja que saia dos seus próprios limites e que se aventure com audácia nas franjas da sociedade, junto dos marginalizados, dos rejeitados, dos fracos, será talvez o ideário dessa igreja que o Papa preconiza face aos problemas que a Igreja atravessa nestes tempos.

Antes da institucionalização da Igreja e em tempos de crise, um dos fatores que contribuiu para o forte crescimento do movimento iniciado por Jesus Cristo eram os valores cristãos do amor e caridade, os quais eram traduzidos em normas de serviço social e solidariedade comunitária. Quando ocorreram os surtos epidémicos no segundo e terceiro século, os cristãos, além de terem tido maiores taxas de sobrevivência, ao estenderem o seu serviço social aos seus vizinhos pagãos, contribuíram em muito para a rápida disseminação do cristianismo no seio do Império Romano, apoiando-se essencialmente numa ética de serviço ao próximo.

Os tempos pós-pandemia terão de ser tempos de reencontro, cura, revigoramento e orientação para muitos sobrecarregados com o peso dos traumas e problemas acumulados ao longo de um ano de isolamento social. Contra uma certa cultura de individualismo e de egoísmo, os cristãos, como fizeram nos primeiros séculos, têm de exercitar a caritas, dando o que têm para ajudar o próximo, encontrando em cada rosto necessitado o do próprio Senhor, porque o têm de fazer de todo o coração como se fosse a Ele mesmo (Carta de Paulo aos Colossenses 3:23). É o tempo de oportunidade para a Igreja, portadora de palavras de esperança e de vida para um mundo que se deseja mais solidário, fraterno e justo.

 

Vítor Rafael é investigador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo, da Universidade Lusófona.

 

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