O que as religiões apregoam tem consequências?

| 16 Mai 2024

Líderes religiosos e políticos reunidos em Lisboa pelo Kaiciid: depois das declarações, há que ser consequentes. Foto © Kaiciid.  

Têm as religiões alguma palavra significativa para um mundo em conflito, em gravíssima emergência climática e que vive gigantescos problemas sociais no âmbito das desigualdades, educação ou saúde? Têm as religiões algo a dizer sobre isso, sobretudo quando sabemos que muitas guerras têm uma forte componente religiosa?

No Fórum promovido pelo Kaiciid em Lisboa, que o 7MARGENS acompanhou, todas as intervenções dos líderes religiosos presentes manifestaram a sua adesão aos princípios da paz, do respeito pelos direitos humanos e pela diversidade, da necessidade de construir relações mais fraternas entre comunidades diferentes. Mas isto, como dizia o ex-Presidente da Assembleia da República, Augusto Santos Silva, é o mais fácil.

Depois da retórica, é necessário ser consequente. Mesmo admitindo que não há pessoas perfeitas (nem grupos nem comunidades nem países perfeitos), é decisivo ter objectivos que tentem colocar em prática o que se anuncia. E, ao mesmo tempo, deve haver estratégias definidas para os atingir. Foi importante, aliás, ouvir as relevantes intervenções do imã da Grande Mesquita de Meca, Salih bin Abdullah al-Humaid, ou do rabi-chefe da Polónia, Michael Schudrich. O primeiro destacou a importância da compaixão, da diversidade e da recusa dos extremismos. Schudrich referiu de forma tocante o modo como aprendeu dos seus pais que nos outros grupos também há grandeza.

Podemos, num momento seguinte, questionar porque, apesar dos pequenos passos, ainda não há liberdade religiosa na Arábia Saudita ou porque tantos judeus valorizam tanto as mortes que o ataque terrorista do Hamas provocou em Israel, mas não manifestam a mesma veemência contra as mortes e destruição que o Exército de Israel está a provocar em Gaza. Mas isso pode fazer parte de um caminho de debate, questionamento e tomada de consciência da imperfeição das comunidades humanas.

Já o mesmo não se pode dizer da intervenção do xeque azeri Allahshukur Pashazade, que se referiu à intervenção militar do Azerbaijão no Artsakh (Nagorno-Karabakh) como uma operação de libertação de aldeias e cidades, quando é conhecido o bloqueio que durante meses o Azerbaijão impôs ao território ou a limpeza étnica que obrigou à fuga de milhares de arménios.

Como tantas outras vezes, há líderes religiosos que, em vez da condenação inequívoca da violência, a justificam, aliando-se a alguns políticos e usando argumentos supostamente religiosos (o exemplo mais recente é o do patriarca Cirilo, de Moscovo). E esse é um desafio que as diferentes religiões – que advogam o respeito pelas pessoas e a importância da paz – têm pela frente. A saber: recusar inequivocamente a violência, propor um mundo desarmado, educar para a não-violência. E fazê-lo não apenas através de organizações que fazem o bem a milhões de pessoas em todo o mundo, mas sobretudo pressionando os políticos a abordar os conflitos à mesa das negociações e não decidir pelos bombardeamentos e a destruição. Podem milhões de crentes, no mundo inteiro, estar envolvidos a fazer o bem; bastará um político autoritário ou oportunista para levar a guerra e o sofrimento a muitos milhões mais. Já sabíamos isso da história, estamos tragicamente a vê-lo de novo com Putin ou Netanyahu.

* * *

Grupo de bolseiros do KAICIID (Centro Internacional Rei Abdullah bin Abdulaziz para o Diálogo Inter-religioso e Intercultural), numa visita à Mesquita Central de Lisboa durante um seminário de formação de líderes, em Lisboa, 22 Fevereiro 2022. Foto © Nuno Patrício.

Grupo de bolseiros do Kaiciid, numa visita à Mesquita Central de Lisboa durante um seminário de formação de líderes, em Fevereiro 2022: alargar iniciativas de (re)conhecimento mútuo. Foto © Nuno Patrício.

Portugal não está imune, como percebemos nas últimas duas semanas, ao crescimento da violência e do ódio. Os casos do ataque racista no Porto (que mereceu uma condenação tardia do bispo da diocese) e da criança nepalesa agredida aí estão a mostrar-nos que a normalização do discurso de ódio começa a ter consequências trágicas. E a que a tolerância para com os que o propagam não é a estratégia que uma democracia deve ter. De facto, como várias vozes já notaram, quem está a criar insegurança é a extrema-direita com o seu discurso; e quem está a ser vítima dessa insegurança são os imigrantes que vêm trabalhar onde não queremos nós trabalhar, que contribuem para a Segurança Social, que ajudam a minorar a crise demográfica portuguesa, que nos ajudam a ser um país de horizonte mais largo.

Também aqui, por isso, há um papel importante que deve ser desempenhado pelas religiões. Ainda mais quanto é certo que o diálogo inter-religioso goza de um ambiente muito positivo em Portugal. Também é verdade que há instituições de várias tradições religiosas – católica, protestante, evangélica, muçulmana, judaica – empenhadas no acolhimento de estrangeiros, na solidariedade com os mais vulneráveis, na partilha de bens ou na promoção da justiça social. Mas pedem-se agora dois novos passos: que as comunidades religiosas aprofundem e alarguem a convivência entre crentes, de modo a aprender a (re)conhecer-se nas suas diferenças e proximidades; e que as lideranças religiosas tenham gestos públicos de proximidade, acolhimento da diferença e, de um modo especial, de acolhimento do estrangeiro.

A tradição bíblica está cheia de referências que são o oposto da linguagem de ódio e exclusão propalada pela extrema-direita. No Livro do Levítico, que terá sido escrito entre os séculos VI e IV antes de Cristo (ou seja, há cerca de 25 séculos), lê-se: (19, 33-34): “Se um estrangeiro vier residir contigo na tua terra, não o oprimirás. O estrangeiro que reside convosco será tratado como um dos vossos compatriotas e amá-lo-ás como a ti mesmo, porque fostes estrangeiros na terra do Egipto.” Poderia recordar-se ainda as admoestações do profeta Malaquias (3, 5) contra os que “roubam o salário do operário” e os que violam “o direito do estrangeiro”? Ou o pedido no Primeiro Livro dos Reis (8, 41-44) a que se atendam “todos os pedidos do estrangeiro”? Bem como o acolhimento que Jesus fazia aos ladrões, proscritos, adúlteros, prostitutas ou estrangeiros do seu tempo em Israel.

As restantes religiões têm nos seus códigos genéticos semelhantes valores. Daí que seja importante que os crentes apareçam, em Portugal, como uma grande corrente na defesa da dignidade humana, da recusa da violência (tanto que se se poderia fazer no combate à violência doméstica…) e a solidariedade profunda entre pessoas. O que se debateu nestes dias em Lisboa não pode ser alheio a um discurso e uma prática mais coerente dos crentes – e desde logo dos católicos, em primeiro lugar.

As guerras – na Ucrânia, em Gaza, no Iémen, na Síria, na Líbia ou em Cabo Delgado – também começam em nossa casa. Tal como o sonho de um mundo sem violência e sem armas.

 

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Na Casa de Oração Santa Rafaela Maria

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Estamos neste mundo, não há dúvida. Mas como nos relacionamos com ele? E qual o nosso papel nele? “Estou neste mundo como num grande templo”, disse Santa Rafaela Maria, fundadora das Escravas do Sagrado Coração de Jesus, em 1905. A frase continua a inspirar as religiosas da congregação e, neste ano em que assinalam o centenário da sua morte, “a mensagem não podia ser mais atual”, garante a irmã Irene Guia ao 7MARGENS. Por isso, foi escolhida para servir de mote a uma tarde de reflexão para a qual todos estão convidados. Será este sábado, às 15 horas, na Casa de Oração Santa Rafaela Maria, em Palmela, e as inscrições ainda estão abertas.

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