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Papa Leão aplaudido no Congresso dos Deputados, 8 junho 2026. Foto Vatican Media
O Papa Leão aplaudido nas Cortes (Parlamento) de Espanha: que significou esta aclamação? Foto © Vatican Media.

O que deixa Leão XIV em Espanha?

Vivi esta viagem à distância, uma vez que, precisamente, estive em Lisboa durante todo o tempo em que decorreu. Essa distância permitiu-me acompanhá-la fora do centro das atenções, com alguma perspectiva.

Terminei o meu artigo anterior nesta publicação da seguinte forma: «E não fiques muito frustrado, Papa Leão XIV, se, no final, as mudanças que poderiam ocorrer com a tua visita não forem tão significativas como gostarias. Tu também não és responsável por tudo, porque já somos adultos, tanto como cidadãos como enquanto crentes».

Com toda a modéstia, creio que foi um bom conselho porque, deixando de lado esses cidadãos – alguns crentes, outros não – que realmente ouviram e viveram a visita do Papa como um incentivo à sua fé ou ao seu compromisso cívico, para o resto, principalmente os políticos – não nos iludamos –, esta viagem foi um parêntesis do qual tirar proveito eleitoral.

Se a classe, ou melhor, a casta política do meu país, é motivo de vergonha, também é preciso reconhecer-lhe a grande capacidade de gerar mais vergonha. Aplaudir durante sete minutos e dois segundos no final da intervenção do Leão XIV na sessão conjunta do Congresso e do Senado apenas mostra duas possibilidades: primeiro, que cada um aplaudiu o que considerou ter sido dito para atacar os seus adversários políticos; segundo, que nenhum compreendeu o que ali foi dito e, consequentemente, não tinham ouvido e não sabiam quando parar de aplaudir.

Prestar atenção a esse discurso carregado de humanismo cristão, como não poderia ser de outra forma, deveria ter provocado uma reação mínima. Mas não foi assim. Enquanto Leão XIV voava para Barcelona e o eco da sua voz ainda ressoava no Congresso dos Deputados, os políticos voltaram aos insultos, ao tom áspero, à linguagem carregada de condenações e, o que para mim é pior, à utilização das palavras do Papa como arma de ataque.

Poder-se-ia esperar outra coisa? Dever-se-ia esperar outra coisa, mas era um sonho. Apesar disso, algumas horas mais tarde, alguns desses políticos, com o presidente do Governo à cabeça, apresentaram-se em Barcelona para a bênção da Torre de Jesus Cristo, traduzindo bem aquela expressão de que «Paris bem vale uma missa».

Longe de fazer desta viagem uma oportunidade de encontro, até mesmo as diferentes formas que a visita assumiu devido aos próprios motivos de cada cidade foram utilizadas para provocar confrontos. É muito difícil encontrar mais miséria humana do que na casta política espanhola.

Papa Leão aplaudido no Congresso dos Deputados, 8 junho 2026. Foto Vatican Media

Papa Leão aplaudido no Congresso dos Deputados, no dia 8 de junho: “A polarização continua. A culpa não é do Papa.” Foto © Vatican Media.

Também a presença de Leão XIV no Arquipélago das Canárias foi vista como oportunidade para obter ganhos políticos por parte de um Governo que nem nos piores momentos da migração apareceu por lá – exceto o presidente, Pedro Sánchez, para passar o verão em Lanzarote. Não há perigo: o entusiasmo pelos migrantes, recém-descoberto por alguns, durará até que o avião de regresso descole. A indiferença e o assédio de outros para com estas pessoas já se viram na sua ausência e nas suas propostas políticas que não mudaram nem uma palavra. Só estão preocupados com a sua «prioridade nacional», que cada vez mais se assemelha a uma prioridade «nazional».

Nem todo o esforço de Leão XIV, nem mesmo se ele falasse no Congresso dos Deputados de Espanha uma vez por mês, conseguiria elevar o nível moral e ético destes políticos. A casta política não sabe nem quer estar à altura. A polarização continua. A culpa não é do Papa.

Leão XIV não vai deixar de abordar, como já vimos na encíclica Magnifica Humanitas, as questões que afectam a sociedade em que vivemos, porque somos nós que fazemos com que seja assim. Temos um Papa que, evidentemente, vai dar prioridade às questões espirituais que não se reduzem ao intangível, mas que são a espinha dorsal da estrutura humana, mesmo que não se seja crente. Por isso, estará atento aos assuntos políticos, sociais, culturais, sociológicos e económicos. Quem quiser ouvi-lo, que o ouça.

Quanto à Igreja que Leão XIV deixa em Espanha, também não podemos pensar que ela vá mudar da noite para o dia. Se ainda há bispos que continuam a ver o Concílio Vaticano II como um perigo, se ainda há bispos que não sentem o mínimo de envolvimento com a sinodalidade, não podemos esperar que uma viagem papal mude tal realidade. No entanto, por que esperar dos bispos aquilo que é compromisso de todo o povo de Deus? Porque todos nós somos Igreja. Seria uma pena que esta viagem, como a de tantos outros papas, ficasse reduzida àquela multidão que acorre aos diversos eventos, grita frases mais ou menos rimadas e, depois?

«Levanta o olhar», o lema da viagem, não pode ficar só por isso. Tem de nos levar mais longe, porque significará sair de nós mesmos. Esta viagem deixa para todos nós um itinerário, um caminho de encontro traçado por momentos de dor e esperança; de solidão e beleza; de morte e do abraço de Deus. O Papa deixou-nos discursos, homilias, palavras, mas, acima de tudo, gestos.

Que deixemos de ser uma Igreja polarizada, não está nas palavras e nos gestos do Papa. Está na vivência profunda do Evangelho todos os dias, como também nos recordou Leão XIV. Sim, foi a viagem do Papa Leão XIV com as suas palavras e gestos, mas ninguém pode negar que com a música da Evangelii Gaudium, porque, não nos esqueçamos, já por três vezes neste primeiro ano do seu pontificado, ele repetiu que seria o seu documento programático.

O Papa Leão XIV percorrendo em procissão o centro de Madrid: “Não havia nenhuma mulher, espanhola ou não, em algum dicastério que integrasse a comitiva do Papa?” Foto © Vatican Media.

Cabe-nos agora percorrer os caminhos dos encontros. Se não o fizermos, também não será culpa do Papa.

Apenas duas questões me deixam com um sabor agridoce. A primeira pode parecer anedótica, mas não o é. Será que não havia realmente nenhuma mulher, espanhola ou não, em algum dicastério que integrasse a comitiva do Papa? Continuou-se a projectar uma Igreja tão masculina… A segunda é muito mais delicada: em toda a viagem, só foi possível conceder às vítimas de abusos sexuais pouco menos de uma hora? Algum bispo se apressou a declarar que as vítimas não eram o «mais importante» da viagem de Leão XIV. Infelizmente, uma questão de sensibilidades que também revelam pouca vontade de mudar o sentimento habitual.

Creio que se deveria abordar a possibilidade de dar a estas viagens apostólicas um ar menos protocolar, que desse lugar a um encontro de igual para igual em alguns dos encontros com certas pessoas.

De qualquer forma, a viagem terminou e ficou marcada pelo episódio da mudança de avião devido a uma avaria de última hora no aparelho que deveria levar o Papa de regresso a casa.

Obrigado, irmão Leão. Continua a acompanhar-nos ao teu estilo e à tua maneira e, acima de tudo, já sabes – e perdoa-me por insistir: não fiques muito frustrado se, no final, as mudanças que poderiam ocorrer com a tua visita não forem tão significativas como gostarias. Tu também não és responsável por tudo, porque já somos adultos, tanto como cidadãos como enquanto crentes.

Até à próxima, irmão Leão!!

 

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