
Rembrandt, O Regresso do Filho Pródigo.
O que Deus uniu… Como podemos permitir que esta frase seja usada quase exclusivamente no ritual do casamento? Deus nos une em tudo porque nos une na vida e para a vida. Estar unidos por e em Deus significa que temos uma origem comum que é o seu amor em criar-nos; significa também que temos um destino comum, que é o de acabar fundidos no Amor que nos criou por amor.
Entre a origem e o destino há um tempo intermédio em que tendemos a complicar as nossas vidas, porque ainda não apanhámos bem o jeito daquilo a que chamamos liberdade e andamos ora a acertar ora a enganarmo-nos; agimos bem e outras vezes mal; ouvimos conselhos ou fazemos ouvidos moucos…
Tudo isto que acontece na vida, também nos acontece na Igreja e na Igreja concreta, nessa pequena parcela em que cada um de nós contribui e dá e partilha com os outros, e que pode ser o nosso movimento, a nossa paróquia, a nossa confraria ou irmandade e, claro, a nossa diocese.
A diocese engloba tudo o que foi referido anteriormente e, por vezes, há circunstâncias na diocese que podem levar a um sério perigo de divisão, desunião e até de confronto.
O irmão mais velho rígido
Todos conhecemos a parábola do filho pródigo, do bom pai ou do rígido irmão mais velho, como cada um preferir chamar-lhe. Há três elementos nela – por vezes falei e escrevi sobre eles – que tendem a passar um pouco despercebidos. Estes elementos são a túnica, o anel e as sandálias.
O que o pai oferece ao filho mais novo não são meros ornamentos. São os elementos com os quais, no tempo e na cultura de Jesus, ficava demonstrado o perdão total face a uma situação que poderia romper, neste caso, a unidade familiar. E, por ventura, não somos nós na Igreja uma família?
Perdoado e herdeiro
Estes três elementos desta parábola assinalam que o filho que tinha delapidado a herança não só foi perdoado, como também se tornou herdeiro novamente porque, ter uma túnica (uma roupa decente para se cobrir) era sinal da bênção de Deus; o anel era o símbolo que o credenciava como membro da família a que pertencia; as sandálias eram o elemento que servia para fechar os pactos de compra e venda de terras e muitas outras trocas (Rute 4,7).
Assim, o filho que tinha delapidado a herança viu-se abençoado com a túnica, readmitido na família com o anel, e podendo exercer as funções de administrador – junto com o seu pai e o seu irmão – tendo sandálias para entregar como sinal de pacto.
Aprender
De um perdão assim e sem pensar, só Deus é capaz. O filho mais novo não tinha só delapidado a sua herança, pois essa herança não era só sua, fazia parte do património da família. O filho mais novo aprendeu. É de esperar que algum eco tenha chegado àqueles que o aconselharam ou ajudaram a agir desta maneira e também tenham entendido o perdão.
Perdoar é difícil. Pedir perdão também. Em ambos os casos, é necessário um processo que leva o seu tempo. Perdoar não significa esquecer. É assumir o dano recebido e não o devolver. Pedir perdão significa reconhecer e assumir as consequências do mal causado.
Tempo de purificação
Se estes processos forem mal vivenciados, o risco de nos quebrarem é imenso; se os vivermos bem, pode ser um tempo de purificação, de limpeza das teias de aranha que nos enredam sutilmente, mas nos enredam tremendamente, perdendo de vista o objetivo principal que é tornar o evangelho de Jesus Cristo uma realidade entre todos.
Não é fácil e eu sei, no entanto, se não tentarmos com todas as nossas forças, e se nos deixarmos levar pelos primeiros sentimentos que algumas situações provocam em nós, que diferença haverá entre o rígido irmão mais velho, e nós? Não sabemos se ele foi ou não à festa que o seu pai tinha preparado para o seu irmão. É a grande incógnita da parábola.
Fortes na fragilidade
Situações como esta testam-nos a todos e, contudo, são também um momento de oportunidade excepcional. Por um lado, aprendemos como é fácil fraturar e dividir, e como é difícil recriar a comunhão. Por outro lado, é-nos apresentada a possibilidade de aprender a ouvir-nos uns aos outros, de confiar uns nos outros, de crescer como uma família, de nos unirmos para seguir em frente ou para partilhar o que a vida nos traz.
Deus criou-nos para a unidade que nos torna fortes mesmo na fragilidade. Deus criou-nos para a unidade que nos torna próximos, e atentos uns aos outros, e compreensivos, e sinceros, e irmãos!
Como disse na meditação de abertura do Sínodo em Outubro do ano passado, “esse mesmo Jesus que não nos deixou normas ou estruturas sobre como ser Igreja, deixou-nos um modo de vida com o qual construir aquela Igreja chamada a ser um porto seguro para todos; um lugar de encontro e de diálogo intercultural, um espaço de criatividade teológica e pastoral para afrontar os desafios que enfrentamos. Em suma, ser a Igreja – Lar que todos desejamos”. Que desafio apaixonante!
Essa forma de vida está no nosso ADN cristão porque Deus no-la deu na criação. Por isso, é melhor crescer em comunhão do que jogar mal com o que Deus uniu…
Cristina Inogés Sanz é teóloga e integra a comissão metodológica do Sínodo dos Bispos católicos. Este texto é publicado por cedência da autora e da revista espanhola Vida Nueva ao 7MARGENS. Tradução de Júlio Martin.










