“O que diz o Espírito às igrejas”

| 17 Set 2022

Casa da Torre (Soutelo, Braga), dos jesuítas. Foto © Companhia de Jesus.

 

Há cerca de 1800 anos que uma hierarquia eclesiástica (clerical), assumindo, por si e para si, o poder da sucessão apostólica, dividiu os cristãos em dois estatutos: clérigos e leigos. Ordenando-se por uma sacralização sacerdotal, como clérigos, tornaram-se os detentores e administradores do poder sagrado, administradores do “sacramento” e da graça, únicos intérpretes autorizados da palavra de Deus, pastores de um rebanho em risco de se tresmalhar. Os demais cristãos, como leigos, para não se tresmalharem do rebanho eclesiástico, terão de ser dóceis a tais pastores, recetores do “sacramento” que só estes administram, e passivos ouvintes da palavra de Deus e do sentido que os pastores lhe dão, interpretada por sábias teologias.

Só passados cerca de 1800 anos, os cristãos leigos, muito ou pouco dóceis ao poder clerical, foram, pela primeira vez, solicitados pela hierarquia clerical a pronunciar-se sobre o que entendiam, desejavam e esperavam do “caminho” cristão da Igreja. Só agora a hierarquia eclesiástica entendeu que, para o seu sínodo (clerical), o Espírito Santo poderia querer dizer-lhe alguma coisa pela voz dos leigos. Antes, pressupunha-se que o Espírito Santo só chegaria à Igreja por mediação clerical.

No entanto o Espírito Santo já se havia manifestado, claramente, desde o início das igrejas:

1 – “Pedro ainda estava a falar, quando o Espírito Santo desceu sobre todos os que ouviam a palavra. Os fiéis de origem judaica, que tinham ido com Pedro, ficaram admirados por o dom do Espírito Santo também ser derramado sobre os pagãos.” Depois Pedro constatou que “estas pessoas receberam o Espírito Santo da mesma forma que nós recebemos”, mesmo sem serem batizados (ac.10,44-47). Pedro já havia verificado e dito: “De facto, agora compreendo que Deus não faz diferença entre as pessoas, pelo contrário, ele aceita quem o teme e pratica a justiça, seja qual for a nação a que pertença” (Actos dos Apóstolos 10, 34-36).

Isto aconteceu em Cesareia, quando Pedro foi chamado pelo pagão centurião Cornélio, a quem não devia atender, porque, como lhe explicou: “Sabeis que é proibido a um judeu relacionar-se com um estrangeiro ou entrar em sua casa. Deus, porém, mostrou-me que não se deve dizer que homem algum é profano ou impuro.” (Act. 10, 28). A Pedro repugnava-lhe desobedecer a uma lei discriminatória, mas o espírito fez-lhe compreender que a dicotomia sagrado/profano não tem lugar em qualquer dos seres humanos, porque para Deus essa diferença não existe.

Já antes o mesmo Pedro repetira a profecia de Joel: “Eu derramarei o meu espírito sobre todas as pessoas; os vossos filhos e filhas vão profetizar, os jovens terão visões e os anciãos terão sonhos” (Act 2,17).

2 – “Tende uma só aspiração, um só amor, uma só alma e um só pensamento… os mesmos sentimentos que havia em Jesus Cristo: ele tinha a condição divina, mas não se apegou à sua igualdade com Deus, pelo contrário, esvaziou-se de si mesmo, assumindo a condição de servo e tornando-se semelhante aos homens, assim, apresentando-se como simples homem, humilhou-se a si mesmo, tornando-se obediente até à morte” (Filipenses 2, 2-9).

O apóstolo Pedro, ao ser venerado de joelhos pelo centurião Cornélio, foi claro: “Levanta-te, eu também sou apenas um homem” (Act. 10, 26). Pedro não se sacralizou. Fundadas sobre a rocha de Pedro, as igrejas teriam de falar como Pedro.

Jesus dessacralizou-se, mas as hierarquias eclesiásticas, desde finais do primeiro século iniciaram o caminho inverso ao de Jesus, de simples homens foram-se alcandorando a uma sacralização e sacerdotalização que não encontra nenhum fundamento na prática dos apóstolos, nem na prática dos que eles deixaram como presidentes das comunidades que fundavam, e que não consta dos carismas descritos pelo apóstolo Paulo, e que ele mesmo, Paulo, nunca assumiu. Paulo deixava as comunidades desenvolverem-se por si mesmas e ia testemunhar, fundando outras.

Será credível que o Espírito Santo (de Jesus) tenha mudado de “espírito”?

3 – Quando os mais íntimos dos apóstolos disputavam lugares privilegiados no reino, Jesus disse como seria o seu poder: “Sabeis como aqueles que se dizem governadores das nações têm poder sobre elas, e os seus dirigentes exercem sobre elas a sua autoridade, mas entre vós não deverá ser assim… o filho do homem não veio para ser servido, ele veio para servir e para dar a sua vida” (Marcos 10, 42-45).

Como se justificarão as estruturas eclesiásticas (clericais) moldadas pelos sistemas administrativos, políticos e militares, quando o espírito de Jesus era converter, comunitariamente, esse tipo de estruturas (dominadoras) mundanas?

4 – Quando Jesus condenava os comportamentos farisaicos, manifestando-se até nas vestes, com “faixas largas… longas franjas”, que “gostam dos lugares de honra nos banquetes e dos primeiros lugares nas sinagogas, gostam de ser cumprimentados nas praças públicas e que as pessoas lhes chamem mestres. Quanto a vós nunca vos deixeis tratar por mestre. Pois um só é o vosso mestre, e todos sois irmãos. Na terra não chameis ‘padre’ a ninguém, pois um só é o vosso pai» (Mateus 23, 5-10).

As sábias teologias e a tentação de poder e de prestígio não se terão sobreposto à aprendizagem simples e mútua dos comportamentos de conversão evangélica, que o Espírito sopra, sem fazer diferença entre as pessoas?

 

José Veiga Torres, nascido e batizado na paróquia de Santa Maria Maior, da cidade de Viana do Castelo, a 30 de Agosto de 1930, reside em Coimbra. Contacto: joseveigatorres@sapo.pt

 

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