
“A chamada paz positiva propõe não apenas tratar os sintomas imediatos do conflito, mas, acima de tudo, transformar as causas mais profundas da violência, promovendo um ambiente pacífico e sustentável.”
Não existe um consenso académico e científico sobre o termo paz atualmente, e muito varia de autor para autor. Mas, de um modo geral, com base no sociólogo norueguês Johan Galtung, costuma-se distinguir entre paz negativa e paz positiva. A primeira refere-se apenas à ausência de violência visível, enquanto a segunda exige a criação de condições que favoreçam a justiça, a equidade e a cooperação duradoura entre todos os seres e estruturas.
A chamada paz positiva propõe não apenas tratar os sintomas imediatos do conflito, mas, acima de tudo, transformar as causas mais profundas da violência, promovendo um ambiente pacífico e sustentável. Esta ideia assenta, em grande parte, nos princípios defendidos por figuras como Gandhi, que acreditava que a paz envolve minimizar ao máximo os danos inevitáveis da nossa própria existência. Como ele aludia, até o simples ato de caminhar pode, sem intenção, pisar uma planta ou um inseto, representando, para esses seres, um ato de violência. Segundo ele, eliminar totalmente qualquer forma de violência é impossível, mas, através da compaixão e do autocontrolo, é possível reduzir os seus efeitos ao mínimo. Esta ideia, profundamente enraizada no seu pensamento, reflete, em grande medida, a mensagem que parece orientar, de forma direta ou indireta, uma boa parte dos estudos científicos e académicos da paz nos dias de hoje.
Esta visão moderna da paz está alinhada com os valores defendidos pela comunidade internacional. A paz vai muito além do fim das guerras: exige justiça, liberdade e progresso para todas as pessoas, independentemente das suas diferenças. Mais do que um objetivo estático, trata-se de um processo contínuo que promove o diálogo, o respeito mútuo e a compreensão entre culturas.
No entanto, os desafios atuais são imensos. Problemas como as mudanças climáticas e o avanço da inteligência artificial representam ameaças emergentes, que parecem evoluir mais rapidamente do que o próprio conceito de paz e as soluções propostas. A verdade é que, enquanto a paz está em constante redefinição, as ameaças a essa paz avançam a um ritmo ainda mais acelerado, o que frustra cientistas e académicos que tentam acompanhá-las.
Por isso, em suma, o conceito de paz está sempre a evoluir, mas as ameaças à paz têm evoluído ainda mais depressa…
Abílio Almeida é doutorado em Ciências da Comunicação pela Universidade do Minho e investigador integrado do Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade da mesma instituição. É autor do livro História do Riso (2022), resultante da sua investigação doutoral.










