AGENDA

SOBRE NÓS

ASSINAR

APOIAR

Empatia. Médico
Foto © National Cancer Institute / Unsplash

Sete Partidas

O que é preciso é ter saúdinha…

 

Ontem de manhã fui à ginecologista para uma consulta de rotina. O consultório tem um ambiente muito cuidado, com móveis caros e obras de arte nas paredes, mas as assistentes irritam-me sempre, porque atendem as pessoas de forma mecânica, antipática e arrogante, dão ordens secas, não fazem um único sorriso. Fazem-nos sentir como se tivéssemos ousado entrar numa Chanel ou numa Valentino (as lojas ali ao lado) sem termos cara de jovem esposa de um oligarca russo.

Enquanto esperava, liguei para um otorrino na parte Oxfam da mesma rua (é a avenida Ku’damm, há muita diversidade ao longo dos seus 3,5 km) para saber de uma vacina covid, fui atendida de forma extremamente simpática, e disseram-me para aparecer a meio da tarde, mesmo sem marcação.

O consultório tinha paredes vazias, cadeiras sólidas e sem graça, alguns brinquedos. E duas senhoras extremamente simpáticas na recepção. Uma delas usava hijab. A terceira, que veio falar comigo para me explicar que sou uma velhinha muito jovem e portanto devia tomar a vacina mais leve da gripe, era ainda mais simpática e calorosa que as da recepção.

Não resisti a fazer um comentário:
– Há algo neste consultório que o torna muito diferente dos outros…

– É por termos muitas crianças?
– Bem, estava a pensar na maneira calorosa como tratam as pessoas.

Ela sorriu.

Daí a pouco chegou o médico. Vacinou-me, falou um pouco, contei-lhe que este mês não posso apanhar gripe nem covid porque está a decorrer o Portuguese Cinema Days in Berlin, ele explicou que estas vacinas não me livram de apanhar as doenças, mas limitam os estragos, e depois quis saber mais sobre a nossa mostra de cinema. Dei-lhe um flyer, ele folheou, chamou a mulher (era a terceira senhora que me tinha atendido), pediram-me recomendações dos filmes, e saí de lá feliz da vida a pensar:

– Será que também fazem ginecologia?

No metro, de regresso a casa, apareceu uma pessoa sem-abrigo a pedir esmola. Desculpei-me por não ter dinheiro para lhe dar.
– Deixe lá, – respondeu ele. – Esse seu sorriso vale mais que muitas moedas. Já me animou o dia!

Estas historietas da vida real reforçam uma convicção que tenho há muito: para resistir à angústia generalizada e à corrosão do tecido social no nosso tempo, não nos é exigido ser nem super-heróis nem mártires. Basta um sorriso acolhedor, um olhar atento e sereno – e o mundo daqueles que se cruzam connosco fica instantaneamente melhor.

 

Helena Araújo vive e trabalha em Berlim e é autora do blogue Dois Dedos de Conversa, onde o presente texto foi originalmente publicado.

 

Últimas Notícias

Últimas Notícias

Último desejo de Francisco: os bolinhos da amiga Jacoba

Ano jubilar-800 anos da morte (8)

Último desejo de Francisco: os bolinhos da amiga Jacoba novidade

O Papa Leão XIV proclamou, desde 10 de janeiro e até final deste ano, um ano jubilar assinalando os 800 anos da morte de Francisco de Assis, ocorrida em 3 de outubro de 1226 – a festa litúrgica é assinalada dia 4. Com esse pretexto, o 7MARGENS publica, até final do ano, nos dias 3 ou 4 de cada mês, uma série de dez textos da autoria de frei Isidro Lamelas, da Ordem dos Frades Menores, professor de Teologia. Este é o oitavo texto da série.

7MARGENS é um jornal digital
de Religiões, Espiritualidades e Culturas

Propriedade de Associação Porta 18 [ACSFL]
R. da Páscoa, 12 – R/C Dtº – 1250-179 Lisboa | NIPC: 514 876 905
Redação Lisboa: Largo da Luz, 11, 1600-764 LISBOA
IBAN: PT50 0035 0675 0004 6941 7308 1 (CGD)

O 7MARGENS aceita e incentiva a colaboração escrita, em vídeo ou audio dos seus leitores.
Reserva-se o direito de os difundir ou não e aconselha que os textos não excedam os 4.000 caracteres.

Pin It on Pinterest

Share This