
O livro estará à venda a partir da próxima quinta-feira, 17.
O Que É Que Eu Estou Aqui A Fazer? (edição Tinta-da-china) é o título do livro que, em forma de entrevista, coloca o jornalista João Francisco Gomes à conversa com o humorista Ricardo Araújo Pereira, sobre temas como Deus, o humor (particularmente o de Jesus), a morte e a fé.
No prefácio, o cardeal José Tolentino Mendonça escreve: “Gostaria de afirmar o respeito pela posição ateia de Ricardo Araújo Pereira. Nela pode existir certamente um elevado padrão moral, uma busca sincera da verdade ou até formas de espiritualidade. Revejo‑me em particular nisso que afirma sobre não ser indiferente morrer com a consciência de ter procurado o bem em vez do mal”.
Tendo estudado em escolas religiosas, Ricardo Araújo Pereira fala muitas vezes em público sobre essa sua convicção, incluindo em debates entre crentes e não‑crentes.
O humor, na sua relação com as religiões, a Bíblia e a história da Igreja Católica, é um dos temas frequentes na reflexão de Ricardo Araújo Pereira. Além de ter uma coleção de Bíblias e inúmeros livros sobre religião, admite que humor e religião têm algo em comum: talvez sejam respostas paralelas às grandes inquietações da Humanidade.
Neste livro – que estará à venda a partir da próxima quinta-feira, 17, e do qual reproduzimos em seguida um excerto – fala também da educação católica, do debate filosófico sobre a existência de Deus, dos pontos de contacto entre a comédia e a teologia, e da relação desconfiada entre a religião e o riso e a inevitabilidade da morte.

Ricardo Araújo Pereira durante a apresentação do novo livro no festival FÓLIO, em Óbidos, no passado sábado. Foto © FÓLIO
(…)
RICARDO – É uma estratégia muito frequente em Jesus. Ele tem uma especial afeição por essa ideia de contrastes: os últimos serem os primeiros, mais fé onde ela é menos provável, as companhias de que ele se rodeia… De facto, é uma estratégia humorística. Não quero ofender o Messias, mas é uma estratégia humorística. Não sei se já teve oportunidade de deitar a mão a algum livro sobre o humor na Bíblia ou sobre as relações do humor com Deus – essa é uma das pontes sempre assinaladas.
JOÃO – Jesus como humorista?
RICARDO – Não só Jesus como humorista, mas o humor como qualquer coisa que partilha a estrutura da fé, no sentido em que tem uma espécie de amor pelo paradoxo que é, mais ou menos, o evidenciado por Jesus, sobretudo na segunda passagem – na ideia de descobrir a fé no sítio improvável, de amar o pecador, de não rejeitar e às vezes até preferir a companhia dos tradicionalmente impuros, de ver a pureza no impuro. Essa atitude paradoxal é central na comédia.
Tenho estado a pensar na diferença entre o herói trágico e o herói cómico. Se calhar vou aproveitar o Hamlet para isso, porque aquele problema que ele tem sobre o confronto entre «ser ou não ser» é o problema do herói trágico. Acho que o problema do herói cómico é «ser e não ser». Ou seja, muda o «ou» para «e», porque me parece que o procedimento do herói cómico é simultaneamente ser e não ser. Por várias razões. Em primeiro, por causa do tal amor ao paradoxo.
Na comédia, o paradoxo é virtuoso, é criador. Na filosofia normal, eu não posso dizer «A» e «não‑A». «A» é igual a «A» e acabou‑se. Não posso dizer «a minha camisa é azul e vermelha». [Ricardo Araújo Pereira diz isto enquanto aponta para a camisa, que é integralmente azul.] Na comédia, isso não só é lícito como é virtuoso: a ideia do paradoxo, de uma coisa ser ela mesma e o inverso.
JOÃO – E acha que Jesus, no seu processo de, digamos, implosão das normas e leis da religião judaica, usa essa abordagem do humorista? De expor os paradoxos?
RICARDO – Isso, acho eu, envolve também a implosão da lógica ou, pelo menos, a implosão da lógica vigente. Há um capítulo sobre isso neste último livro que saiu agora, sobre a figura do trickster. [Na altura da gravação desta conversa, em junho de 2024, tinha acabado de sair o segundo volume de Coisa Que não Edifica nem Destrói, livro editado pela Tinta‑da‑china e baseado no podcast homónimo de Ricardo Araújo Pereira.]
Na imaginação das pessoas que falam português, referimo‑nos a essa figura como o malandro – sobretudo os brasileiros. É um espírito que está presente, por exemplo, nas anedotas do Bocage, que corporiza muitas vezes essa ideia do trickster.
Há uma personagem do Médio Oriente chamada Nasreddin Hodja, que é avassaladoramente popular. Aliás, há estátuas do Nasreddin de Bruxelas até ao Cazaquistão. Normalmente, é sempre a mesma estátua: um homem montado num burro em que o burro está virado numa direção e o homem está virado na outra. É uma história célebre do Nasreddin Hodja. Ele é apanhado assim na rua, as pessoas dizem «porque é que vais ao contrário?» e ele responde «eu estou certo, o burro é que está ao contrário». Ele protagoniza várias histórias desse tipo. Está à procura de uma coisa na rua: «Estás à procura de quê?» «Das minhas chaves.» «Onde é que as perdeste?» «Dentro de casa.» «Porque é que estás à procura delas na rua?» «Aqui há mais luz.»
Esta lógica dele é muito diferente da nossa. Ele é burro ou é extremamente inteligente? É ou não é verdade que é mais ajuizado procurar coisas onde há mais luz, onde se consegue ver, do que onde não se consegue? Essa implosão da lógica é muito frequente na comédia, como ilustra este tipo de herói. É aquilo que lhe dizia sobre ser e não ser ao mesmo tempo. Isto parece-me definidor de uma espécie de atitude humorística, por contraponto com a atitude convencional.

Estátua de Nasreddin Hodja, em Schaerbeek, Bélgica. “As pessoas dizem ‘porque é que vais ao contrário?’ e ele responde ‘eu estou certo, o burro é que está ao contrário'”. Foto © Yamen, via Wikimedia Commons
JOÃO – E parece-lhe que, durante séculos, a Igreja Católica – para falar da principal instituição do Cristianismo – foi incapaz de ver em Jesus também um cómico?
RICARDO – É possível que sim. Até por essa razão: por terem ficado agarrados – e não sei se isso não se verifica ainda – à lógica convencional. Porque a lógica convencional é respeitável, ao contrário daquela que eu acabei de descrever… Não sei se deteta, em histórias como a do Nasreddin Hodja, a mesma atitude que gera perplexidade que se verifica na passagem dos cachorrinhos. Portanto, é possível que Jesus seja demasiado até para a sua Igreja.
JOÃO – E tenha sido incompreendido.
RICARDO – Sim.
JOÃO – Há pouco perguntava‑me se já me tinha cruzado com algum livro sobre esta relação entre Deus e o humor. Li recentemente um que até pode ser considerado bastante ortodoxo, porque é escrito por um padre, o jesuíta americano James Martin. Chama ‑se Deus Ri: Alegria, Humor e Riso na Vida Espiritual. A dada altura, ele defende não apenas que Jesus Cristo riu durante a sua vida humana – senão não teria sido um ser humano – mas que usava a comédia com grande frequência nos discursos.
Por outro lado, ele teoriza que é possível que isso não tenha ficado registado nos evangelhos porque os evangelistas teriam seguido as regras usadas naquela época para escrever biografias de figuras importantes: colocavam a ênfase na virtude da pessoa. Outra hipótese que ele coloca é que a Igreja primitiva, logo nos primeiros séculos, possa ter expurgado os textos das suas referências ao humor de Jesus. Mas ele tem outro argumento que acho muito interessante. Mesmo quando olhamos para os evangelhos que chegaram até nós, podemos perceber a inclinação de Jesus para o humor:
Alguns trechos das parábolas […] não se limitavam a ser inteligentes; eram divertidos aos olhos do público do século I. Na verdade, a própria incongruência das parábolas – a natureza inversora, aparentemente absurda da sua mensagem [os pobres são ricos; os ricos são pobres; os cegos veem; os que têm vista são cegos] é puro material de comédia. O absurdo é ainda mais rico quando os ouvintes se apercebem de que as ideias de Jesus são, de facto, verdadeiras. Mas passamos frequentemente ao lado desse aspeto dos Evangelhos. […] Na Palestina do século I […], é muito provável que as pessoas se tivessem rido de muitos dos exemplos intencionalmente ridículos apresentados por Jesus, como a ideia de alguém acender uma lâmpada para a pôr debaixo de um cesto, ou a de alguém construir uma casa sobre areia, ou a de um pai oferecer pedras a um filho em vez de pão. […] Podemos estar a passar ao lado de grande parte do humor pretendido por Jesus, o qual era compreendido pelo seu público nas suas parábolas.
Parece‑lhe interessante que um padre escreva esta perspetiva?
RICARDO – Se calhar, não é surpreendente que isso ocorra hoje, num momento em que é incontestável que o sentido de humor é considerado uma virtude. Hoje, creio que não há ninguém que se apresente dizendo «eu não tenho qualquer sentido de humor». Não passaria pela cabeça de ninguém dizer isso. Ou dizermos: «Gosto imenso dele, pá. Não tem nenhum sentido de humor.» Hoje em dia, o sentido de humor é considerado uma virtude e encontramos isso em várias ocasiões da vida – e não me refiro apenas aos momentos em que as pessoas são convidadas a dizer que características prefeririam num cônjuge e essa é uma das primeiras. Hoje, é considerado uma das virtudes, mas não necessariamente naquela altura. Nem há cem anos.

O padre jesuíta James Martin defende não apenas que Jesus Cristo riu durante a sua vida humana, mas que usava a comédia com grande frequência nos discursos. Foto © António Marujo.
JOÃO – O que acho curioso neste excerto do padre James Martin é ele imaginar que há dois mil anos aquela gente estava a rir‑se.
RICARDO – Aquela gente estava a rir. Talvez também seja o costume: a ambiguidade do riso. Aquela gente estava a rir‑se e isso pode ser entendido como estando a aderir, porque o riso é agradável e as pessoas seguem aqueles que os fazem rir, como felizmente…
JOÃO – … acontece com a sua profissão!
RICARDO – Exatamente! Ou – coisa que também se encontra na Bíblia – as pessoas estão a rir escarnecendo. Aliás, o Deus do Antigo Testamento, normalmente, quando ri, é para castigar. Há o salmo 22, de que já falámos [no capítulo III do livro], do «porque me abandonaste». Ou o primeiro salmo, que logo no primeiro verso diz:
Feliz o homem que não vai ao conselho dos injustos, não para no caminho dos pecadores nem se senta na roda dos zombadores.
É curioso. Estes primeiros versos do primeiro salmo, que dizem que «feliz é o homem que não se senta na roda dos zombadores», na generalidade das traduções que eu conheço, incluindo as inglesas, dizem «mockers», ou seja, «zombadores». Mas a tradução do professor Frederico Lourenço diz «nem se senta na roda dos pestilentos». Não diz dos «zombadores». Não sei se hei de ficar satisfeito com isso, porque não é zombadores que lá está, mas pestilentos…
JOÃO – Ou se há uma equivalência.
RICARDO – Ou se há uma equivalência em que zombador e pestilento são sinónimos. A que propósito vinha isto?
JOÃO – Estávamos a falar da ambiguidade do riso e também de um Jesus comediante incompreendido.
RICARDO – Tendo em conta a ambiguidade do riso, podemos considerá‑lo como um sinal positivo, de admiração, até de adesão à mensagem, ou um sinal negativo de escárnio sobre o outro, de superioridade, de distanciamento.

“O Deus do Antigo Testamento, normalmente, quando ri, é para castigar”, assinala Ricardo Araújo Pereira. Foto © FÓLIO
JOÃO – Se a Igreja tivesse tido maior capacidade para reconhecer a dimensão cómica de Cristo, haveria uma maior possibilidade de o Ricardo ser um católico? Ou nem por isso?
RICARDO – Boa pergunta. Acho que me continua a faltar um aspecto essencial, que é a fé. A sua pergunta é se ela deixaria de faltar?
JOÃO – Ou se, pelo menos, teria a porta mais aberta.
RICARDO – É possível. A história do mundo seria bastante diferente.
JOÃO – Menos gente queimada em fogueiras…
RICARDO – Acho que sim. O humor, o riso, tem muitos defeitos, certamente. Mas tem uma virtude, que é o facto de ser antidogmático, antifanático. Isso é muito estimável. Aliás, naquele debate do qual já falámos aqui, entre o Jorge de Burgos e o Guilherme de Baskerville, uma das coisas que o Guilherme de Baskerville assinala é isso: o facto de o outro ser um fanático e de uma das razões para ele rejeitar o riso ser exatamente essa. Ele é inimigo dessa característica que o riso tem – essa característica antidogmática, antifanática do riso.










