Integrar o Grupo de Trabalho para o Diálogo Inter-Religioso (GT-DIR) tem sido uma experiência muito gratificante aos mais diversos níveis. É extraordinário ver como, no seu seio, representantes das 13 principais confissões religiosas que se encontram a nível nacional conseguem dialogar, organizar eventos, partilhar ideias e encontrar pontos de encontro e de acordo.
Em todas as ocasiões é a nossa humanidade partilhada que sobressai, a cada momento é o amor que é o fulcro de todas e cada uma das nossas crenças que ressalta, e é o humor que polvilha as nossas conversas, trazendo sempre aquela perspetiva desarmante que a todos enriquece e tudo atenua.
E, contudo, noutras ocasiões e noutras paragens, quando o meu entusiasmo me leva a partilhar notícias, eventos ou propostas que vêm da parte de alguma das comunidades budistas que sigo, há um frisson que se gera, uma desconfiança que se desperta e que leva a um comportamento, ainda que como subterfúgio, de uma postura de defesa de quem se sente em perigo. E quem se sente em perigo, é porque sente desconfiança, e quem sente desconfiança e perigo, sentirá tendencialmente hostilidade. Por conseguinte, num cenário mais ao nível do subconsciente ou do consciente, passamos rapidamente para uma situação de «nós ou eles», de oposição, de debate, de… guerra.
E de cada vez que tal sucede, para minha total infelicidade e esmorecimento, aquilo que sinto vontade de verbalizar é apenas isto: isto não é uma guerra! É natural que, nados e criados no seio de uma determinada cultura, cultura essa informada por determinada religião, se possa sentir um estranhamento por aquilo que não nos é familiar, e é, infelizmente, traço educativo habitual passarmos às nossas crianças o temor pelo desconhecido como lição protetora com a qual nos imaginamos a lançar um escudo invisível sobre elas.
Permitam-me que introduza aqui um parêntesis sobre esta tendência educativa para apontar sempre o desconhecido como o inimigo número um. Daquilo que sei sobre situações tão penosas como as de abuso e pedofilia, são muitas vezes pessoas íntimas da família, familiares mesmo, ou figuras de autoridade, as grandes perpetradoras destes crimes. Por esta razão, sempre procurei ensinar os meus filhos a saber distinguir comportamentos e sentimentos e não pessoas. Aquele ou aquela de quem me devo afastar será aquele ou aquela que me fizer sentir desconfortável, que me procurar tocar onde não é habitual que me toquem, e que me diga para «não contar a ninguém» – familiar ou amigo da família, alto ou baixo, importante ou insignificante, feio ou bonito.
E, contudo, dizia eu, na maior parte dos casos, o bicho papão é o estranho. É compreensível que assim seja. Mas pergunto se não podemos estar a construir visões do mundo que nos levam a encolher, desconfiar e agredir aquilo que é simplesmente diferente, para não repararmos que o inimigo, pode estar, na verdade, mesmo aqui ao lado.

Holy, santo. Foto © Chris Liu/Pexels
Vem isto a propósito da reação de apreensão a que assisto quando refiro eventos ou ensinamentos do Buda. E da rápida postura de apreensão e agressão vinda de quem, de acordo com as suas crenças e vivências, dir-se-ia que teria o coração impregnado de compaixão. O que me leva a ter vontade de perguntar: o que albergamos afinal no nosso interior? Amor, compaixão e equanimidade, ou julgamento, sobranceria e ódio?
Assim sendo, se repararmos bem, em nome da fé que professamos, em nome do caminho que seguimos, parece que, em vez de um caminho espiritual de paz e amor, estamos, ao invés, a seguir um caminho muito mais mundano, mesmo bélico, de guerra! E isto não é uma guerra!
Atualmente, as conversas rodam diversas vezes em redor deste tema na minha família e com os meus filhos.
E, invariavelmente, para tentar encontrar consensos, linhas orientadoras, separar «o trigo do joio», deixo sempre o mesmo conselho: a fé, a oração, a prática – qualquer que estejam a seguir – está a levar a um caminho de paz, ao apaziguamento, à serenidade? Há um expandir da mente e um abrir do coração? Ou, pelo contrário, há um fechamento da mente e um endurecimento do coração?
Ajahn Vajiro é monge budista da tradição Theravada da Floresta, e tem dirigido o mosteiro desta tradição na Ericeira. Quando lhe perguntamos como saber como vai a nossa «prática» e se estamos a «evoluir no caminho certo», responde-nos sempre com uma questão: como está a tua relação com o teu interior, com o que te rodeia e com os outros? És uma bênção ou uma carga negativa para os outros? Os teus atos trazem bênçãos ou negatividade?
Se, em nome da fé, eu trago a discórdia, se em nome da fé eu faço a guerra, se em nome da fé eu mato, se em nome da fé eu vejo o outro como inimigo, se em nome da fé eu vejo o outro como inferior, o que é que esta fé me está a despertar? Amor? Compaixão? Serenidade? Generosidade? Paz? Ou sobranceria, desconfiança, temor, raiva e ódio?
São estas as questões que me coloco, e aquelas que proponho que todos e cada um de nós se coloque em relação a si mesmos e aos outros. O que está a minha fé a despertar em mim?
Margarida Rocha e Melo é jornalista agora dedicada ao ensino; budista, mantém o respeito pela sua herança cristã, esperando poder contribuir para o encontro de religiões, de mentes e de seres humanos.
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