O mundo atravessa uma fase de turbulência acelerada. As instituições internacionais que preservaram a estabilidade durante décadas mostram sinais de desgaste extremo. O Conselho de Segurança da ONU encontra-se bloqueada pelo uso estratégico do veto, e o direito internacional perde aplicação prática. A cada novo evento – guerras , terrorismo, assassinatos políticos, violações territoriais, crises energéticas e migratórias – cresce a percepção de que a política mundial deixou de ser governada por princípios e passou a mover-se por impulsos, ressentimentos e cálculos de curto prazo.
Numa emergência assim, cabe perguntar: o que pode fazer o Secretário-Geral da ONU? O que fará António Guterres?
Para alguns, a resposta é amarga: muito pouco. O Secretário-Geral não dispõe de forças armadas, não legisla, não impõe sanções e depende da vontade de grandes potências. Mas essa leitura é uma parte da verdade. Em momentos de colapso internacional, a autoridade moral e a capacidade de visão tornam-se instrumentos tão decisivos como os exércitos ou a diplomacia formal. À suposta pergunta de Estaline sobre “Quantas divisões tem o Papa?” respondeu à distância o Concílio Vaticano II que contribuiu para mudar o mundo do século XX.
O presente não oferece pistas reconfortantes. A retórica diplomática foi substituída por encenações políticas, provocações mediáticas e promessas vazias, com “planos de paz” que são listas de “mercearia política”, condenados a fracassar; o populismo e o identitarismo ocupam o espaço público; a violência deixa de ser exceção e transforma-se em rotina noticiada. O caos avança, não apenas entre Estados, mas dentro das sociedades.
A tentação dominante das lideranças globais é sempre adaptar-se ao caos, explorá-lo e sobreviver politicamente nele. Guterres não vem dessa lógica. As suas origens – formação técnica de nível superior, ativismo social, ascensão pela via democrática, o matrimónio e conselho de Luísa Amélia Guimarães [a primeira mulher] – tornaram-no sensível às desigualdades e à crise da dignidade humana.
Enquanto nosso primeiro-ministro, Guterres lidou com desafios internos e externos até se ir embora no 16 de dezembro de 2001, para evitar que o país mergulhasse no “pântano”. Durante dez anos no ACNUR, supervisionou a resposta às crises de refugiados nas tragédias humanitárias – com milhões de deslocados, vítimas da guerra ou da pobreza.
Ao se tornar Secretário-Geral da ONU em 2016, a experiência com o sofrimento humano reforçou nele a convicção de que a diplomacia e as instituições internacionais precisam de voltar o seu foco para a dignidade da pessoa, para uma visão do mundo que prioriza o ser humano sobre os blocos geopolíticos.
O ponto central é este: não existe solução sustentável se a política mundial continuar centrada exclusivamente na luta entre blocos geopolíticos. Putin chama “multipolaridade” a esta luta, considerando-se contrapeso ao domínio do bloco ocidental pelos EUA.
Xi Jinping fala de um “novo multilateralismo justo e global”, onde a competição entre grandes potências é a norma, falando da igualdade entre nações e oportunidade de participação para países do Sul global mas jamais referindo o indivíduo. Trump também reconhece que o “momento unipolar” dos EUA já passou mas quer manter a primazia dos EUA om ações seletivas, adaptadas às novas realidades do poder fragmentado.
Com a luta entre os três impérios, o mundo experimenta uma corrida tecnológica e militar ilimitada. O resultado é uma espiral permanente de conflito – um planeta onde todos tentam “vencer” a todos e todos acabam mais inseguros.
Guterres vem do nosso mundo europeu e sabe que a política global só recuperará sentido quando a pessoa humana voltar a estar no centro – e os blocos deixarem de ser geopolíticos.

“Guterres vem do nosso mundo europeu e sabe que a política global só recuperará sentido quando a pessoa humana voltar a estar no centro.” Foto: António Guterres visita o campo de Imvepi, no Uganda, e conversa com a comunidade local. © Mark Garten / UN
Saltar dos blocos para a pessoa; da competição para a dignidade; da tecnologia como dominação para a tecnologia ao serviço da vida – esta é a mudança estrutural que define um horizonte de esperança.
Essa visão não é poesia: é estratégia de sobrevivência do sistema internacional. Os conflitos contemporâneos mostram que nenhuma potência, por si só, consegue impor estabilidade. A lógica dos blocos empurra o mundo para uma fragmentação crescente. Em alternativa, Guterres pode promover uma poliarquia de responsabilidade, onde diferentes polos mundiais cooperem não porque concordam em tudo, mas porque reconhecem um objetivo comum: preservar a vida humana.
O Secretário-Geral da ONU não governa nem decide, mas pode ajudar a alterar o enquadramento moral e conceptual em que os governos decidem. Dag Hammarskjöld exigiu a “responsabilidade de proteger”; Boutros-Ghali deslocou o debate da soberania para os direitos humanos. Hoje, o passo seguinte tem pertencido a António Guterres: afirmar a centralidade da pessoa como critério primordial da política internacional.
O mundo já conheceu o caminho do poder ilimitado, da tecnologia sem ética e da competição sem regra. Esse caminho tem um nome: caos. O futuro imediato dependerá da coragem de assumir outra escolha civilizacional.
Se Guterres ajudar a criar essa imagem de futuro – clara, mobilizadora e universal – o mundo poderá reorganizar-se em torno desse eixo. Caso contrário, continuará a aproximar-se do iceberg enquanto discute lugares de convés no Titanic.
A única solução – como recentemente escreveu o democrata e oposicionista russo Grigory Yavlinsky – é que a política nacional e internacional volte a ter como missão proteger a vida, a liberdade, a dignidade e a criatividade humanas. É essa a responsabilidade histórica que recai sobre António Guterres neste ano final do seu mandato que agora se inicia e em que já se perfilam sucessores no horizonte. Se liderar essa transformação não resolverá todos os conflitos, mas poderá restaurar a esperança. Se não o fizer, ninguém o fará no seu lugar.
Mendo Castro Henriques é professor da Universidade Católica e autor de obras de filosofia e cidadania.










