O que faz falta é agitar a malta

| 23 Jun 21

Para algum jornalismo o que interessa não é informar o público mas agitar as emoções, não as consciências. O importante não é dar a conhecer o que se passa no país e no mundo, mas selecionar o fluxo noticioso de acordo com uma dada intenção, que vai quase sempre associada a um enviesamento e a uma sugestão dirigida, de modo a despoletar determinadas reacções.

“Para alguma espécie de jornalismo, o que interessa não é informar o público nem cumprir o papel de mediadores da informação mas agitar as emoções, não as consciências.” Foto: Christian Krieger nos 50 anos do Copic (Captada da transmissão vídeo).

 

Dei comigo a pensar em como certo tipo de jornalismo pode tornar-se um obstáculo para o diálogo inter-religioso e, portanto, para a paz e a concórdia entre os povos.

Desde logo pela ênfase dada ao escândalo e ao que parecem bizarrias nas religiões, dando aos consumidores da informação a ideia de que todos os líderes religiosos – e por arrasto os fiéis – são alienados, criminosos, manhosos ou esquisitos, a partir dos casos pontuais que sempre surgem em qualquer universo social humano. De resto, coisa semelhante se passa no campo da política, da magistratura e de tantas outras profissões e ocupações.

Ainda há dias se realizou uma cerimónia que incluiu aspectos de notória relevância informativa, mas que passou despercebido na comunicação social. Refiro-me à celebração do 50º. aniversário do Conselho Português de Igrejas Cristãs (Copic), que ocorreu na Catedral de S. Paulo (Igreja Lusitana-Comunhão Anglicana), em Lisboa, com a presença do Presidente da República, do presidente da Comissão de Liberdade Religiosa e de representantes europeus, entre outros.

A RTP deu-se ao luxo de “pintar” toda uma peça sobre política nacional, com a duração de vários minutos, exclusivamente com imagens do evento, mas referindo-se especificamente ao mesmo apenas numa pequena frase a fechar. SIC e TVI então nem se deram ao trabalho de referir o acontecimento, apesar dos serviços de notícias televisivos que temos com duração de uma hora e meia em horário nobre.

Além da cerimónia em si, que o Presidente do país entendeu dever honrar com a sua presença e onde tomou a palavra, referiu-se a passagem dos 20 anos sobre a promulgação da Lei de Liberdade Religiosa (Lei n.º 16/2001, de 22 de Junho), impulsionada pelo então primeiro-ministro António Guterres e que veio esbater a secular discriminação existente no nosso país entre cidadãos de fé diferente ou sem fé religiosa. O acto foi sublinhado por vários oradores incluindo Vera Jardim.

O presidente da Conferência das Igrejas Europeias (CEC), Christian Krieger, “referiu-se de forma elogiosa à presidência portuguesa da União Europeia, nomeadamente a propósito da Cimeira Social do Porto. E falou sobre o novo Pacto das Migrações, da União Europeia, bem como sobre o memorando” que seria depois assinado na cerimónia e que é um documento histórico. Trata-se dum memorando de entendimento para o desenvolvimento do programa ‘Eco Igrejas Portugal’, “que visa a promoção da ética da sustentabilidade, contida em princípios ecoteológicos, e a aplicação nas diferentes Igrejas e comunidades cristãs de indicadores de diagnóstico, educação e gestão ambiental, para uma melhoria contínua da sustentabilidade ecológica.”

Este documento foi assinado pelo Copic, a Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), a Aliança Evangélica Portuguesa (AEP), a ONG A Rocha e a Rede Cuidar da Casa Comum, que irão contribuir para viabilizar o programa.

Portanto, o facto de católicos, protestantes e evangélicos representarem em conjunto a quase totalidade das igrejas cristãs do país neste evento, de as mesmas sublinharem repetidamente a importância da tolerância e do diálogo, de celebrarem o aniversário duma lei que contribuiu em parte para acabar com a descriminação entre cidadãos de diferentes crenças religiosas num estado laico, e de se juntarem no compromisso pela ética da sustentabilidade ambiental passou completamente ao lado da imprensa generalista. Apenas a imprensa especializada o referiu, como o 7MARGENS.

Parece até que nada disto interessa ao lado do escândalo do dia, da suspeita, da acusação velada, da sugestão assassina de carácter, das vicissitudes dos famosos ou mesmo de fait divers.

Para alguma espécie de jornalismo, o que interessa não é informar o público nem cumprir o papel de mediadores da informação mas agitar as emoções, não as consciências. Mas o pior é que para eles o importante não é dar a conhecer o que se passa no país e no mundo mas selecionar o fluxo noticioso de acordo com uma dada intenção, que vai quase sempre associada a um enviesamento e a uma sugestão dirigida, de modo a despoletar determinadas reacções. O que importa é agitar a malta, mas não no sentido da canção do Zeca Afonso. A isto chama-se manipulação.

Por outro lado, é triste observar que é por estas e por outras que a comunicação social vai perdendo espaço de forma paulatina para as redes sociais, as quais já de si funcionam como barris de pólvora.

 

José Brissos-Lino é director do mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona, coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo e director da revista teológica Ad Aeternum; texto publicado também na página digital da revista Visão.

 

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