O que idiotas e ignorantes fazem com a Bíblia

| 4 Abr 19

Muitos gostam de citar a Bíblia nos seus escritos e discursos, para parecerem cultos e legitimarem os seus pontos de vista, mas poucos gastam tempo a lê-la. Até os magistrados. E depois sai asneira, como não podia deixar de ser.

Um dos problemas velhos como o mundo é falar do que se desconhece como se se dominasse o assunto. Por exemplo, acontece de forma recorrente com a Bíblia. Não, não vou falar daqueles juízes que citaram as Escrituras de forma descontextualizada, enviesada e sobretudo errada, que é bem revelador da sua ignorância e falta de cultura bíblica.

Também não alinho por aqueles que dizem que os magistrados não têm nada que citar a Bíblia nos acórdãos. Se a citarem de forma correcta não vejo qualquer problema, tal como poderão citar os autores clássicos, por exemplo. A confusão está em que esses críticos consideram que Bíblia é um livro religioso e a religião não é chamada para as decisões da justiça. Até estaria de acordo com eles se a Bíblia fosse apenas um livro religioso, mas é muito mais do que isso: trata-se de um dos maiores monumentos da cultura universal. Estranho seria citá-la em sentenças judiciais no Irão, na Índia ou no Japão, países que representam outras culturas religiosas.

Mas a asneira é universal. Ainda recentemente a Inglaterra e o mundo ficaram estupefactos com a argumentação utilizada pelo Ministério do Interior britânico, responsável pela imigração, ao negar asilo a um iraniano, que invocava o risco de perseguição por se ter convertido ao cristianismo depois de perceber que era uma religião pacífica. No indeferimento usaram-se passagens do Antigo Testamento e do Apocalipse para mostrar que a fé cristã inclui “imagens de violência, destruição e morte”… 

Segundo o Expresso: “Nathan Stevens, o representante do requerente de asilo, nem queria acreditar quando leu a resposta ao pedido. ‘Tenho visto muito ao longo dos anos – referindo a criatividade dos argumentos utilizados para a recusa de asilo – mas mesmo eu fiquei genuinamente chocado ao ver esta diatribe incrivelmente ofensiva ser usada para justificar uma recusa de asilo”. Um jurista conhecedor dos processos de asilo pensa que a resposta ao pedido “implica necessariamente uma epidemia de anti-cristianismo lá dentro”.

Misturar textos de Êxodo e Levítico para este efeito é doentio. Até os ateus referiram que “não é função do Ministério armar-se em teólogo”, e o bispo anglicano de Durham lamentou que um departamento do Estado “possa determinar o futuro de outro ser humano com base num entendimento tão errado dos textos e práticas das comunidades de fé”.

Qualquer texto antigo, com milhares de anos, exige uma hermenêutica cuidada, seja bíblico ou não. Só um ignorante faria uma leitura literal de Homero, Virgílio ou mesmo Camões. Mas com os textos bíblicos parece que muita gente se dispõe rapidamente a fazê-lo… Todos os textos precisam de ser interpretados e contextualizados, e quando se trata de escritos com milhares de anos, mais precisam desse cuidado. É necessário conhecer qual a cultura da época, crenças, tradições, conceitos cosmogónicos, organização social, medos, abordagem ao transcendente, usos e costumes. É necessário também conhecer as línguas originais para desenvolver uma exegese capaz.

É ainda imprescindível tomar consciência do género literário que temos pela frente, já que os textos poéticos terão que ser interpretados de forma necessariamente diversa dos textos jurídicos, e os escritos históricos da literatura apocalíptica. Ora, a Bíblia comporta poesia, literatura de viagens, textos históricos, apocalípticos, sapienciais, devocionais, proféticos, genealógicos e jurídicos entre outros. Cada género literário terá que merecer uma abordagem específica ao texto.

Portanto, agarrar um texto bíblico e proceder a uma leitura ao pé da letra é asneira certa. Deixo apenas um exemplo retirado do Evangelho de S. Mateus (18:8,9): “Portanto, se a tua mão ou o teu pé te escandalizar, corta-o, e atira-o para longe de ti; melhor te é entrar na vida coxo, ou aleijado, do que, tendo duas mãos ou dois pés, seres lançado no fogo eterno. E, se o teu olho te escandalizar, arranca-o, e atira-o para longe de ti; melhor te é entrar na vida com um só olho, do que, tendo dois olhos, seres lançado no fogo do inferno.” É claro que se optássemos por uma interpretação literal deste texto viveríamos numa sociedade de manetas, pernetas e zarolhos…

Os fundamentalismos e os grupos religiosos extremistas de inspiração cristã, todos recorrem aos textos bíblicos para se legitimarem, porque estes se tornam elásticos quando a interpretação é feita à martelada. Alguns juízes estão a seguir-lhes os passos. É pena. Em vez que atentarem de forma grosseira contra o sentido e o enquadramento dos textos, era melhor que os estudassem um pouco melhor antes de dizer asneira, ou que citassem antes, sei lá, o José Rodrigues dos Santos. Dava na mesma um toque pretensamente intelectual às suas doutas sentenças, mas nesse caso não fazia estragos.

José Brissos-Lino é director do mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona e coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo; texto publicado também na Visão Online.

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