O que nos aconteceu? A pergunta do cardeal Tolentino e os pactos necessários

e | 25 Set 20

São precisos novos pactos – na comunicação, entre gerações, na comunidade e para o ambiente. Ideias defendidas pelo cardeal Tolentino Mendonça, que vê este tempo como uma oportunidade para novas experiências que a Igreja Católica deve fazer para se aproximar de quem se afastou. E que aponta uma necessária “conversão ecológica” por parte das comunidades cristãs, que ainda não integraram a encíclica Laudato Si’, na sua prática.

Tolentino Mendonça. Jornadas Comunicação Social.

O cardeal Tolentino Mendonça durante a intervenção nas Jornadas de Comunicação Social. Foto © Agência Ecclesia

 

O que é que nos aconteceu? A pergunta abriu a comunicação do cardeal Tolentino Mendonça, bibliotecário da Biblioteca Apostólica Vaticana, no início das jornadas nacionais de comunicação social, da Igreja Católica, na manhã desta quinta-feira, 24. Este momento exige “um novo pacto de comunicação”, um pacto intergeracional e comunitário reforçado, um pacto ambiental e a capacidade de contar histórias e narrativas, sugeriu, entretanto, durante a sua intervenção.

As jornadas decorrem (nesta quinta e sexta-feira) numa modalidade inédita, com todos os mais de 100 participantes ligados através de plataformas vídeo, entre Roma e diversos pontos de Portugal.

O cardeal Tolentino situou a sua intervenção, com o título “Palavras e presenças: desafios de uma pandemia à comunicação”, na linha da oportunidade de que o Papa tem falado, referindo-se à pandemia. Nesse sentido, começou por afirmar: “O futuro chegou, com as dores de parto que são próprias dos nascimentos. A verdade é que hoje somos chamados a olhar para o nosso presente como um ponto de partida para pensarmos a realidade da comunicação e da Igreja. Somos chamados a pensar o que é a vida a partir desta situação e deste ano absolutamente inédito que nos desarruma, que estamos a viver.”

Referindo-se à metáfora da guerra usada por muitos líderes no início da pandemia, como tendo ajudado “a perceber a gravidade da situação em que entrámos”, citou depois o Papa que, na Oração pela Humanidade, de 27 de Março, preferiu a metáfora da tempestade: “A tempestade desmascara a nossa vulnerabilidade e deixa a descoberto as falsas e supérfluas seguranças com que construímos os nossos programas, os nossos projetos, os nossos hábitos e prioridades.”

“Percebemos que esta pandemia nos precedeu, ela tem antecedentes e antes dela, como diz o Papa, nós já estávamos doentes”, comentou Tolentino Mendonça.

O cardeal português, também exegeta bíblico e poeta, socorreu-se depois de um dos livros mais citados nos últimos meses – A Peste, de Albert Camus – que considerou uma “parábola” com três elementos que ajudam a entender o presente: “Numa situação de peste, o ser humano percebe que a sua luta maior é a luta pela vida, pela sobrevivência”. Mas, ao contrário, hoje vivemos num mundo onde o primado da vida não é tão óbvio assim…”

“O que está em jogo não é apenas uma questão sanitária ou o cuidado dos corpos”, acrescentou, referindo-se ao segundo elemento de leitura da obra de Camus. Não foram só os virologistas ou epidemiologistas que tiveram tempo de antena largo, referiu, mas também os filósofos. Ou seja, estamos diante de algo que é também “uma questão da alma, de sentido”. E, mesmo nos média, abriu-se mais espaço “à humanidade, à espiritualidade, a reflexões muito mais profundas”.

Finalmente, no meio da catástrofe, “temos visto emergir espaços imprevistos” de solidariedade e cuidado com o outro e os mais frágeis. E, também na linha do que o Papa tem referido, o que a pandemia mostrou foi que as pessoas mais importantes são “muito diferentes do star system que nos domina”; foram os médicos, bombeiros, forças da ordem… e também várias “vozes espirituais, aqueles que se atreveram, que arriscaram, que davam a vida pelos outros no concreto dos dias que iam passando”.

 

“Um abalo muito grande”

Também a comunicação social sofreu “um abalo muito grande”, disse o cardeal. Os média não podem limitar-se a dar notícias, ficando reféns do imediato, sugeriu. Mais qualidade na comunicação, mais profundidade e mais tempo é o que se exige ao espaço mediático, acrescentou, até porque os consumidores de informação estão “muito mais disponíveis e muito mais interessados numa reflexão sobre a vida, sobre a existência”.

Por isso “este momento pede-nos um novo pacto de comunicação”, que aproveita a disponibilidade e interesse “numa reflexão sobre o sentido da vida” e não apenas sobre “os consumos imediatos”.

A comunicação social pode “ajudar a pensar e a criar” esses “espaços de reflexão de que a sociedade precisa”. Para que não estejamos a cuidar apenas da “saúde viral”, mas também da saúde da sociedade, do mundo e da democracia.

Há necessidade de “parábolas, de interpretar, de ir mais fundo”, afirmou o autor de A Noite Abre Meus Olhos, dizendo que os média não podem ser apenas “um amplificador para as vozes presentes”. Há questões “transversais, que dizem respeito a todos e nos obrigam a um pensamento global, que coloca a pessoa humana no centro”, acrescentou, sugerindo ainda um pacto inter-geracional, um pacto comunitário e um pacto ambiental.

Alertando para a “situação gravíssima” nas residências para idosos, com a “institucionalização da velhice”, Tolentino argumentou que não se podem “dispensar os velhos como se a vida fosse para chegar a uma idade e morrer”, contestando a ideia de que “porque os velhos não produzem, estão entre a população que pode ser dispensada”. Isso “é algo que a sociedade não pode aceitar”. Esta é uma oportunidade para “olhar para a realidade e encontrar outro equilíbrio, outras soluções políticas e sociais, para que a terceira idade seja tratada de uma forma justa e humana”, defendeu.

Mas o pacto referido inclui também a geração entre os 25 e os 35 que, “com esta pandemia, vive uma segunda crise económica grave”: é a geração dos que estão a sair de casa dos pais e constituir família e que vêem os seus sonhos adiados pela crise económica que sucedeu à crise sanitária, referiu Tolentino Mendonça.

“Hoje talvez tenhamos uma ideia prática mais positiva da necessidade de reforçarmos o tecido comunitário”, disse ainda o bibliotecário da Santa Sé, referindo que é preciso “redescobrir” o “valor da comunidade”. O que significa “tarefa partilhada, missão exercida da corresponsabilidade, visão integrada das coisas, reforçar o pacto comunitário e perceber que temos de proteger muito mais a comunidade”.

 

“A Igreja não vai a jogo” na questão ambiental
Tolentino Mendonça. Jornadas Comunicação Social.

Tolentino Mendonça: durante a sua intervenção em vídeo: “A nossa sociedade é movida também pelo dom, também pela gratuidade”.

 

Sobre o pacto ambiental, Tolentino Mendonça tomou “a grande novidade” da encíclica Laudato Si’, a sua “visão sistémica: não podemos olhar para o homem de um lado e a natureza do outro, temos de ver que é uma coisa só e que estamos todos ligados; o destino do homem não pode ser separado do destino da natureza”. Por isso, precisamos hoje “de uma nova sabedoria”.

A pandemia, disse o cardeal, também ajudou a perceber que os dogmas que tínhamos – “o de que o mundo não pode parar, o do utilitarismo, de que o capital é o único combustível da nossa sociedade” – afinal, foram todos postos em causa.

“Quando percebemos a fragilidade, compreendemos aquilo que é fundamental: não podemos descartar ninguém e o primado tem de ser dado à própria existência. A nossa sociedade é movida também pelo dom, também pela gratuidade”, afirmou o autor de A Leitura Infinita, uma das suas obras mais importantes sobre a Bíblia. “Todos pensávamos que estávamos muito mais protegidos, que o nosso sistema era muito mais infalível”, mas “percebemos os limites da própria vida” e que “ninguém está a salvo: estamos todos ligados e todos somos possíveis contagiados e possíveis contagiadores”.

Já no debate com os participantes, e respondendo a uma pergunta do 7MARGENS sobre o papel da Igreja em Portugal na concretização da Laudato Si’, o cardeal disse que é necessária uma “conversão ecológica”: “Sonho e conversão”, duas palavras usadas pelo Papa, “ainda não existem e reconhecer isso é um acto de verdade”.

Há uma “conversão que a Igreja tem de assumir”, porque na prática “fica ainda muitas vezes na bancada e não vai a jogo”, disse, respondendo ao facto de não haver, na convocatória das manifestações “salvar o clima”, desta sexta à tarde, nenhuma organização católica.

“Precisamos, na Igreja, de integrar o discurso ambiental, como tem recordado insistentemente o Papa Francisco”, disse o cardeal Tolentino. “É preciso reconhecer que há ainda uma inércia e não estamos mobilizados como povo. E esta é uma grande conversão que é necessário fazer.”

Na resposta a outras perguntas, Tolentino Mendonça defendeu ainda a necessidade de “ouvir mais os jovens, aprender muito com eles”. Isso inclui os média, onde eles não aparecem: “Estão fora do radar, não têm voz nem vez e o desafio da comunicação social é ouvir a voz dos que não têm voz.”

Sobre a próxima encíclica do Papa, ela será a proposta “da fraternidade como horizonte para o mundo”, já que é dedicada a esse tema. E defendeu a importância de “fazer experiências” novas, em termos de propostas da Igreja, de modo a acompanhar aqueles que estão a abandonar a prática religiosa. “Este é um tempo laboratorial, de fazer experiências”, afirmou.

(Actualização: a intervenção do cardeal Tolentino Mendonça na íntegra)

 

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