
” (…) o que é que nos enraíza na vida e nos faz sentir que vivemos deveras?” Foto © José Centeio
O que é que é real? Dito de outra forma: o que é que nos enraíza na vida e nos faz sentir que vivemos deveras?
Primeiro, é preciso crer na vida. Isto é, acreditar que todo o esforço honesto vale a pena, ainda que pareça pequeno, quando está em causa a paz, a justiça, o conhecimento, a educação pessoal ou alheia.
Segundo, viver na verdade. Praticá-la sempre, nas pequenas como nas grandes coisas. Dizê-la, exprimi-la, escutá-la, realizá-la, aprofundá-la. Não mentir de forma nenhuma.
Terceiro, criar, realizar obra pessoal com o pensamento e a imaginação. Fazer do trabalho um esforço de dádiva e de serviço, ou seja, de transcendência pessoal em direção ao suprapessoal, ideal e universal. Em direção ao Outro num esforço de plenitude de comunicação humana a partir do que é essencial e inteligível pelo pensamento e pelo coração. Em todo o caso, viver e trabalhar no e para o Aberto do mundo e do pensamento, sem cair na idolatria do preconceito e da ideologia cómoda, da categorização apressada.
Quarto, purificar o olhar e a intenção.
Quinto, tornar-se responsável. Por algo, por alguém, por um ideal enraizado na vida, por um sonho. Creio que ser homem é realmente ser responsável. Aí reside a verdadeira liberdade: na responsabilidade plena e conscientemente assumida. No compromisso que nos abre ao Outro e ao mundo, que evita que nos fechemos, e que por isso mesmo nos enraíza no mundo e na história, e como tal na vida. É preciso estar pronto a assumir responsabilidades, de tal modo que os talentos e potencialidades em nós latentes possam exprimir-se e manifestar-se. Para que vocações possam revelar-se.
Em suma, na tua vida, agarra uma ideia, um ideal, um problema, e serve-o no melhor das tuas forças e potencialidades, sem perderes de vista a dignidade dos seres humanos concretos, sem os instrumentalizares ou explorares. Antes pelo contrário, o teu horizonte deve ser o da emancipação do homem de tudo aquilo que o envilece e empobrece humanamente.
Faz o teu caminho; ou melhor, abre-o, mais do que procurares seguir por um já pronto. Sente a resistência da vida, a sua espessura concreta, essencialmente relacional, e alegra-te com tudo o que aprendes e descobres sobre o mundo e sobre ti mesmo, e maravilha-te com as tuas próprias forças e capacidades aos superares os desafios que se te apresentam.
Cada nova existência humana é singular, única e irrepetível, e nesse sentido é sempre pioneira. A sua vocação humana fundamental, desde que escolha assumi-la, ou seja, tornar-se responsável por ela, é aprender a fazer uso pleno e reto da sua liberdade, abrindo novos caminhos na espessura da vida. Por reto entendo, como não podia deixar de ser, moral. E ser moral não é outra coisa senão ser responsável. Por quê? Desde logo, pela realidade. E a indefectível realidade é aquilo que é verdade. E aquilo que é verdade é aquilo que, racionalmente e em consciência, ninguém pode negar sem se negar a si próprio. Ou seja, sem perder a sua integridade. O primeiro dever do ser livre é, portanto, não mentir. Isto em termos negativos. Em termos positivos, pugnar pela verdade, sempre. Ser responsável por ela, em si e no mundo.
Ora, o verdadeiro não é só o facto empírico ou científico, a evidência racional ou filosófica, mas tudo aquilo que favorece uma existência cada vez mais livre, autêntica, senhora de si, enraizada. Aqui se inserem, por exemplo, a fé e a esperança. É verdadeiro tudo o que faz justiça à existência, tudo o que contribui, direta ou indiretamente, para a plenitude da sua realização humana. Aqui se revela a dimensão ética da existência na sua relação com a verdade. Vivemos certamente para conhecer a verdade, intelectualmente falando, mas também, e sobretudo, para a viver e praticar. É justo o que promove a verdadeira liberdade, uma maior plenitude e retidão moral, o que nos torna aptos para a vocação de responsabilidade. É injusto, por outro lado, tudo o que aniquila no ser humano esta mesma vocação, quer esta injustiça venha de si mesmo ou de outrem. Eis o pecado.
Se ser livre é ser pela verdade, e se a verdade é tudo aquilo que traz à existência a sua plenitude e realização, então não me é lícito destruir em mim essa possibilidade. A não ser, talvez, numa situação-limite sem saída e sem esperança, sem amor e sem amparo, não devo matar-me, tal como não devo matar. Então e a morte pela verdade, pela justiça, pelo ideal? Bom, se a morte for o culminar da assunção de uma responsabilidade pela vida, um serviço prestado ao ideal que vitalmente se abraçou, então haverá nela uma certa justiça, ainda que seja injusta a sua imposição vinda de um qualquer carrasco. Só isso permite que vejamos na morte de Cristo ou de Sócrates, e bem assim de tanto outros injustiçados, voluntariamente sofrida, uma certa justiça, porque por ela a vida encontrou, paradoxalmente, oportunidade para se afirmar e dar testemunho da verdade.
Ruben Azevedo é professor e autor de vários livros.
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