O que nos salva? – uma espécie de carta à Humanidade

| 1 Fev 21

“Estamos numa viagem extraordinária cuja origem desconhecemos em absoluto…”. Rio Amazonas. Foto © Firmino Cachada

 

Humanidade, humanidade – tão sempre sedenta de Sentido. Somo-lo todos. Ponho-me a pensar no que sou, tentando ir ao mais fundo de mim, ver se compreendo este mistério radical que a todos nos habita – o que sou afinal, que mistério é este!? O que todos somos, afinal; de que mistério profundo vimos, para que mistério profundo vamos… Onde começamos, onde acabamos… O que é ser – o que é o Ser?

Humanidade – que vocação infinita nos chama, nós que estamos colocados no infinito e entre infinitos? Estamos rodeados por infinito em toda a parte, da vastidão incomensurável do universo sideral às vastidões indetermináveis do sideral quântico… Sem esquecer o infinito em nós, esse misterioso indeterminável e inominável…

Toda a nossa vasta história construímos, edificamos, guerreamos, pensamos, matamos, vivemos, amamos, desejamos, subimos alto e descemos baixo, muito baixo por vezes. Hoje mesmo tudo isto existe, tudo isto está a acontecer, estamos num devir histórico ele próprio entre infinitos, entre o infinito passado e o infinito futuro, cada qual penetrando fundo no véu de trevas do infinito e inominado Mistério.

Estamos numa viagem extraordinária cuja origem desconhecemos em absoluto, e cujo fim nos está velado; quer o por quê (origem), quer o para quê (destino). Intuímos que ambos são o Mesmo, aquela Unidade Absolutamente Absoluta que é o ponto, o nó, a fonte absolutamente infinita de Tudo em Tudo.

Somos animais de logos, isto é, de palavra, de significado e de signo, e de lógica. Mas isso está longe de dizer tudo acerca de nós, porque a nossa existência se processa também nas franjas do indizível, do inominado, do impensado, do metalogos. Estamos sempre em processo de expansão dos limites do que podemos pensar, imaginar, enfim, tomar consciência. Estamos sempre a pressionar as fronteiras da nossa imaginação, do nosso sentir. Daí a arte, daí a religião, daí a filosofia, e a própria ciência.

Por um lado, é verdade que os limites da linguagem são os limites do nosso mundo, mas o mundo só por si está longe de nos satisfazer, e por isso, se a linguagem é curta ou inexistente, o que se faz é inventar novas linguagens ou procurar adaptar as que já existem. Daí a poesia, daí a música, daí a parábola, o símbolo, a metáfora, o mito, e às vezes mesmo o próprio silêncio.

Temos absoluta necessidade de dar nome às coisas, visíveis e invisíveis, porque temos absoluta necessidade de compreender, e porque não somos capazes de determinar os limites da nossa própria alma. Sabemos que sentimos, que temos vida interior, íntima, e até isso, que é um dado absoluto, remete para um mistério sem nome; pois de onde nos vem e onde está sustentada no Ser esta capacidade íntima de ser dentro, de ser para si mesmo, esta intimidade ontológica?

Somos tão fundamentalmente dados a nós mesmos, e ao mesmo tempo tão fundamentalmente misteriosos a nós mesmos também – como de resto o próprio mundo, a própria realidade dita “exterior”. Porque, na verdade, para nós mesmos, não há, no limite, um mistério interior e outro exterior, não há nós e o mundo, res cogitans e res extensis – todo o mistério digno desse nome, e por maioria de razão o Mistério mais radical de todos, toca no mais fundo da nossa interioridade e diz respeito à mais radical substância do que somos. Porque, no fundo, intuímos a unidade fundamental de todas as coisas, e não podemos em nenhum momento admitir que estamos fora dela, ou que não somos ou não estamos nela absolutamente e necessariamente.

 

“Uma fé forte e simples que me guie e que me realize”

“Aspiro a uma fé forte e simples que me guie e que me realize” Foto © Josh Applegate /Unsplash

 

Mas alguns dirão, e não sem alguma razão: “Sim, e isso diz-nos o quê exatamente? Que utilidade tem para nós? Desde sempre que conhecemos esse Mistério, não faltaram mil e uma tentativas de lhe dar resposta, de lhe dar corpo, forma – e então, tudo sempre passa e o ser humano retorna sempre ao absurdo, à angústia, ao sem-sentido, ao tédio. Nada se resolve de uma vez para sempre, nada nos redime definitivamente, nada nos lança finalmente no coração do Ser que intuímos para que finalmente sejamos plena e absolutamente no eterno seio…”

Tudo isso é verdade, e diz tanto acerca do que fomos e somos. Mas pode ser que alguns, poucos, tenham conseguido essa plenitude, essa redenção e essa paz épica. Pode ser que ela se dê após a morte, ou pode ser que não, que ela só se atinja depois de muitas existências – para quem crê na transmigração ou reencarnação – ou só no fim escatológico dos tempos, para quem acredita na vinda histórica do Reino.

Ou pode ser que a escatologia seja uma conquista possível em todos os tempos, em todas as existências singulares, através de uma ascese difícil mas venturosa para os poucos que logram atravessar a porta estreita. A dúvida permanece. Quem saberá a resposta? Para alguns não há nenhuma resposta; o sem-sentido é a resposta. Será assim? Não creio; mas quem o sabe verdadeiramente? Para os que têm uma fé sólida e forte, o Sentido parece estar fora de questão – tomara todos fossem dotados dessa fé extraordinária que transforma e ilumina uma existência, e até parece abrir caminhos através das montanhas mais inexpugnáveis!

Não sei se falo pela humanidade, ou sequer por uma parte dela, mas eu próprio, que creio no Deus-Absoluto, no Deus Ontológico, aspiro por uma fé humana como aquela que têm os que olham para a cruz de Cristo como a intersecção radical e final dos horizontes humano e divino, por conseguinte Fim da História, destino e sentido último da vida e do universo, para além de toda a dúvida.

Aspiro a uma fé forte e simples que me guie e que me realize. Será que não é isso a que todos aspiramos, não é isso que está na matriz do humano, essa necessidade inexorável de se realizar para além do dizível, do nominável, não solitariamente, mas solidariamente com a Totalidade, com o próprio Ser?

Não é motor da nossa existência simultaneamente dada e misteriosa, luminosa e opaca, essa sede de ir além de todos os limites, de conhecer a essência das coisas, de fazer todo o disperso retornar a uma unidade julgada essencial, preferencialmente inteligível, racional, para que possamos, precisamente, participar de uma unidade mais ampla, verdadeiramente universal? Para que possamos re-ligar-nos a essa plenitude perdida, ou julgada como tal, in illo tempore, isto é, no tempo misterioso das origens ou mesmo fora do próprio tempo?

Kant, apesar de ser contra a metafísica no conhecimento da essência da realidade, apesar de julgar a razão humana incapaz de conhecer a “coisa em si”, admitia que a razão continha ideias acerca de realidades que, embora não pudesse conhecer em absoluto, podia pelo menos pensar – nomeadamente Deus, Alma, Mundo, ou seja, numa palavra, a Totalidade ou Ser.

O pensá-las seria, assim, já intuir a sua existência, ainda que de uma forma meramente esquemática, quer dizer, no limite do indizível. Deste modo, não sendo conhecimento propriamente dito, seriam pelo menos motor de conhecimento do universal, ou, dito de outro modo, aguilhão de Totalidade, sede de unificação derradeira da totalidade do conhecimento, e sede da própria Unidade.

Outros pensadores chamaram-lhe “Desejo de Infinito” ou “Nostalgia do Absoluto”, mas no fundo a ideia é a mesma: a de que existe, inerente à psique humana – o que é, no entanto, diferente de dizer razão – uma vocação ou desejo de unidade radical, de plenitude de existência e de compreensão, que vai além do imediato da experiência possível e até da própria individualidade pessoal, sendo uma tendência para o suprapessoal.

 

O risco da perversão da fé e do fanatismo

Índia, Hinduísmo

“(…) o desejo de absoluto, a sede de totalidade, podem facilmente degenerar em absolutismo e totalitarismo …”. Ativistas hindus no estado indiano de Madhya-Pradesh. Foto: UCANews

 

À luz disto, talvez possamos fazer derivar o ato de fé desta vocação psicológica do humano para a unidade absoluta, motor de integração do próprio indivíduo, de construção de si mesmo e de realização no horizonte – intuído apenas – do próprio Ser. Uma fé luminosa, honesta, simples, oferece precisamente esse horizonte, dá-lhe uma face inteligível, humana, psicologicamente satisfatória, passível de capacitar o indivíduo com a posse do testemunho de uma verdade definitiva, redentora, universal, integrando-o assim na unidade do próprio cosmos, dando-lhe um papel na trama épica do universo, colocando-o no centro, irmanando-o de tudo e de todos.

É claro que o risco da perversão da fé, o risco do fanatismo, da idolatria ideológica, está lá sempre presente, seja na religião, na política ou até na ciência, onde quer que se busque a conquista de uma verdade total e definitiva. No ser humano, o desejo de absoluto, a sede de totalidade, podem facilmente degenerar em absolutismo e totalitarismo, mas também produzir nele aquilo que salva, o sentido, o sentido do mistério tremendo e fascinante, a busca significante – se de facto se trata de uma pulsão natural do animal que somos em direção ao indizível, ao inefável, ao inominado transcendente, ao supra-pessoal; se de facto somos um animal de logos, mas também de metalogos (i.e., de palavra-razão, mas também de emoção e comoção, símbolo, sacralidade, estética e ética).

Toda esta verbosidade para quê? Só desejamos uma coisa, afinal: o âmago, a essência da vida. A palavra não nos interessa se não for veículo de experiência-limite, de significação, de verdade efetivamente vivida. Só nos interessa a palavra que aponte para o essencial, ou que desperte em nós o essencial. Mas, no fim de contas, continuo a falhar o essencial e aquilo que eu queria realmente dizer não consigo, ou talvez nem possa ser dito assim.

Afinal, o que nos salva? Será a fé? Será a metafísica? Será a gnose? Será o trabalho? Será o esquecimento? Será o amor? Será que não há salvação e a vida não passa de uma gestão rotineira do possível, ou do que se julga possível? Será que afinal não há nenhum mistério nisto tudo? Ou será que, havendo um Mistério, ele está tão fora do nosso alcance e tão alheado de nós que não temos alternativa senão a de nos resignarmos à nossa insignificância num mundo basicamente medíocre e desencantado? Recuso-me a acreditar que assim seja, revolta-me a simples ponderação dessa possibilidade, e creio que não é só a mim.

Na busca pela verdade e pela certeza, fui conduzido a mim próprio e àquilo que posso em absoluto afirmar como uma certeza: sinto, isto é, sou dotado de interioridade, experiência subjetiva. Em cada perceção consciente deparo-me com uma realidade só minha, intransmissível, irredutível a um simples dado objetivo do funcionamento electroquímico do meu cérebro. Ora, neste reduto próprio, íntimo, pensar e ser, percecionar e ser, são uma e a mesma coisa, porquanto não posso pensar sem estar consciente do que penso e de que penso, e o mesmo se aplica ao sentir. E ao estar consciente disso, estou também radicalmente consciente de que sou.

 

“Vejo a árvore, mas a árvore não está fora de mim”

“Vejo a árvore, mas a árvore não está fora de mim”.  Foto © José Centeio

 

A consciência testifica-se a si mesma, experimenta-se a si mesma, na qualidade íntima de cada perceção, pois cada perceção não é senão consciência dada a si mesma, sujeito e objeto de si própria. Vejo a árvore, mas a árvore não está fora de mim, assim como eu mesmo não estou nem posso estar fora de mim; a imagem da árvore, embora eu lhe chame árvore e a queira localizar fora de mim, está em mim e eu estou nela, pois o que eu experimento na perceção da árvore não é a árvore-em-si, mas tão-só uma qualidade da própria consciência. Não poderíamos experimentar a qualidade íntima de qualquer perceção, fosse ela sensorial, intelectual ou outra, se não tivéssemos em nós mesmos a priori uma consciência capaz de se experimentar a si própria, de se bastar a si própria. Pois como conceber que pudéssemos intimamente experimentar um sentimento ou perceção se a própria intimidade nos fosse absolutamente exterior?

Daqui fui levado à convicção de que somos dotados de alma, ainda que estritamente num sentido de faculdade de visão íntima ou “olho do espírito”, e não de vontade ou intelecto ativo, como no sentido aristotélico tradicional. A realidade desta intimidade radical com o ser através do sentir, do pensar, do percecionar, conduziu-me à crença de uma intimidade ainda mais profunda e radical com o próprio Ser ontológico do real; pois não consigo ver esta intimidade-subjetividade de que somos dotados senão como um extraordinário privilégio cósmico, num universo que – muitos querem acreditar – é puramente objetivo, isto é, é apenas dotado de realidade exterior, objetal, sem qualquer interioridade. Mas nós temos metafísica dentro de nós, e, portanto, há que admitir que há pelo menos uma “coisa” no universo objetivo que tem interioridade metafísica.

Isto para chegar ao seguinte: a evidência íntima da intimidade com o ser conduziu-me a uma intuição da ontologia do próprio Ser, pois a consciência do ser-próprio traz consigo a força da inexorabilidade de todo o Ser no qual o meu ser está implicado, ou seja, da sua absoluta necessidade. Pode aquilo que é não ser ou até nunca ter sido? Pensemos bem: pode o ser não ser infinito, não ser absoluto; pode o ser coexistir com o nada absoluto? Intimamente acredito que onde há ser há plenitude absoluta, eternidade; o vazio, o nada absoluto, não tem nem podem ter aqui lugar, pois tal constituiria uma insustentável contradição ontológica do ser consigo próprio. Tudo o que há é Tudo em Tudo.

É claro que se trata de uma íntima convicção fundada na evidência íntima da consciência. De certa forma, é também uma fé. Confere racionalidade, ainda que meramente esquemática, ao meu desejo de Totalidade, oferece-me um horizonte de realização no Ser.

Mas, como dizia o poeta indiano Tagore, não basta ver o mar para atravessá-lo. Não basta ter um vislumbre, ainda que ténue, do horizonte para partir confiante para a caminhada salvífica. São precisos a confiança, o esforço e o tremendo risco; são precisos o empenho da vida, o compromisso épico, o heroísmo da virtude e não somente o exercício confortável da teoria.

É que a multiplicidade, a variedade, a riqueza infinita da Verdade exige mergulho na experiência da procura empenhada e no risco. Não chega ficarmo-nos pelo esquemático, pelo conceptual; temos de tentar dar conteúdo existencial, vital, às nossas aspirações mais elevadas; expandir as fronteiras do pensável e do dizível.

Quando não sabemos somos como os prisioneiros da caverna platónica – nem sequer sabemos que não sabemos. Se nascemos cegos nunca saberemos como é ver, ou sequer o que ver significa. Isso pode levar-nos a acreditar que o mundo é mesmo assim como o (não) vemos. E assim escapam-nos dimensões da realidade absolutamente mais vastas e profundas, para sempre. Mas o que nos salva é que, como já disse anteriormente, somos tomados pela intuição dos limites do pensável e do dizível; somos de certa forma chamados, por vocação natural, à contemplação do inominado, mesmo que através do símbolo; e assim somos levados a transcender a nossa condição imediata e a ousar o desconhecido, e até mesmo à conclusão de que sabemos que não sabemos, o que em vez de uma maldição nos surge como outra face do Sublime das coisas.

O que nos salva, então? É que eu na verdade nada sei, mas tenho uma sede indizível pelo indizível.

 

Ruben Azevedo é professor e membro do Ginásio de Educação Da Vinci – Campo de Ourique (Lisboa); subtítulos da responsabilidade do 7MARGENS.

 

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